Siga-nos

Perfil

Expresso

Música

Pedro Burmester fala sobre novo disco

Após dez anos de silêncio, Pedro Burmester disse ao Expressou que gravou Schubert e Schumann como quem regressa a casa.

Luciana Leiderfarb (www.expresso.pt)

Schubert, o luminoso. Schumann, o imponderável. O novo disco de Pedro Burmester contém-nos aos dois, lado a lado, como irmãos que jamais foram, o primeiro um clássico que começa a deixar de o ser - e, quando começa, a sua vida acaba -, o segundo um romântico que nasceu com "um lado difícil de agarrar, de compreender, de dominar com o pensamento".

Dez anos passados, voltou a entrar num estúdio de gravação levando o programa que viu crescer no palco. "Porque é ali que as obras crescem", dirá ele, que nutre pelos palcos sentimentos ambíguos, entre a necessidade e a inevitabilidade. Inevitável parece também ter sido o regresso aos compositores com os quais gravou o seu primeiro disco, em 1987. Schubert, Schumann. A matriz germânica de Burmester.

Alfred Brendel e um concerto que deu em Salzburgo, e ao qual Burmester assistiu em miúdo, despertaram-lhe a curiosidade por esse Schubert que, no derradeiro ano de vida, foi prolífico em obras-primas.

Terapia de choque

"Ele intuiu que não ia viver muito mais tempo", opina o pianista. Schumann e os "Estudos Sinfónicos", por sua parte, surgem como "terapia de choque" após um longo período de pouco trabalho diário: mais físicos, mais virtuosos, representam o duplo desafio da técnica e do domínio de um compositor indomável. Cada vez mais, Pedro Burmester está certo que o seu trabalho é o de "ir à essência", até esta se revelar à razão.

"Esta é uma música de outro tempo. Mas é cada vez mais necessária para afrontar este suposto beco sem saída. Já houve períodos mais negros, a diferença é o medo, jamais tivemos um tal grau de medo." Lançar um disco no meio da escuridão tem a ver, também, com a função do intérprete. A de mostrar que o que está além da realidade concreta - a música - tem o poder de a mudar. "É aparentemente algo abstrato, mas diz qualquer coisa muito diretamente às pessoas, se elas ouvirem mesmo."

Voltar a Bach

O disco esgota um período de quase um ano a tocar este repertório, que a partir de agora deixará descansar. Nos próximos tempos, Pedro Burmester quer voltar a Bach, às três primeiras Partitas (já estudara as três últimas); à Sonata em Si menor (que gravou naquele primeiro disco de 87) de um Liszt em fim de vida, depurado, religioso, despojado. Quer cumprir a promessa de todos os anos estudar repertório novo. "Estou no meio da ponte. Sou alguém que já não tem 20 mas ainda se lembra deles. E não está no fim mas sabe que vai a caminho."

E deseja continuar a ensinar, ou melhor, a aprender a ensinar, sempre com a ideia de, um dia ("ainda é cedo"), envolver-se num projeto pedagógico que contrarie a formatação ainda vigente nas escolas de música. "As escolas separam coisas que deviam estar juntas, como tocar, compor e improvisar", diz.

Não por acaso, escolheu o Conservatório de Lisboa para fazer esta entrevista. Porque "simbolicamente representa o ensino da música, mas o abandono político é evidente mal se entra e se olha para a degradação do edifício". Estamos no Salão Nobre, joia do século XIX, de porte elegante na sua decadência. Com pilares avulsos para suportar o peso do balcão. Respiram-se as memórias dos que por aqui passaram. Burmester percorre-o e, sem soltar a gabardina e o guarda-chuva, senta-se na plateia estragada. Esta é outra das tarefas do músico: sempre que possível, intervir.  

Texto publicado na revista Atual de 27 de novembro de 2010