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Testemunho do poeta António Carlos Cortez

A poesia de Ramos Rosa é "libertadora e libertária. Neste tempo de sadismo financeiro lê-lo é fundamental", diz o poeta e crítico literário António Carlos Cortez neste texto escrito no dia da partida de Ramos Rosa.

António Carlos Cortez

"A verdadeira poesia ignora a afirmação do fácil, porque se ela é uma afirmação do que o poeta logra arrancar à confusão e ao caos, não poderá, portanto, satisfazer-se com o mero enunciado das certezas superficiais ou sequer das convicções comuns mais sinceras, se estas não forem postas á prova desse momento me que o poeta se reencontra na "linha de sombra""

Estas são palavras do primeiro parágrafo do texto de abertura de "A Poesia Moderna e a Interrogação do Real - I" (Arcádia, 1979, 1ªed.). Ramos Rosa já tinha aberto a nossa compreensão da poesia pelo lado mais difícil: o lado da palavra e seu poder criador e de nomeação. O real, dito por meio da palavra surge, em Ramos Rosa, como um campo (por definir) de possibilidades. Uma das asserções mais radicais do poeta de "Estou Vivo" e" Escrevo Sol" será talvez esta: "Não é o poeta que faz o poema. O poema é que faz o poeta." É porque a poesia irrompe dum inconsciente, que se torna gradualmente consciente no acto da escrita, que a poética ramos-rosiana acaba por defender o princípio da "virtualidade criadora".

Para mim os poemas de António Ramos Rosa perseguem essa multiplicidade significativa que abre a nossa percepção ao mundo. Trata-se quase sempre duma abertura que se relaciona com a procura de algo verdadeiramente desconhecido e essa procura do desconhecido leva Ramos Rosa a afirmar-se como poeta do novo, do desejo absoluto do novo, sinónimo, na sua poesia, duma pureza inicial. De "O Bói da Paciência" a poemas insertos em volumes mais recentes, como é o caso de Os Animais do Sol e da Sombra, que tive oportunidade de organizar em 2003, vai um longo caminho. Um caminho marcado pela intensa meditação sobre a necessidade da poesia na vida do Homem, animal sempre condenado às mais ínvias e subtis formas de escravização. A poesia tem, em Ramos Rosa, essa capacidade libertadora e libertária. Neste tempo de sadismo financeiro lê-lo é fundamental.

Vale a pena, por último, reter a dimensão ensaística de António Ramos Rosa: a sua reflexão teórica não se separa da sua prática poética. E Ramos Rosa é, como poucos na poesia da segunda metade do século XX, um poeta-crítico que questionou sempre o humano e condenou sempre a tendência para, mesmo na poesia, se aprisionar o homem ao que é unívoco e ortodoxo. Ramos Rosa conquista um lugar cimeiro na nossa historicidade poética precisamente porque a uma estética do uno preferiu uma estética do múltiplo. O seu rigor, a sua ética é inseparável dessa luta pela imaginação verbal, hoje tão necessária.