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"Recomendo a todos os meus amigos que vivam até aos 100 anos"

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FOTO JOSÉ VENTURA

Meses antes de celebrar 100 anos anos, Manoel de Oliveira revelava-se preocupado com as consequências do progresso adquirido pela humanidade e dizia que a crise maior era acontecer uma guerra. Neste dia em que nos deixou ("é como se a Terra perdesse a camada de ozono"), republicamos um artigo saído no Expresso na edição de 21 de junho de 2008. "Penso que sou mais admirado pela minha idade do que pelos meus filmes."

Valdemar Cruz

O tempo é um fingidor. Cria a ilusão da ausência de movimento e, no entanto, move-se sem parar. Passa e não se vê que passe, mesmo se para trás ficam cem anos de uma vida vivida de forma intensa. Manoel de Oliveira, um século de vida a partir do próximo dia 12 de Dezembro, tal como sente que "o tempo finge que se não move", vê-o como um bem escasso. A acumulação de vidas contidas num século de vida obriga-o a lamentar "a falta de espaço em casa e a falta de tempo na vida". Diz que chegar aos cem anos tem "as suas vantagens", como ter o Presidente da República a presidir às comemorações do centenário do seu nascimento: "É uma coisa que recomendo aos meus amigos".

Curvam-se os mais novos perante a agilidade mental e física revelada pelo mais velho dos grandes realizadores do mundo ainda em actividade. De novo o tempo. Em Setembro quer começar a rodar em Lisboa um filme baseado no conto de Eça de Queirós, 'Singularidades de uma Rapariga Loura'. Mantém o objectivo de retomar 'Angélica', um filme que implicitamente o fascismo o impediu de realizar em 1953 e cujo argumento entretanto actualizou. Com o tempo surgem-lhe mais papéis, mais ideias, mais desejos de dar largas ao universo criativo que o transformou, ao longo de oitenta anos de actividade, num dos mais imaginativos e inovadores realizadores do cinema europeu. Com uma linguagem própria. Com um olhar muito particular. Com um tempo narrativo que é o seu tempo. Por isso, afirma, faz "filmes de resistência como objectos de arte". Por isso Hollywood, para onde chegou a ser convidado a ir trabalhar, não é um planeta distante. É outra galáxia, que não inveja, nem quer como sua.

O seu plano é outro. Sabe que fazer filmes "é vencer a morte". Então, continuará a filmar, sempre com apoio de produtores estrangeiros e algum suporte do Estado português. Em sua opinião "os estados perdem muito em não intervirem na defesa das artes".Primeiro convidado dos almoços no Porto Palácio, Manoel de Oliveira, chegado ao hotel, na Avenida da Boavista, tem um desabafo coerente com o humor que tanto o caracteriza. Ao abandonar o automóvel sorri e diz que, para almoçar num restaurante tão próximo, "podíamos ter vindo a pé".

A ementa era «moderne», como dizia Manoel de Oliveira, que durante o almoço Expresso/Porto Palácio falou aos jornalistas João Vieira Pereira, Ricardo Jorge Pinto e Valdemar Cruz do modo como vê o mundo e das muitas veredas percorridas num século de vida

A ementa era «moderne», como dizia Manoel de Oliveira, que durante o almoço Expresso/Porto Palácio falou aos jornalistas João Vieira Pereira, Ricardo Jorge Pinto e Valdemar Cruz do modo como vê o mundo e das muitas veredas percorridas num século de vida

FOTO RUI DUARTE SILVA

O humor é de novo servido à mesa quando lhe comunicam a ementa e não resiste a contar um episódio ocorrido na Serra da Estrela com um turista estrangeiro que o perseguia a contar histórias depois de o ter sabido realizador. Oliveira rematava sempre com um juízo de valor do agrado do seu interlocutor: "Très moderne". Pois muito "moderne" foi também a proposta do cozinheiro do restaurante 'Le Coin', no Porto Palácio Hotel. Colocou, a abrir, um "foie gras" com uvas brancas, "shot" de caviar e vinho do Porto. Veio depois um rolinho de linguado sobre lasanhete de limão, a que se seguiu peito de pato tostado com mel de violetas e vinagrete, com arroz caldoso de espargos verdes. À sobremesa, tulipas de chocolate em três percentagens de cacau. Em três horas de conversa farta falou-se do fim do espaço privado nas vidas quotidianas com a emergência da televisão e, agora, dos telemóveis, do desentendimento com a Câmara Municipal do Porto, de que resulta a actual situação de abandono da Casa de Cinema Manoel de Oliveira, ou da sua disponibilidade para assinar a petição dos jovens estudantes universitários que reclamam uma extensão ao Porto dos filmes do acervo da Cinemateca Nacional.

Atento à realidade que o cerca, não esconde que lhe incomoda o estado do mundo, mas não sente a obrigação de reflectir nos filmes as suas particulares preocupações. "Aos artistas não cabe governar o mundo. Os políticos preparam o futuro. Aos artistas cabe mostrar o futuro que encontram".

Por exemplo, o progresso. Encanta-o. Constata o aumento de conforto proporcionado pela evolução do mundo, mas vê com preocupação o facto de o Oriente adoptar comportamentos "comprovadamente errados do Ocidente". A terra está a correr um grande risco, mas se morrermos, diz, pelo menos "vamos morrer confortavelmente".

Oliveira declara-se um humanista. Vê Portugal como "uma nação muito particular" que criou "o primeiro movimento universalista do mundo com os descobrimentos", apresentados como um acto "feito com humanidade e sabedoria". Esse mesmo Portugal é, no entanto, vítima "da inveja e de uma luta fratricida que o têm impedido de se desenvolver". Aqui cita Salgado Zenha quando dizia ser necessário ter cuidado com os portugueses, que "mais do que quererem ser melhores que tu, não querem que sejas melhor que eles".

Para um homem que nasceu ainda no tempo da Monarquia, passou pelo advento da República, atravessou as duas guerras mundiais e a guerra civil de Espanha, viveu a ditadura do Estado Novo, assistiu ao 25 de Abril ou à queda do muro de Berlim, falar da actual crise mundial será como comentar um pequeno acidente que terá de ser relativizado no tempo, até porque, conclui, "a crise maior é a possibilidade de uma guerra".

Ainda assim diz-se triste com o seu país. Há episódios vários que lhe moldam essa tristeza, como a circunstância, por exemplo, de a Lusomundo se agarrar a uma lei dos anos trinta para o impedir de usufruir dos direitos sobre 'Aniki-Bóbó',(1942), o seu primeiro filme de estúdio. "A Lusomundo ainda está no tempo do Salazar. Ainda não percebeu que houve o 25 de Abril".O caso será dirimido nos tribunais e é por situações como esta que Oliveira despeja em cima da mesa uma frase carregada de ironia triste: "Penso que sou mais admirado pela minha idade do que pelos meus filmes".