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Quidam. Nos bastidores de uma Arena dos Sonhos

Força. “Quidam” emociona-nos e faz-nos sonhar

Fomos conhecer "Quidam", o espetáculo do Cirque du Soleil que ontem estreou em Portugal. Entre treinos, ensaios e uma viagem aos bastidores deste mundo mágico, mostramos-lhe uma das maiores produções da companhia circense que já conquistou milhões de pessoas.

João Miguel Salvador (texto) e José Ventura (fotos)

Uma arena que se abre ao mundo, num espetáculo de luz, cor e sombra que nos faz sonhar. É "Quidam", a produção do Cirque du Soleil que chegou ontem a Portugal e que por cá fica até 28 de dezembro. Estreada pela primeira vez há 18 anos, transformou-se há apenas quatro num exercício de Arena, ideal para transformar a maior sala de espetáculos do país num universo paralelo que - com 52 artistas, entre acrobatas, músicos, cantores e atores - nos faz sonhar mais alto e entrar no mundo de Zoé. Chama-se Meo Arena mas já foi Pavilhão da Utopia (no já longínquo ano de 1998), um nome que assentava que nem uma luva àquilo que vimos na tarde de ontem. Se nos lembrarmos do facto de o Cirque du Soleil já ter sido uma pequena companhia, parece-nos mentira. Mas não é. É mesmo uma utopia tornada realidade.

"Quidam" já foi visto por milhões de pessoas nos cinco continentes, mas a grandiosidade do espetáculo só é possível graças à dedicação de milhares de pessoas: no total a companhia é composta por 4 mil pessoas, 1100 delas dedicadas exclusivamente a este espetáculo. A primeira apresentação aconteceu na última noite, mas o Expresso Diário chegou mais cedo, com um objetivo bem definido: contar o outro lado do Cirque du Soleil; mostrar o trabalho de bastidores; entrar onde poucos podem estar. 

 

Carol e Lais entraram há poucos anos para a companhia. “Quidam” é o sonho das suas vidas

Carol e Lais entraram há poucos anos para a companhia. “Quidam” é o sonho das suas vidas

Testemunhos lusófonos São 75 nacionalidades a trabalhar em conjunto, numa família alargada nem sempre fácil de gerir. Passam o ano juntos, vivem a quadra natalícia longe das suas famílias, ensaiam, treinam e convivem durante semanas. Funcionam como uma Arca de Noé, que viaja por todo o mundo com o essencial à sobrevivência das espécies. Ou de uma espécie em particular, a dos artistas preparados para enfrentar os maiores desafios da arte circense. Lais lembra-nos que a vida na companhia nem sempre é fácil, mas que o profissionalismo tem de ultrapassar todas as barreiras. "Às vezes já não podemos nem ouvir a voz de alguns colegas, mas quando estamos no palco, a ensaiar ou no show, tudo tem de ficar para trás das costas. A confiança é obrigatória e as desavenças ficam lá fora", assegura-nos.

Carol, como gosta de ser chamada, também nos falou da vida na companhia, mas lembrou-nos a falta que lhe faz a família. Tem pena que a vida em constante viagem a impeça de acompanhar os que mais ama de perto, mas aproveita todas as folgas (têm duas semanas livres a cada 10 de trabalho) para visitar os que deixou em São Paulo, a sua terra-natal. 

O caminho até "Quidam" Carol fazia ballet desde pequena e foi ginasta olímpica, mas o bichinho do circo não a largava. Mesmo quando estava sem trabalho, era nesta área que queria trabalhar. Diz-nos que "o mundo das artes me apaixona" e que ter encontrado o Cirque du Soleil foi o melhor que lhe poderia ter acontecido. Foi atriz porque o teatro a chamou, procurava trabalho e a maior companhia do mundo foi ao seu encontro. As audições aconteciam no Brasil e Carol decidiu arriscar. Não tinha nada a perder e três anos depois, é visível a felicidade com que fala do mundo em que entrou.

Lais tem um percurso semelhante mas não pôde participar no casting paulista. Enviou a sua candidatura - acompanhada por um currículo e vídeos dos seus principais trabalhos - e restou-lhe esperar. Lembra-se que os nervos eram muitos e que a ânsia tomava conta dela. Quando recebeu a esperada notícia, já estava mais calma. "O processo de seleção é um caminho que se percorre e é tudo muito natural", explica.

 

Rituais de conforto Antes de entrar em palco, Carol tem uma série de rituais que a acompanham desde sempre. "Faço o aquecimento, uma oração, uns pulinhos e um cumprimentos especial com os colegas do número", conta-nos. Depois do espetáculo, também tem hábitos que não dispensa: "Depois de cada show, confiro sempre a 'hashtag' #Quidam", onde procura avaliar a sua prestação e interagir com quem a vê.

Entre perucas, kits de maquilhagem, fatos e muita cor, conhecemos os camarins que ajudam a construir o Universo que mais tarde é dado a conhecer. São milhares de peças organizadas e tratadas diariamente, num trabalho árduo executado por profissionais bem treinados. O material desgasta-se todos os dias e é preciso que esteja perfeito para a próxima atuação. Tudo o que tem contacto com a pele dos artistas é metodicamente lavado e passado a ferro, estamos numa casa de primor.

Onde o primor também não falha é no ginásio. Há força mental, mas muito trabalho a fazer. Faltam poucas horas para mais uma estreia - a penúltima da tournée europeia, que termina em Tenerife, Espanha - e tudo tem de estar a postos. Os corpos são fisicamente superiores aos nossos, os músculos estão aquecidos e tudo tem de correr na perfeição. Desafiam a gravidade, saltam a pés juntos sobre trampolins humanos, contorcem-se com uma facilidade sobrehumana, vivem a sua profissão durante dias a fio, numa arte que se ensina mas que nem sempre se aprende. Aqui estão os melhores, os mais bem preparados artistas e atletas, que dão corpo a "Quidam". Conhecemos um mundo à parte, fomos os "transeuntes anónimos" (tradução para a expressão latina que dá nome ao espetáculo) convidados a entrar num mundo de fantasia sem igual.