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Perdemos o mestre. Morreu Manoel de Oliveira

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FOTO RUI DUARTE SILVA

Cineasta faleceu esta quinta-feira aos 106 anos. Era considerado um génio da sétima arte, respeitado aqui e além-fronteiras. Trabalhou até ao fim com uma energia que parecia inesgotável.

Manoel de Oliveira, o mais velho realizador do mundo, faleceu esta quinta-feira vítima de doença prologada. Deixou 33 longas-metragens e algumas curtas. Foi aclamado pela crítica internacional e nacional.

Oliveira nasceu na freguesia de Cedofeita  na cidade do Porto, no seio de uma família da alta burguesia nortenha, com origens na pequena fidalguia. Ainda jovem foi para a Galiza, onde frequentou um colégio de jesuítas. Dedicou-se ao atletismo, tendo sido campeão nacional de salto à vara e atleta do Sport Club do Porto, um clube de elite.

Ainda antes dos filmes veio o automobilismo e a vida boémia. Eram habituais as tertúlias no Café Diana, na Póvoa de Varzim, com os amigos José Régio, Agustina Bessa-Luís, Luís Amaro de Oliveira e outros. Mas cedo é mordido pelo bichinho do cinema. 

Aos vinte anos vai para a escola de atores fundada no Porto por Rino Lupo, o cineasta italiano ali radicado, um dos pioneiros do cinema português de ficção. "Berlim: sinfonia de uma cidade", um documentário vanguardista de Walther Ruttmann, influencia-o profundamente. É então que roda o seu primeiro filme, "Douro, Faina Fluvial", um documentário estreado em Lisboa perante uma plateia de críticos internacionais que estavam em Portugal a participar num congresso organizado por António Ferro.

A obra de Manoel de Oliveira é marcada por duas tendências opostas presentes em toda a sua filmografia. Em todos os filmes que realizou antes de 1964, curtas e longas-metragens, predomina um estilo cinematográfico puro, sem diálogos ou monólogos palavrosos. "O Acto da Primavera" (1963) é o primeiro filme de Oliveira em que o teatro filmado se torna uma opção e um estilo. "O Passado e o Presente" (1972) será o segundo. Contradizendo-se na prática, é a propósito deste filme que Oliveira  explica em teoria: "enquanto arte cénica, o teatro é bem mais nobre e muitíssimo mais antigo do que o cinema e é por isso que este se deve submeter à palavra".

Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1980) e cavaleiro da Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1988), Manoel de Oliveira foi também muito aclamado em França, o país que talvez mais o admirava. No ano passado, recebeu das mãos do presidente François Hollande o título de Grande Oficial da Legião de Honra, comenda atribuída pelo Governo de França às personalidades influentes no cenário global ligadas ao país. 

São da autoria de Manoel de Oliveira filmes tão importantes como "Aniki-Bobó " (1948), "Benilde ou a Virgem Mãe" (1974), "Non, ou Vã Glória de Mandar" (1990), "Vale Abraão" (1993), "O Estranho Caso de Angélica" (2010) ou o Gebo e a Sombra (2012), entre muitos outros filmes de grande mestria. O último filme do cineasta foi a curta-metragem "O velho do Restelo", "uma reflexão sobre a Humanidade", estreada em dezembro passado, por ocasião do seu 106º aniversário.