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Expresso

Teatro

É menino ou menina?

Vanessa (Carolina Campanela) e a Fada Marina (Julie Sergeant) em "Vanessa Vai à Luta"

Mário Sabino Sousa

Uma comédia de Luísa Costa Gomes que levanta questões de género, de comportamento e de ideologia

Vanessa tem cerca de 7 anos, e gosta de brinquedos de rapazes. O que ela mais gostava de ter era uma metralhadora. O irmão, de 8 anos, tem uma, mas nem brinca com ela, nem a empresta; e não gosta muito de brinquedos de rapazes. Não é apenas a questão dos gostos de Vanessa que causa algum ruído. Atrás disso vêm perguntas, quando se percebe que a mãe está grávida do terceiro filho. O que é que os pais querem, rapaz ou rapariga? Pode-se escolher? Vanessa coloca questões simples, para as quais nunca consegue respostas satisfatórias; e de maneira quase natural, o que passa a estar em jogo são questões de género, de comportamento, de ideologia — nascer mulher ou homem, comportar-se de certa maneira, obedecer a certos padrões, espreitar para o que está por debaixo ou por detrás do que perece óbvio para uns e nada óbvio para outros.

“Vanessa Vai à Luta” é uma comédia, e foi representada pela primeira vez em 1998, pela Companhia de Teatro de Portalegre, com encenação de Manuel João Borges. Em 2005, Ana Tamen voltou a encenar a peça, na Comuna, em Lisboa. Luísa Costa Gomes, nas notas para o espetáculo, vê a obra, ironicamente, como “uma inocente fábula feminista do final dos anos noventa do século passado”; e em vinte anos, “tudo mudou”. Para António Pires, o encenador, essas possíveis marcas são uma vantagem, criam uma distância que, dada a inteligência da escrita, intensifica a possibilidade de uma reflexão crítica; “as pessoas agora gostam de tudo”, afirma. E não esconde a sua satisfação pelo espaço do Trindade — uma sala à italiana, com um modelo de palco particularmente grato ao encenador; permite tudo, “a magia e a grandeza do teatro”.

O espetáculo, com carreira para público em geral e uma carreira, mais longa, para público escolar, conta ainda com outra dimensão, a cargo da associação Welcome People & Arts, que se dedica a promover a inclusão e a integração, e a tratar questões de tolerância e de respeito, através de atividades culturais, artísticas e desportivas. Para este projeto, a ideia é ir às escolas que o desejarem, e organizar workshops após os alunos terem visto a peça, colmatando falhas que os professores, muitas vezes, não podem resolver.

Os atores são Carolina Campanela, João Veloso, Cátia Nunes, Hugo Mestre Amaro e Julie Sergeant.

Vanessa Vai à Luta
De Luísa Costa Gomes

Teatro da Trindade, Lisboa, 
de 19 a 22 de janeiro e de 11 
de fevereiro a 1 de abril