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Uma declaração de afeto à voz dela

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Ele Ed, ela Catarina

CRÉDITOS: JOÃO SOUSA

Houve um dia em que eles se cansaram das músicas que fizeram e pegaram nessas canções antigas para depurá-las e reinventá-las. Deu disco minimalista e sofisticado, que às vezes se dança e às vezes nos desacelera. E é uma declaração de afeto à voz dela: "As músicas são compostas a pensar na Catarina, na voz da Catarina. O resultado final existe porque a Catarina existe". Confissões e revelações dos Best Youth, que nos chegam do Porto com vídeos à David Lynch e influências pioneiras: Jon Hopkins, FKA Twigs, Moderat e as bandas sonoras do Reznor.

Helena Bento

Jornalista

Tudo começou com uma "coincidência". Ele gostava de ir ao Pop, um bar na cidade do Porto, antigo D. Urraca, e ela também. O bar tinha palco aberto e organizava noites temáticas, e numa dessas noites o pré-requisito para subir ao palco e tocar era fazê-lo na companhia de uma voz feminina. Ele perguntou "à malta" se conheciam alguma miúda que cantasse e referiram-lhe o nome dela. Tocaram juntos nessa noite, e na seguinte, e na seguinte, e quando deram por si tinham formado uma banda, a que deram o nome de Genius Loki. Ele já tocava há algum tempo, sobretudo em bandas de garagem, mas para ela, que nunca tinha cantado senão "no chuveiro" ou para "adormecer as amigas", foi uma experiência absolutamente nova.

A história tem graça e tem também o seu quê de bonita, mas contá-la com rigor exige que se recue alguns anos, a essa praia no Algarve que os pais de ambos, bem como outras famílias que pertenciam ao mesmo "grupo", frequentavam durante as férias de verão. Foi assim que Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas se conheceram. Tinham cerca de 15 anos e, "como todos os adolescentes", passavam os dias de calor a ouvir música, sair e estar com os amigos.

Os Genius Loki terminaram em 2006 com a ida do baterista para o estrangeiro. Ed e Catarina continuaram a desenvolver os seus projetos individualmente, mas não haveria de tardar muito até que se juntassem novamente. Em 2010, Ed começou a trabalhar num álbum a solo e lembrou-se de pedir à Catarina para cantar em algumas músicas. Ela aceitou. Ao fim de algumas sessões perceberam que o entendimento era de tal modo absoluto que não havia nenhuma razão para não voltarem a formar uma banda. Agarraram nesse punhado de músicas que Ed já tinha começado a fazer, trabalharam nelas em conjunto e em 2011 lançaram um EP, "Winterlies". Assinaram Best Youth.

As expetativas eram modestas. Até porque o EP, garantem, era apenas uma forma de "começarem a existir", "de estar cá fora" e de "ganhar tempo" para aquilo que queriam realmente fazer: lançar um LP. Depois de "Winterlies" ter saído começaram a trabalhar nas músicas novas, mas o êxito desse primeiro disco foi de tal modo imediato (e inesperado, reconhecem), que a preparação do novo álbum teve ser adiada. E por êxito entenda-se os convites para concertos, para tocar nos festivais de verão (Primavera Sound, Sudoeste, Mexefest, Paredes de Coura, Alive), para gravar um disco com We Trust ("There Must be a Place", que lhes ocupou quase um ano), projeto de André Tentugal, com o qual seguiram depois em digressão pelo país.

Pelo meio gravaram uma música com Moullinex ("In the Shade") a convite do produtor David Valentim, para integrar a sua coletânea "T(h)ree", um projeto que tem como objetivo reunir músicos portugueses e asiáticos. "Nós somos grandes fãs de Moullinex e por isso aceitámos logo, e ele, que pelos vistos era igualmente nosso fã, também aceitou", explica Ed. Sobre a experiência, não podiam ter opinião mais unânime: "Correu às mil maravilhas".

Quando finalmente voltaram a estúdio, ao fim de uma carrada de meses, já não se identificavam com as músicas que tinham feito: "Já não fazia sentido". Decidiram mesmo assim continuar, agarrar nas músicas antigas e alterá-las, mas este trabalho de desbaste, ou depuração, foi de tal modo bruto que acabaram por fazer um álbum novo. Lançaram-no em março, com o título "Highway Moon".

O resultado, já se sabia, haveria de ser bem diferente daquele que apresentaram em "Winterlies". "Depois do nosso EP começámos a explorar outras opções, apesar de eu sempre ter estado mais ligado ao rock. Percebemos que a voz da Catarina, que tem um timbre muito particular - assim como é particular a maneira como ela canta - se calhar resultava melhor de outra forma, e quisemos explorar isso, partindo dos sintetizadores, das texturas e dos ambientes".

Dão como exemplo a música "Red Diamond", single do álbum, cujo videoclip (realizado em colaboração com João Sousa) foi lançado em dezembro do ano passado. "Tentámos explorar duas vertentes, uma mais calma, mais minimalista, para dar mais espaço à voz da Catarina, e outra vertente mais rítmica, porque também não quisemos perder uma parte que para nós é importante, que é sentir que estamos a transmitir energia para o público", explica Ed, para quem o adjetivo "dançável", que certamente virá a ser usado a torto e a direito para caracterizar o álbum (até pelo próprio, que reconhece que é a melhor maneira de classificar a música que fazem atualmente) não é o mais apropriado: "Se é dançável, fica-se com a impressão que o nosso objetivo era pôr as pessoas a dançar, mas não fazemos música com esse nem com qualquer outro objetivo concreto. Fazemos a música que queremos fazer".

O novo álbum não deixa também de refletir algumas influências mais recentes, reconhece o duo, enumerando alguns projetos de música eletrónica que têm vindo a seguir atentamente: Jon Hopkins, FKA Twigs, Moderat, Cliff Martinez e as bandas sonoras de Trent Reznor.

"Highway Moon", assim como "Winterlies", foi composto por Ed e produzido por ele e Nuno Mendes, mas a divisão de tarefas é mais ambígua do que parece à primeira vista: "As músicas são compostas a pensar na Catarina, na voz da Catarina, e naquilo que queremos fazer juntos. Embora a Catarina não tenha mão na parte técnica da composição, o resultado final existe porque a Catarina existe".

O videoclipe de "Mirrorball", terceira faixa do álbum, foi lançado no início de abril (a realização é de Tiago Ribeiro). Há uma garagem (que também pode ser uma cave) e no centro dessa garagem que também pode ser uma cave duas pessoas vestidas de negro, encapuzadas, usando máscaras cinzento-metálico para encobrir o rosto, envolvem-se numa espécie de duelo ou dança (ou "ritual de iniciação a um culto", esclarecem), a que se juntam depois mais vultos também vestidos de negro e também encapuzados e também usando máscaras cinzento-metálico sobre o rosto. Catarina e Ed também aparecem no vídeo, primeiro sem máscaras e depois com máscaras, "porque também pertencem a esse ritual".

Preferem não desvendar muito, a cada um a sua interpretação, mas deixam uma pista: "Quisemos fazer uma abordagem mais ou menos à David Lynch, isto é, não ser demasiado literal ou explícito". E conseguiram. O melhor é mesmo ver.