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Só o cinema

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FOTO JOSÉ VENTURA

"Se o cinema de Manoel de Oliveira foi - e foi - o garante da possibilidade do cinema português, foi-o pela grandeza do modo como se manteve intacto." Crónica de Maria João Madeira, programadora da Cinemateca Portuguesa (que dedica a programação desta segunda-feira ao realizador).

Maria João Madeira

Num curto filme de 1932, imediatamente seguinte a "Douro Faina Fluvial", filmado com as suas sobras de película e assimilável na composição vertiginosa da montagem como no esplendor plástico dos planos, que estreou em 1938 e depois desapareceu até finais dos anos noventa, ainda muito pouco visto,  Manoel de Oliveira filmou a electricidade. "Hulha Branca" prestava-se, literalmente. A assinatura é de Cândido Pinto, Oliveira nunca valorizou muito o filme remetendo-o ao lugar de um apontamento inicial, registo de um empreendimento familiar, a inauguração da Central Hidroeléctrica de Ermal, em Rio Ave, nesse ano fundada pelo seu pai, primeiro fabricante de lâmpadas eléctricas em Portugal. Mas "Hulha Branca", que é isso, é também um filme de carga eléctrica. Feito de planos de água em jorros, parada entre os muros da barragem ou caindo em cascata sobre uma encosta, de tubagens a sulcar a paisagem em ângulos que se desdobram tendendo para abstracção das linhas, numa profusão de rimas internas, escalas intercaladas, um jogo com a profundidade de campo, encadeamentos de imagens de linhas verticais e transversais mas também de mecanismos circulares. Neste pequeno filme, que não tem a eloquência de "Douro" com o qual partilha os pressupostos vanguardistas formais, há no entanto uma energia de tal modo transbordante que projecta uma funda afirmação de cinema. 

Ao correr do tempo e dos filmes (do ano de 1931 de "Douro" a 2014, data de "O Velho do Restelo", suprema ironia como título de último opus), incólume às pateadas (logo com "Douro"), interrupções forçadas (várias foram, é ver a cronologia da obra), polémicas extremas (a de "Amor de Perdição", de 1978, terá sido a mais ferozmente partilhada pela sociedade portuguesa), à consagração oficial (iniciada a partir de fora de Portugal pouco depois), à espera ("O Estranho Caso de Angélica", de 2010, é a concretização de um projecto do início dos anos 50), o que Manoel de Oliveira fez foi reafirmar pujantemente esse princípio. A obra é feita do singular e intransigente caminho que foi o seu, a cada passo alinhado com o presente no sentido da existência cinematográfica de cada plano, fixidez ou movimento de câmara, da tecnologia e das suas possibilidades, da matéria cinematográfica, da visão proposta do mundo. Nunca da urgência reclamada pelos ares do tempo, de que é prova acabada a realização de "Benilde ou A Virgem Mãe" em 1975, em total arrepio à militância da época. Se o cinema de Manoel de Oliveira foi - e foi - o garante da possibilidade do cinema português, foi-o pela grandeza do modo como se manteve intacto. A liberdade da obra de Oliveira, com amplo espaço para desmentir as ideias feitas que foram "imprimindo a lenda", procedendo ousada, não raras vezes por rupturas, aberta às suas próprias multitudes, é consequentemente criativa e formal. 

Foi o assombro de "O Gebo e a Sombra", última longa-metragem (2012), um filme de seis actores para seis personagens a partir de uma peça de Raul Brandão, uma primeira vez na obra de Oliveira, que também pela primeira vez filmou em digital, uma obra que interroga as profundezas humanas mantendo-se irredutivelmente cinematográfica. Concentrado no parco cenário da sala de estar de uma casa pobre, de paredes rugosas e escuras, iluminadas por lamparinas, é narrativamente um filme em que o dinheiro, "o dinheiro [que] nunca se perdoa", tudo dita e tudo perde. Minimais, austeros, fixos, compostos frontalmente, frequentemente como se à boca de cena, olhados directamente pela câmara, com poucas variações de posição, todos os planos deste filme reflectem graciosamente a sua natureza de planos de cinema. O trabalho digital da imagem recria belissimamente a iluminação de outro século recortando as personagens da penumbra com as tonalidades e texturas da luz de lamparinas. Sendo um filme assombrado pelo espectro da perdição, não há muitas sombras visíveis na imagem mas uma nitidez dos contornos que se distinguem do escuro, focos de luz dourada e tremeluzente, numa vibração que no final se congela em paralítico devolvendo a imagem das personagens voltadas para o fora de campo. É um terrível desfecho, mas no negrume de "O Gebo e a Sombra" há uma delicadeza e um estremecimento profundamente comoventes, atravessados de luz.  

Voltar neste ponto aos planos finais de "Hulha Branca" não é mais do que uma hipótese em arco. São de intermitência, lâmpadas eléctricas que acendem em grande plano como uma imagem de espanto. Há para eles uma rima, na obra de Oliveira, a mais pungente luz do farol que pulsa como uma batida cardíaca em "Porto da Minha Infância" (2001), caso raro de assumida revisitação autobiográfica entre os seus filmes. Há "o outro", completado em 1982 para deixar como filme póstumo, "Visita ou Memórias e Confissões". A ver com certeza em breve por ser preciso usufruir o proveito de uma surpresa bem guardada, e em que é difícil não pensar como um último gesto de originalidade não desmerecendo o piscar de olhos, o aceno. A "Visita" há de ser um presente, mas o que por linhas talvez travessas aqui se tenta lembrar é que os (muitos) filmes de Manoel de Oliveira são para ser vistos, a vitalidade está toda lá.

 

Texto escrito ao abrigo do anterior acordo ortográfico