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Mário Laginha leva Chopin ao jazz

Chopin dentro de um trio de jazz. Pode? Só pela mão de um músico completo que ousa uma heresia "a transbordar de respeito". Mário Laginha fala sobre o novo disco, aos 50 anos, a fase em que o levam a sério...

Luciana Leiderfarb (texto), Tiago Miranda (fotos) (www.expresso.pt)

Deram-lhe carta-branca. Não se dá carta-branca a qualquer um. E, quando se dá carta-branca a alguém como ele, o resultado é imprevisível. Por isso, a palavra escolhida para o nomear não pode, não deve ser comum.

Mário Laginha andou à procura pelos dicionários e não foi no de português que encontrou o termo certo, aquele que existia para estar na capa deste disco, qual desígnio inominável e secreto, mesmo antes de os dicionários serem criados.

"Mongrel", diz ele, com o sorriso de quem suscita nos outros um enigma por si já resolvido. Como tudo o que faz, como tudo o que o rodeia, a palavra tem música, é musical, podia ser de qualquer língua ou de nenhuma, até podia ser inventada, fruto dos jogos a que se presta um experiente improvisador quando não está sentado ao piano.

O adjetivo "mestiço"

Porém, não há jogos por aqui. O adjetivo é inglês, significa 'mestiço'. Adequa-se ao objeto que nomeia, coisa estranha, elegante, belíssima, pesadelo para puristas, mestiça de uma mestiçagem que o músico não quis relacionar com a África que já evocou noutros dias, noutro tempo. "É que o disco não tem a ver com África", insiste, e não é capricho. É o que dá ter carta-branca. Só se arranja confusão.

Não, o disco não tem nada a ver com África, mas com Chopin. Com um "mongrel Chopin", um Chopin mestiço, alvo de furiosas metamorfoses e trocas. E tem a ver com o seu autor, Mário Laginha, que por acaso tinha as partituras em casa, e por acaso as conhecia bem, e, num movimento centrífugo, as "puxou" para o seu universo.

O convite veio da Metropolitana e do Teatro Municipal São Luiz, que em junho organizaram um festival pelo bicentenário do compositor polaco: "Telefonaram-me para participar, mas com a proposta de que eu fizesse o que quisesse com a sua música." Entre todas as hipóteses, escolheu arrastá-la para dentro de um trio de jazz.

Chopin transformado

Ao entrar por essa porta, Chopin saiu transformado. Transformado em Mário Laginha. Ambos tornados no outro, misturados, miscigenados. Bernardo Moreira alerta no contrabaixo, Alexandre Frazão a postos na bateria. O disco que agora surge é consequência de um encontro descomplexado e pacífico - que só comporta os tumultos da inspiração.

Na sala da sua casa de Sintra, às 14h de um dia fresco de outono, a escassas horas de dar um concerto no Técnico e há dois meses num frenético vaivém Lisboa-Porto pela sua participação na peça "Sombras", de Ricardo Pais, no São João, Mário Laginha parece não ter pressa.

Sentado no sofá, a lareira em frente a refletir-se-lhe nas lentes, gerando a ilusão de uns olhos de fogo, dirá: "O que me faz sentir bem com a minha consciência é que eu faço sempre o melhor que posso. Partindo deste pressuposto, vale tudo."

O processo de seleção deste Noturno, desse Scherzo ou daquela Fantasia foi mais intuitivo que racional. A obra tinha de "prestar-se" à transfiguração. Havia melodias que lhe estavam na memória desde a infância, quando assistia com o pai e o irmão mais velho às eliminatórias do Concurso Vianna da Motta, ou quando ouvia o irmão tocá-las na casa que ainda partilhavam.

Com outras cruzou-se mais tarde, quando, já um confesso pianista de jazz, pecou a entrada no Conservatório para "um ou dois anos de técnica" e gostou tanto que foi até ao fim. Das oito faixas que compõem o álbum, só a Valsa demorou a revelar-se: "Eu queria por força meter uma Valsa, mas nenhuma era apetecível. De repente, ouvi uma em lá menor. Disse: 'É esta.' Mudei-lhe o compasso, achei que assim tinha mais graça."

Espaços para a improvisação

Não se pense que Mário Laginha acusa ligeireza. É fluente na linguagem cifrada dos compositores, que traduz para os leigos explicando, por exemplo, que abriu espaços para a improvisação, modificou harmonias, 'simplificou' estruturas, complexificou, dividiu, juntou, alargou, encolheu, aproveitou, pôs de lado.

"Como o jazz aqui não era um acrescento, como não se tratava de fazer uma versão com ritmo de jazz - odeio isso solenemente -, havia coisas que eu tinha de limpar. Se deixasse tudo, respeitava Chopin mantendo intacto o que escreveu, mas não o respeitava no espírito. Curiosamente, este é um dos discos mais jazz que alguma vez fiz."

O trabalho é de autor. De um autor sobre outro autor. "Uma pessoa tem de ter o cuidado de fazer com que o momento em que se improvisa não pareça forçado", sublinha, e corre de seguida ao piano para dizer com as mãos o que não consegue com o discurso.

Sobre o instrumento, uma Partita de Bach escancarada está à espera de intérprete. Em cima da mesa, partituras de Albéniz, Grieg ou Mendelssohn amontoam-se sem mais nexo que o gosto pessoalíssimo de quem as detém. Custa-lhe devolvê-las ao seu sítio na estante: "Às vezes, visito-as."

Aqui, nesta casa com vista para o mar, Mário Laginha cumpre a sua rotina diária de trabalho e de estudo, que começa invariavelmente pelo percurso até à escola do filho João, de 3 anos. Depois regressa, e é sem grande rigor de horários que se entrega ao piano.

