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Expresso

Exposições

4 anos de Underdogs celebram-se no Príncipe Real

O coletivo de arte contemporânea desloca-se à zona franca da capital para dar provas daquilo de que se ocupou durante quatro anos.

Pedro Henrique Miranda

"GO BIG - GO HOME", de AkaCorleone, em exibição a partir de sexta-feira no Príncipe Real

"GO BIG - GO HOME", de AkaCorleone, em exibição a partir de sexta-feira no Príncipe Real

Underdogs

Longe de se limitar por obras de revitalização na sua principal residência, no Beato, o corpo de artistas da Underdogs, uma das mais vibrantes plataformas de divulgação artística contemporânea de que goza a capital, aproveitou a ocasião para mostrar, de portas abertas, parte do que de melhor tem passado pela galeria ao longo dos seus quatro anos de existência - e, no processo, assinalar a data de aniversário com a edição do seu primeiro livro.

O que se encontra a partir do próximo dia 12, sexta-feira, no número 18 da Praça do Príncipe Real é, então, na sua mais abrangente definição, um pouco de tudo o que assume como raiz estruturante a tradição da arte urbana. Nas palavras dos seus diretores artísticos, Pauline Foessel e Alexandre Farto, o espólio de "uma plataforma que se equilibra artisticamente entre as ruas de uma cidade, as paredes de uma galeria e a virtualidade de um site na internet". Plataforma essa que, encabeçada pelo próprio Farto, porventura mais conhecido pelos elaborados murais que assina como Vhils, progressivamente se vai impondo como um dos nomes a não esquecer no contemporâneo artístico português e internacional.

"Fraternité" (2015), de MaisMenos

"Fraternité" (2015), de MaisMenos

Underdogs

Para isso contribui o facto de, na brilhante constelação que compõe o fenómeno da Underdogs, perdurar a sensação de um convite à exploração, como o próprio nome indica, de um "outro lado": da tradição, da inovação tecnológica, do sistema político e económico vigente, dos sentimentos, do próprio modo como interpretamos objectos e formas e pelo qual atribuimos importância aos valores que estimamos. De forma algo generalizada, a voz de um extrato geracional marginalizado que não se faria ouvir de outro modo, cuja identidade não conhece barreiras de nacionalidade (há muitos portugueses, sim, mas também proveniências tão distintas quanto Espanha, Argentina, Estados Unidos, França, Alemanha ou o Brasil) ou até mesmo, ao que tudo indica, de criatividade.

E isso engloba todo o espectro que separa o trabalho emocionalmente sincero e embriagado de modernidade de Wasted Rita, por exemplo, dos murais de MaisMenos, o projeto interventivo e politicamente consciente de Miguel Januário. Vai apresentar, no Príncipe Real, a peça inédita "Sold Out", uma bandeira da União Europeia rasurada com as palavras que compõem o seu título, que diz comentar "já em 2013 [altura da sua criação], os sentimentos de insegurança e de fragilização da UE, numa altura em que já se antecipava um Brexit anuciado, a marginalização da Grécia, e ainda as políticas de mercado da comunidade e as suas consequências em outros lugares, como no território africano". "É um projeto provocatório", explica, "tem uma parte de protesto mas também de reflexão, e não deixa de explorar o sistema paradoxal em que nos encontramos, a dicotomia e o atrito de pólos opostos".

"The Victory of Nobody" (2016), de Okuda San Miguel

"The Victory of Nobody" (2016), de Okuda San Miguel

Underdogs

É segundo a mesma lógica de questionamento e relativização, embora nem sempre com as mesmas bases conceptuais, que se desenvolvem os trabalhos de outros artistas da Underdogs expostos a partir de sexta-feira no Príncipe Real - 14 no total, com uma peça cada um. É o caso de Okuda San Miguel, espanhol que elege as cores vibrantes como principais armas dos seus murais e esculturas que se dividem entre a geometria perfeita e a discordante; ou Clemens Behr, da Alemanha, que reorganiza materiais descartados para gerar mesmerizantes distorções da ordem convencional dos objetos. É também o dos murais e peças em cerâmica do português Add Fuel, que se propõe a modernizar o imaginário pictográfico, português por excelência, do azulejo: "É o diálogo entre a cultura e a herança e aquilo que se vê todos os dias nas ruas. Há essa preocupação, de pensar a tradição e como ela pode ser interpretada num contexto de modernidade".

Por toda a excelência artística a encontrar, a Underdogs propõe-se ainda a apresentar um livro de memórias, com o que de melhor retirou dos quatro anos de existência de uma galeria em permanente colaboração com artistas nacionais e internacionais. O registo, homonimamente baptizado de "Underdogs", é assinado pela diretora, Pauline Foessel, e Miguel Moore, a mesma mão que se ocupou de descrever, por palavras, as obras que foram passando pela galeria independente ao longo dos anos. A exposição de entrada livre está aberta ao público de terça a domingo, das 11h às 20h, e vigora até 28 de maio.