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O amor anda na rede

Os sites de encontros têm cada vez mais usuários. Há cada vez mais pessoas que tentam encontrar a alma gémea através da internet.

Alexandra Simões de Abreu (www.expresso.pt)

Entro na página e posso escolher: sou homem/mulher e procuro homem/mulher entre x e y anos. Opto por - sou mulher e procuro homem, entre 25 e 45 anos.

2º passo. O meu perfil. Nome, data de nascimento, país e região onde vivo, além de email e password.

3º passo. Completar o meu perfil. Estado civil, religião, nível de prática da religião, quero ter filhos?, profissão, nível de escolaridade, rendimentos, blá, blá...

Mas há mais. Posso fazer a minha descrição física e revelar a cor dos meus olhos e do cabelo (se ele é curto, comprido, rapado ou se sou calva), a minha origem étnica, qual o meu estilo (sofisticado, clássico, na moda, executivo, descontraído, desportivo, étnico, boémio ou rock) ou revelar a minha personalidade (carinhosa, sensível, generosa, bem humorada, nervosa, desinteressada, possessiva, sociável, solitária, espontânea ou supersticiosa, entre outros) e até, o mais atraente em mim (a boca, o cabelo, o traseiro, os seios, os olhos, o pescoço, as minhas curvas, etc). Não resisto e, neste último, clico na resposta 'não consta da lista'. Afinal de contas, quem quiser saber o que há de mais atraente em mim terá de conhecer-me pessoalmente, não? De notar, porém, que para todos os items há a hipótese de escolha 'guardo-o para mim', uma forma mais simpática de dizer 'não quero revelar'... embora tenha a impressão de que, se abuso desta opção, não vou ter candidatos interessados.

Sigo para 'o meu estilo de vida'. A lista é imensa: os meus gostos musicais, os meus filmes preferidos, os meus animais de estimação, as minhas actividades (passatempos, saídas, actividades desportivas), os meus hábitos (se fumo e o que como). Ufa!

O homem ideal

Mas ainda falta um dado, este sim muito importante: descrever 'o homem ideal'. As opções que tenho pela frente são semelhantes às que escolhi sobre mim. Isto é, posso "dizer" se prefiro loiros, altos de olhos verdes e aspecto sofisticado, com bons peitorais. Feita a escolha, entro na página que me dá acesso logo à partida a mais de 35 mil usuários de 101 países que estão online. Três minutos depois já tenho quatro visitas ao meu perfil, fora as inúmeras sugestões que o próprio site me deixa ver. E três dias depois, além de mais visitas, já recebi inúmeros galanteios e emails de usuários de vários países. Isto tudo sem colocar foto!

Carrego num dos perfis para iniciar uma conversa mas sou encaminhada para uma página onde percebo que, para continuar, tenho de fazer uma assinatura de um mês, três ou seis meses, com preços que variam entre os 12,90 e os 34,90 euros/mês. Pergunta. Será que, com a crise económica mundial que levou à falência empresas, fábricas e até bancos, com consequente aumento do desemprego, este mercado do dating online, dos sites de encontros, consegue sobreviver?

A verdade é que não só resiste como aparentemente até floresceu. "A crise afectou-nos de forma positiva. O ano passado foi o melhor ano em termos de receitas para a Meetic em Portugal, registando um aumento superior a 80% ano", garante José Ruano, director-geral do portal Meetic.com, na Península Ibérica.

Os brasileiros são os campeões no uso de sites de relacionamentos (segundo uma pesquisa da Nielsen) e, a nível europeu, não há quem bata os portugueses.

A Meetic é o maior portal de dating online na Europa - adquiriram recentemente a Match.com Europa -, presente em 15 países, tendo mais de 54 milhões de usuários. Em Portugal, este portal tem "mais de um milhão de usuários", concentrados sobretudo em Lisboa, seguida por outras cidades como Porto, Coimbra, Braga, Aveiro, Setúbal e Faro.

Perfil dos usuários

 

O perfil dos usuários regista uma idade média de 28 anos, em que 52% são mulheres e 48% homens e, "em geral, o nível cultural é alto (formação universitária)". Em 2008 a Meetic registou "vendas no valor de 133,6 milhões de euros", garante José Ruano.

E este é apenas um dos mais de 600 sites de encontros que os portugueses usam. Mas o que leva as pessoas a procurar relacionamentos via Internet? Primeiro, não esqueçamos que o amor não tem preço; depois, as pessoas não deixam de amar em tempos de crise e recessão, "sobretudo porque não gostam de estar sozinhas em períodos de crise económica. Outra das razões, e apenas secundária, é que, sozinhos, torna-se muito mais complicado fazer face às dificuldades económicas, pois não temos ninguém para partilhar as despesas", justifica aquele responsável, que alerta ainda: "Sabemos que a falta de companhia deve-se à sociedade na qual vivemos, à actividade frenética, ao stresse e à competição constantes, à excessiva dependência do relógio, aos horários excessivos de trabalho. Cerca de 1,5 milhões de portugueses, com idades compreendidas entre os 20 e os 50 anos, são solteiros; e 67% destas pessoas vê com muita normalidade a possibilidade de casar-se com alguém que encontre num dos sites de encontros de pares", justifica José Ruano.

A verdade é que "não existe nenhum estudo profundo sobre os sites de encontros", segundo Gustavo Cardoso, professor do departamento de Tecnologias da Informação do ISCTE, pelo que "não sabemos se as informações divulgadas por estes portais correspondem à verdade".

Há uns anos, Maria Rocha, 47 anos, resolveu entrar numa sala de chat. Acabada de regressar da Suíça, onde esteve emigrada 10 anos, "precisava de fazer amigos, arranjar um grupo para sair e, quem sabe, encontrar um homem interessante". Passado um ano, Maria tinha um pequeno grupo de amigos... mas também um desgosto de amor. Tudo arranjado via Internet. "A determinada altura percebi que não queria nada certo". A desilusão abrandou o ritmo de 'passeios' pelos chat's, mas o seu espírito sonhador e aventureiro acabaram por levá-la ao encontro de um engenheiro com quem já vive há cinco anos e que, há um, aceitou partir com ela para Inglaterra, na tentativa de conseguirem melhores empregos.

Será sempre assim tão fácil encontrar o amor via internet? Mais uma vez o responsável pela Meetic na Península Ibérica afirma que "80% dos usuários conseguem ter um encontro", e que através daquele portal já se formaram "mais de 500 mil casais". A julgar pela minha curta experiência... não é difícil arranjar pretendentes.

(Texto publicado na Revista Única da edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009)