"Passei por fases aflitivas

Apesar de não lhe faltar trabalho, ainda responde aos telefonemas com a urgência de outrora, em que o telefone não tocava e os convites eram a exceção. "Passei por muitas fases aflitivas", resume, ele que escolheu ser pianista de jazz numa altura em que a maioria dos pianistas de jazz se limitavam a ser a música de fundo dos hotéis.

Agora, tudo mudou. "Há um mercado, há concertos e festivais, há muitos músicos nos vários instrumentos. As pessoas hoje são boas porque são boas e não porque não há mais ninguém." Recorre a uma história, a sua, para lembrar o tempo em que acontecia o contrário: "Quando eu tinha o Sexteto de Jazz de Lisboa, diziam que era o melhor grupo de jazz português. Também era o pior, porque não havia mais nenhum."

Desde então, desde sempre, que gosta de experimentar e de arriscar. Os puristas, diz, caem-lhe logo em cima. "Mas felizmente os puristas já não são o que eram", ironiza.

Há 20 anos travou com eles uma guerra silenciosa: "Estava na moda o jazz tradicional, recuperado pelo Wynton Marsalis, que tocava standards de fato e gravata.

Por cá apareceram os Moreiras, com Bernardo Sassetti. Tocavam standards muito melhor do que nós e vinham bem vestidos. Nós fazíamos uma música algo arrevesada e éramos uns baldões em termos de vestuário. E os críticos de jazz, que até diziam bem do Sexteto, deixaram de falar de nós. Morremos de morte natural."

A fase em que o levam a sério

Sem dramas, ressuscitaram. São, todos eles (com Tomás Pimentel, Maria João, Carlos Bica e Carlos Martins, entre muitos outros), a geração que viu evoluir o jazz em Portugal. A quem devemos essa evolução.

Por isso, Mário Laginha, de 50 anos, está agora na fase em que o começam a levar a sério. Ele explica: "Um músico do meu tipo passa por muitas fases. Há aquela fase em que ninguém o conhece e as pessoas ficam deslumbradas. Depois vem uma fase - que é longa - em que sabemos que nunca mais vamos ser novidade. Não acho que seja só em Portugal, mas acontece que, por vezes, na passagem de ano, penso: 'Lá vou eu ter de provar a toda a gente, mais uma vez, que até sou um músico porreiro'."

Neste momento, Mário Laginha já diz coisas como "a minha música", "a minha linguagem". Recheada de influências tais como Bach, Mozart, Beethoven, Ravel, Prokofiev, Bartók, Stravinsky, Schumann. Chopin, que não ouviu durante anos. Keith Jarrett, por quem foi "obcecado" ("devo ter ouvido 'Facing You' centenas de vezes"). Lennie Tristano, Bill Evans, Miles Davis, John Coltrane.

Levanta-se para ajeitar o lume. Ocorre-nos perguntar a este homem, que discorre música de manhã à noite, que vive nela mergulhado, se tem mais alguma ocupação. A resposta não tarda, mas não convence.

Steinbeck à cabeceira

Adora ler - Steinbeck aguarda-o na cabeceira -, mas lê devagar, devido ao cansaço. Gosta de cozinhar, embora raramente o faça. Aprecia a pesca, mas pratica-a só uma vez por ano. Às vezes, anda de bicicleta.

Mas gosta "de mais" de comer e recentemente descobriu a arte de plantar. O aprendiz de jardineiro aponta para o jardim repleto de plantas aromáticas, para a lúcia-lima, o tomilho-limão, as alfazemas, as urzes, o cebolinho, a salsa, para as árvores de que se orgulha, as bétulas jovens, o limoeiro, os ulmeiros, a ameixoeira.

"Mongrel", afinal, também se aplica a ele, pensamos, enquanto o relógio diz que está na hora, que o concerto se avizinha, que há partituras por imprimir, dedos por aquecer. Impercetivelmente, Mário Laginha mergulha, submerge. A música toma-o. Como a vinha virgem que lá fora trepa pelo muro, com os seus pequenos pés de inseto.

No princípio é o espanto. Depois surge a certeza. Não demora muito a passar-se de um à outra. E de voltar ao espanto. Assim, mais ou menos, transcorre a audição de "Mongrel", o novo disco do Mário Laginha Trio, em que o pianista transpõe música de Fryderyk Chopin para trio de jazz (e onde toca com Bernardo Moreira no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria).

Espanto porque basta um curto instante para dissipar a estranheza e achar que aquela música assim transfigurada se apresenta como sempre foi, como sempre deveria ter sido - ou, pelo menos, como não renegamos que seja.

Há nela, ao mesmo tempo e sem contradição, a naturalidade das coisas criadas de raiz e a elaboração própria de um trabalho de apropriação e de moldagem. E há inspiração, afeto, respeito e transgressão, e entendimento entre os músicos (que parecem um só), e imperfeições deliciosas, e o silêncio - tão 'chopiniano' - que se intromete na teia musical para a enriquecer e alimentar.

Laginha escolheu oito obras (dois Noturnos, uma Fantasia, uma Valsa, um Estudo, um Scherzo, um Prelúdio e uma Balada) que lhe faziam sentido, às quais se encontrava ligado, e fez literalmente o que lhe apeteceu. Só fugiu ao ato ilícito de assinar 'uma versão' em que o jazz não passaria de um disfarce mal amanhado.

Ele garante-o na contracapa do disco, mas entre dizer e fazer existe por vezes uma distância atroz. Não: aqui não há nada disso, Chopin é matéria de criação, não de imitação. E mesmo quem ache abusivo não resistirá a uma tal luminosidade - a da obra inteira, completa, 'mongrelmente' complexa mas, no fundo, de uma simplicidade estonteante, que deixaria o próprio Chopin a sorrir.

Texto publicado na revista Atual de 27 de novembro de 2010