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Expresso

Música

Anatomia de uma ópera-prima

Liudmyla Monastyrska (Abigaille) na produção de "Nabucco" no Met

Marty Sohl / Met Opera

Uma soberba (embora tradicional) realização do primeiro grande êxito de Verdi que hoje pode ser vista na Gulbenkian em transmissão do Met

Vi a estreia desta reposição do "Nabucco" no Met a 12 de dezembro, e vi a transmissão em direto e HD, em Londres, no sábado passado. A maior diferença está na direção flácida de James Levine nesta última récita. Por outro lado, enquanto Liudmyla Monastyrska (Abigaille) aperfeiçoou a sua excitante prestação, o sólido Dmitry Belosselskiy (Zaccaria) perdeu apoio nos graves profundos. Mas temos aqui uma soberba (embora tradicional) realização do primeiro grande êxito de Verdi — a sua terceira ópera. (Seguir-se-iam mais 26, algumas em várias edições.) A excelente Orquestra do Met é capaz de tocar isto de olhos fechados, e o Met Chorus é o melhor coro de ópera que conheço. Levine insiste em bisar o celebérrimo 'Va, pensiero'.

A importância do Coro quase atira "Nabucodonosor" (o título original da ópera em 1842) para a categoria de oratória. A produção (2001) relativamente estática de Elijah Moshinsky e a estrutura maciça do cenário rotativo de John Napier — uma muralha de face dupla, granítica para os Hebreus, bronzeada para os Babilónios — apontam na mesma direção. No entanto a propulsão ou momento cinético (e rítmico) da música agarra-nos e faz-nos vibrar. À combinação letal de religião com política juntam-se os conflitos de interesses familiares e de Estado. Todos os personagens (à exceção de Fenena, a filha de Nabucco, e do seu amante Ismael) parecem possessos de ambição, raiva ou vingança. Aqui, o som e a fúria shakespearianas significam tudo (e apanhamos com os estilhaços emocionais nos ouvidos porque o muro das lamentações do cenário é um bom refletor).

Numa produção sem distrações gratuitas, e com um elenco invulgarmente capaz de responder às temíveis exigências desta ópera, o público pode concentrar-se na música e maravilhar-se com a forma como Verdi usa as convenções do género para construir o drama. Nem é preciso que os cantores sejam bons atores — e na generalidade, não são — porque a música se encarrega de nos convencer. Descubram a maneira como um recitativo arioso ('Prode guerrier!') se transforma num trio, e este leva a um grande concertante (com coro e as interjeições lancinantes dos personagens principais), como acontece logo na I Parte, após a entrada de Abigaille. Ou como as várias fases de uma ária − recitativo (enunciação do problema), ária cantabile (meditação sobre o mesmo) e cabaletta energética (resolução e ação) constituem todo um programa de vida.

Monastyrska prova em 'Anch'io dischiuso' (II Parte) que é a lídima intérprete de Abigaille. (Notem a subtileza das ornamentações do 2º verso da cabaletta.) É raro ouvir o discreto papel de Fenena atribuído a uma voz da qualidade de Jamie Barton (atenção à ária da IV Parte, 'Oh dischiuso è il firmamento!'), mas receio pela futura saúde vocal de Russell Thomas (Ismaele), que já torce a boca. Aos 76 anos, Plácido Domingo ajusta mais um papel de barítono às suas capacidades de tenor sem agudos; não estraga o conjunto, mas soa como uma flauta a fazer de saxofone. É o baixo (Sumo-Sacerdote Zaccaria) quem abre e fecha a ópera.