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Música

A casa que não era para ser a casa

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Rui Duarte Silva

Dias de celebração do décimo aniversário da Casa da Música.

Valdemar Cruz

Depois de ter ouvido em Graz, na Áustria, a ópera em um ato "Salomé", de Richard Strauss, Mahler terá decidido colocar em dúvida que a voz do povo pudesse ser a voz de Deus. Schoenberg, com palavras porventura mais cruéis, optou por subverter a fórmula criada por Mahler e deixar implícito que a voz do povo era, em boa verdade, a voz do diabo. Isto porque, escreveu mais tarde, "se é arte, não é para todos", e "se é para todos, não é arte".

A história é narrada por Alex Ross no seu indispensável livro "The Rest is Noise", e evidencia uma questão central, ao colocar em confronto os muitos mundos de que é feito o mundo da música e, por extensão, a infindável sucessão de linguagens e visões musicais tantas vezes geradoras de conflitos e animosidades entre compositores, musicólogos e público.

Nestes dias de celebração do décimo aniversário da Casa da Música (CM), inaugurada no Porto a 14 de abril de 2005, é reconfortante perceber como, ao longo de uma década, foi possível definir e concretizar um programa assente numa ideia base desde o início definida e defendida por Pedro Burmester, primeiro diretor artístico: aquela seria a casa de todas as músicas. As polémicas, como a versão para concerto das cinco óperas do Anel dos Nibelungos, de Wagner, ou o experimentalismo de John Cage, materializado na composição 4'33", mas de igual modo as músicas aceites pelo gosto comum ou as determinadas a questionar padrões estabelecidos. Os reportórios convencionais, e as propostas contemporâneas. A música popular, o jazz tradicional, as chamadas músicas do mundo, mas também as composições eruditas contemporâneas, o jazz de vanguarda, o rock independente ou todos os subgéneros da música urbana.

Não resulta daqui que a CM constitua uma amálgama estética ou artística. Muito menos será o espaço dos consensos pelos consensos, desde logo por ter sido ela própria, desde a origem, um poderoso foco gerador de polémicas. Bastará recordar que foi inaugurada seis ministros, cinco administradores, três presidentes de Câmara, dois programadores e quatro anos após a primeira data avançada para a sua abertura. Discutiram-se muito os custos da obra. Polemizou-se à volta da opção por abdicar do fosso de orquestra e, assim, em tese, não ser possível receber espetáculos de ópera. Questionou-se sempre, questionam-se ainda, algumas das opções programáticas. É natural. A identidade da CM constrói-se também a partir destas dinâmicas de sentidos opostos.

Concebida pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas, abriu portas a uma quinta-feira, após uma verdadeira odisseia construtiva. O projeto colocava em plena rotunda da Boavista um objeto estranho, insólito e, na opinião do empreiteiro, impossível de construir. Com o tempo o edifício transformou-se num ícone da cidade e dispõe hoje de um intenso programa próprio de visitas.

Um dia, e a propósito do trabalho de Koolhaas, dizia Álvaro Siza Vieira que "só a arquitetura medíocre não é polémica". Na verdade, aquela não é uma arquitetura medíocre, mesmo se apresenta inúmeros problemas práticos de utilização no dia-a-dia, com verdadeiras e perigosas armadilhas.

Numa visão mais lata, pode argumentar-se que se trata de detalhes quando estamos perante um objeto arquitetónico que soube projetar uma especial magia para o local onde ficou implantado. Serão poucas, em todo o mundo, as salas de concerto a proporcionarem um tão límpido diálogo do interior com o exterior, ou a conseguirem uma tão misteriosa e poderosa relação com a envolvente, ao ponto de ser a própria casa geradora de novos espaços de utilização no espaço em que se situa.

E, no entanto, esta é a casa que não era para ter sido a Casa. A história foi contada por Rem Koolhaas numa das suas primeiras visitas ao Porto e durante uma das mais estranhas entrevistas que terei feito ao longo de toda a minha vida profissional. Para minha completa perplexidade explicava o arquiteto holandês que a sua proposta, escolhida num concurso para o qual tinham sido convidados a participar grandes nomes da arquitetura, como Zaha Adid, Norman Foster, ou Jacques Herzog, entre outros, consistia numa adaptação de um projeto já existente, denominado "House Y2K", destinado a uma família belga muito complexa, empenhada em ter uma casa passível de ser usufruída pelos seus vários elementos em conjunto, mas também preparada para se reconverter em compartimentos estanques, conforme o determinassem os humores familiares.

Aquele foi o ponto de partida, seguido de alterações radicais, de escala e de uso. O que era para ter sido uma vivenda com 200 m2 transformou-se num edifício cultural com quase 4000 m2 de área. O que fora imaginado como um recanto privado transformou-se numa imensidão pública. Porém, como dizia Koolhaas, o objetivo nunca foi fazer um edifício público, mas tornar público um edifício. Esse é hoje o grande triunfo da Casa da Música.