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"Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa: 'será verdade ou só um sonho meu?'" Morreu Tomas Tranströmer

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O poeta sofreu um AVC em 1990 que o paralisou parcialmente. Mas nunca deixou de escrever

FOTO FREDRIK SANDBERG/ EPA

Tomas Tranströmer  sofreu um AVC em 1990 que o paralisou parcialmente, mas não deixou de escrever e ainda foi galardoado com o Nobel da Literatura em 2011. Tinha 83 anos.

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes. 

Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões. 

Acenavam através das grades. 

Gritavam que lhes tirassem o retrato.

"Mas aqui!", disse o condutor e riu à socapa como se cortado ao meio,

"aqui estão políticos". Vi a fachada, a fachada, a fachada 

e lá no cimo um homem à janela, 

tinha um óculo e olhava para o mar. 

Roupa branca no azul. Os muros quentes. 

As moscas liam cartas microscópicas. 

Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa: 

"será verdade ou só um sonho meu?"

 

(Tomas Tranströmer, in "21 poetas secretos", 1987, Vega.

tradução de Vasco Graça Moura

 

Este poema, intitulado de "Lisboa", pertence ao autor sueco Tomas Tranströmer, Nobel da Literatura em 2011. Era caracterizado como uma pessoa alegre, mística e com uma mente brilhante. Falou sobre Lisboa e sobre o Funchal nas suas obras e era tido como um dos melhores poetas do mundo. Faleceu esta quinta-feira, vítima de uma doença, num hospital em Estocolmo, aos 83 anos. O anúncio foi dado esta sexta-feira pela editora sueca Bonnier. Além de poeta, foi também tradutor, psicanalista e tradutor.

Tomas Tranströmer foi o autor sueco mais traduzido no mundo. Detentor de uma escrita crua e considerado um mestre da metáfora, Tomas Tranströmer teve as suas obras traduzidas em mais de 40 línguas. Foi, ao longo dos anos, galardoado com grandes prémios internacionais, como o Pilot, destinado a escritores com obras literárias notáveis na língua sueca.  

Em 1990, Tomas Tranströmer sofreu um AVC que o paralisou parcialmente e o impossibilitou de falar. As suas mãos deixaram de ter a mesma destreza, mas não deixou de escrever. O último livro que escreveu data de 2004, "O grande Enigma", 14 anos depois do problema de saúde que teve.  

A música passou a ser uma companhia assídua para o poeta. A sua mulher afirmou que o poeta tocava todos os dias piano, mas apenas com a mão esquerda, porque a direita ficou paralisada pelo AVC que sofreu.

A existência de um ser humano...

Os seus poemas eram caracterizados pela sua forte imaginação e pelas suas próprias experiências, onde conjugava o humano com a natureza de uma forma explosiva. Não necessitava de embelezar os seus poemas e era essa a beleza da sua escrita.

Tomas Tranströmer nasceu em 1931, em Estocolmo. A sua paixão pela poesia teve início quando era ainda uma criança. Começou a escrever quando estudava no básico e viu o seu trabalho ser publicado em vários jornais. Foi o início da sua carreira.   

Estudou, entretanto, Psicologia na Universidade de Estocolmo. Depois de concluir os seus estudos, enveredou pelo mundo psicológico, trabalhando como psicólogo numa instituição de jovens delinquentes durante seis anos, onde lidava com toxicodependentes, presos e deficientes. Mas nunca deixou de escrever. A partir de 1954, Tomas Tranströmer centrou-se na poesia e publicou o seu primeiro livro, "17 Poemas", na maior editora sueca, Bonniers. Desde então, escreveu mais 19 obras.

"Janelas e Pedras", datado de 1966, foi um dos livros mais marcantes que já escreveu, pelas metáforas que utilizou para descrever os mistérios da mente humana e as viagens que fez durante esse período de tempo.  Em 2011, foi galardoado como Nobel da Literatura, depois de ser apontado para o prémio todos os anos, desde 1993. O júri que lhe concedeu o galardão afirmou que as imagens "condensadas e translúcidas" ofereciam-lhes um "fresco acesso à realidade".

Um crítico sueco explicou o que fica de Tranströmer: "A existência de um ser humano não acaba onde os seus dedos terminam."