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O poeta carnívoro

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Aos 82 anos, Herberto Helder publica "Servidões", um novo livro de uma beleza convulsa, atravessado por explosões de energia visceral. É poesia "em estado de milagre", escrita pelo maior poeta português vivo. Nestas páginas, reunimos três aproximações a uma obra que já esgotou nas livrarias. Republicamos o texto saído na edição do Expresso a 1de junho 2013

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

Vivemos mais ou menos todos da mesma maneira. E das mesmas maneiras. "Burrocraticamente." (Obrigada, Herberto, pelo neologismo essencial.) "A idade desesperada é ir investindo nela: a morte no gerúndio." Um gerúndio camoniano, em todo o caso. 

Este livro final, terminal, contém uma salvação mais do que uma redenção de uma vida diferente das outras. E uma descoberta física: a mortalidade banal das humanas criaturas. Contém a prova de que existirá ainda, por aqui, por aí, em todos os lugares da língua, os lugares onde Herberto Helder espera sobreviver, um grande poeta com grandes versos dentro de si. Grande é umadjetivo sobreusado, sobrestimado, sobrevalorizado, como se diz agora. O tempo é o da uniformidade verbal, da ideia absolutamente corrupta, da vida de servidões. 

"Dos trabalhos do mundo corrompida/ que servidões carrega a minha vida." E, no meio desse tempo uniforme, um conjunto diferente de palavras, as mesmas palavras de todos os dias mas dispostas numa gramática nova, limpidamente correta, corretamente límpida.

"Servidões" é o novo livro de Herberto Helder e vem precedido de avisos solenes: este livro não é como os outros, porque este poeta não é como os outros. Não colabora. Devora. E devorar é o verbo que se repete, um verbo íntimo, autobiográfico. A biografia de Herberto, a mais impossível das biografias, a menos autorizada, restringe-se por vezes a este verbo - devorar. E não é um devorar metafísico, antes físico, enunciado como uma fome de cor, forma, cheiro, uma fome dos cinco sentidos por matéria: "Trouxeram uma vez um porco selvagem caçado nas serras e atiraram-no para cima damesa da cozinha, uma longa mesa coberta de zinco. Abriram-no de alto a baixo com enormes facalhões e cutelos, o sangue corria por todos os lados, meteram as mãos e os antebraços na massa vermelha, e eles reapareceram depois como calçados de luvas sangrentas, vivas; deitaram então para o balde as vísceras que fumegavam: os pulmões, o fígado, os intestinos. De tudo aquilo subia um perfume agudo, embriagador, doloroso. À noite tive febre. Havia qualquer coisa pérfida e perversa neste mundo das frutas muito fortes, dos animais esquartejados, dos cheiros, este mundo espesso e quente, um mundo de imagens orgânicas." Este registo autobiográfico, fragmento dememória, diz-nos que Herberto foi sempre mais carnívoro do que herbívoro. O sexo e a morte são assim tratados, como atos rebentados, crus, cruéis, lugares onde "a carne é comida, e ressurge, mercê da aliança da linguagem com as formas! Não se discorre". É este o lugar recôndito do nascimento do poema, do nascimento da vida. Este é o mais devassado e confessional Herberto, que apanhamos do Herberto há muito tempo, perto de "Os Passos em Volta", o livro da juventude. Este é o livro da velhice do padre eterno, onde ele se concede a dádiva da memória, rememora e repassa o filme, se detém em frente aos espelhos e descobre neles um rosto ardido, remoto, e ao mesmo tempo afirma a vitalidade da poesia como algo que não acaba nunca, fome que não acaba nunca, e que resiste ao tempo, ao modo, algo que "rouba uma vida própria à vida geral" para conseguir exceder "a insolvência biográfica". 

Esta poesia tão inteligentemente moderna e a luminosa prosa que a antecede, poetando, devolvem-nos a magia do verbo, vêm tocadas pela força de uma arte que consegue observar-se observando a arte, o processo da arte, a dificuldade da arte em fazer-se, em cumprir-se. A arte e a sua fome pelas coisas cruas, intocadas, pelas coisas que mais ninguém cria e procria,mais ninguém concebe e consegue parir, como as mães dos versos sobre as mães, porque o segredo das mães é imitarem a terra e os seus elementos, o princípio de todos os princípios, o ato primordial. As palavras, ao contrário da carne e do osso, são fugazes, matéria de tempo, e é preciso apanhá-las distraídas, às palavras, para as aprisionar no poema. Explica-nos.

Herberto nunca teve outra identidade que não a da sua arte. Nunca o apanharão nas fnacs e snacks da literatura ou a mandar um poema para "a revista onde colaboram todos". Porque ele só vai onde os outros não estão. "Mando se não colaborar ninguém. Porque nada se reparte: ou se devora tudo/ ou não se toca em nada."

O livro consagra um itinerário caminhado em anos, 80 anos de violenta exigência e ascese, 80 anos pela idade fora à procura do "poema soberbo sobre a inocência". O poema por escrever. A morte está agora em frente, rondando os passos em volta da presa. Um ser menor seria tentado a pedir um adiamento para preparar a posteridade. Este poeta lúcido, sem temor nem melancolia, sabe que "os capítulosmaiores da vida, suas músicas e palavras, esqueci-os todos". Resta, ainda, um poema, nunca o último poema, porque poesia é processo, não é fim. "Nada tem retorno e tudo é dificílimo (não só o máximo mas também o mínimo).

"Meu Deus, fizeste de Herberto Helder um grande poeta obscuro, como ele queria, e fizeste dele a Tua criatura rebelde, o homem livre, o que nunca Te serviu. Nem aos outros homens. Se aos 80, serão em breve 83, se escrevem livros destes, o bosão de Higgs é milagre menor. Partícula por partícula, prefiro estas. Poemas. Palavras de poemas. Furiosamente articuladas. Libertas da humana servidão que retalha os corpos como a faca retalha o porco na matança. 

(Obrigada, Herberto, por viveres assim.)