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Viagem ao submundo do crime

Radhika Apte interpreta Anjali Mathur em “Jogos Sagrados”

“Jogos Sagrados” é o nome da primeira série indiana da Netflix e o drama criminal de oito episódios inaugura uma nova fase da expansão do serviço de streaming. A versão televisiva do romance de Vikram Chandra já está disponível e é a primeira de muitas produções já em marcha no subcontinente indiano

Uma rede de crime organizado, corrupção, política e espionagem. E ligações privilegiadas entre os vários quadrantes de uma sociedade em mudança apressada. Estão reunidos os ingredientes para uma grande história, que podia passar-se em qualquer parte do mundo, mas que ganha argumentos reforçados quando se percebe que tudo isto acontece num local como Bombaim. E com um livro de um indiano-americano como referência.

“Jogos Sagrados”, que cruza as vidas de pessoas de diversas classes sociais e com atividades diversas — aqui há espaço para privilegiados, famosos, miseráveis e sanguinários —, promete explorar a história criada por Vikram Chandra com um total respeito pela visão do seu criador e valorizando também os talentos locais. As estrelas de Bollywood Saif Ali Khan e Zawazuddin Siddiqui foram duas das apostas da produção, que colocou os atores a interpretarem um polícia e um líder de um gangue cujas vidas se cruzam (e que já estariam ligadas no passado). Sartaj terá de salvar a cidade da destruição, com recurso aos avisos encriptados do criminoso Ganesh Gaitonde, mas existirão outras histórias a cruzar-se ao longo dos oito episódios, que contam com realização de Anurag Kashyap e de Vikramaditya Motwane e que tem ainda a atriz Radhika Apte no núcleo de protagonistas. Foi com a produtora dos dois realizadores, a Phantom Films, que a Netflix produziu “Jogos Sagrados”, num trabalho de equipa elogiado pelas várias partes.

Apesar do entusiasmo — Vikram Chandra mostra-se confiante de que “toda a cor, vitalidade e musicalidade” do mundo que criou “se tornará real” na plataforma de streaming —, esta é uma parceria que não foi firmada sem condições. A Netflix não foi a primeira a tentar adaptar o romance de Chandra, mas foi a primeira a aceitar as exigências do autor. Houve um canal norte-americano a querer levar “Jogos Sagrados” para a televisão, mas queriam que a série fosse filmada em inglês e Chandra queria que a ação se passasse em hindi — para o autor não fazia sentido que os gangsters de Bombaim falassem noutra língua — e a produção nunca avançou. Com a garantia da Netflix de que respeitaria esta condição, tudo se tornou mais fácil. O escritor viu a sua vontade satisfeita e o serviço de streaming piscou o olho a um novo país, assim como aos milhões de indianos que vivem por todo o mundo.

Forte aposta indiana

Com uma população estimada em mais de 1,3 mil milhões de pessoas e uma economia em franco desenvolvimento, a Índia é um dos mercados mais cobiçados pelos canais de televisão e serviços de streaming. É lá que será possível crescer mais nos próximos anos — não será o caso em mercados mais maduros como os Estados Unidos e a Europa, numa altura em que a China recusa a entrada de empresas ocidentais no negócio de televisão pela internet — e a Netflix sabe disso. Está a fazer uma marcação cerrada, pois considera que será no país da Ásia meridional que vai conquistar os próximos 100 milhões de clientes (mesmo que atualmente se estime que apenas conta com um milhão de utilizadores e que em 2020 apenas chegará aos três milhões). A fraca penetração da banda larga no país pode ser um obstáculo, mas o grupo norte-americano espera que isso mude nos próximos tempos e não se cinge a uma carta de intenções.

“Jogos Sagrados” não é a única aposta local e estão já desenvolvimento outras séries indianas, que se juntarão ao catálogo de filmes disponibilizado nos últimos meses. De acordo com a “Bloomberg”, em 2019 estrearão 17 projetos diferentes com origem no país, numa ofensiva de proporções nunca antes vistas (e que supera o que fizeram até nos Estados Unidos). A operação de charme terá começado no início do último ano, quando abriram os seus escritórios de Bombaim, e desde aí que estão a negociar com produtoras locais a criação de novos conteúdos.

Às já anunciadas, como “Selection Day”, “Bard of Blood” ou “Again”, juntar-se-ão três novos projetos em breve, cuja data de estreia ainda não é conhecida. Em comunicado, Erick Barmack avançou que “estas três séries, do assustador ao sobrenatural, representam a tremenda diversidade das histórias indianas”, que agora terão a possibilidade de serem conhecidas em todo o mundo. Para o vice-presidente da Netflix para as séries originais internacionais, há ainda a destacar que o serviço de streaming está a trabalhar “com alguns dos mais talentosos argumentistas e produtores” nestes novos projetos que agora se apresentam, avançando com alguns títulos em carteira. Entre as novidades apresentadas estão o drama “Leila”, de Urmi Juvekar e baseado no livro de Prayaag Akbar — passado num futuro próximo, fala-nos de uma mulher em busca da filha que perdeu 16 anos antes —, a série de horror sobrenatural “Ghoul” (criada a partir do folclore arábico e centrada num campo de detenção secreto) e ainda o mistério juvenil “Crocodile” (sobre um homicídio em Goa).

O catálogo não para de aumentar e o facto de os títulos estarem disponíveis em diversos idiomas parece ser a chave para o sucesso em grande parte dos países. Ao contrário dos portugueses, muitos utilizadores estão habituados às dobragens e só assim se rendem a histórias de outras geografias. Serão as séries indianas a próxima tendência entre europeus e norte-americanos? Com “Jogos Sagrados” disponível em streaming, os primeiros dados já estarão a ser recolhidos. E não é apenas nas investigações de Sartaj Singh (Saif Ali Khan) que eles são tudo. Nos corredores da Netflix valem milhões.

JOGOS SAGRADOS
De Vikram Chandra Com Saif Ali Khan, Nawazuddin Siddiqui, Radhika Apte
Netflix, já disponível em streaming (Temporada 1)