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O fantástico não é só isto

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"The Well/The Last Survivors", de Tomhas Hammock, é uma ficção pós-apocalíptica

Magia, ficção científica, fantasmas e comédia na descrição de mais um dia da 35ª edição do Fantasporto.

Tudo começou por volta da uma e meia da tarde. A essa hora, um intrépido cavaleiro, ignorando os avisos de um ancião, entrava num bosque amaldiçoado para salvar a donzela que se dizia lá viver, mantida cativa por um monstro. Tentava ser bem-sucedido onde o seu irmão desaparecera, ao tentar a mesma demanda.

Ao fim de uma luta tremenda descobre que a donzela não era tão inocente como isso e que a maldição consistia, exatamente, em transformar o vencedor do monstro no novo guardião do bosque negro. Em 15 minutos, o espanhol Paul Urkijo mostrava que as fitas (neste caso "El Bosque Negro") não se medem aos palmos. Muito menos as fantásticas.

Por volta das três da tarde passava-se para um tema que, vá-se lá saber porquê, tem andado arredado das primeiras páginas dos jornais: a clonagem de embriões e a possibilidade de criar vida humana através de processos artificiais.

Era "Closer to God" do norte-americano Billy Senese que, na apresentação do filme, explicou que, sendo fã incondicional dos filmes dos anos 30, resolvera criar a sua própria versão de "Frankenstein". E não se saiu mal, nem a recriar a América profunda, beata e fundamentalista, nem os dilemas éticos dos cientistas.

Veio a hora do lanche e continuámos no cinema americano. Agora com "The Well/The Last Survivors", de Tomhas Hammock. Uma ficção pós-apocalíptica, em que uma grande companhia tenta expulsar à força os agricultores, privando-os da água dos poços. Nada que, tirando os tiros e facadas em que a fita é fértil, não tenha acontecido durante a Conquista do Oeste, a Grande Depressão ou a exploração do gás de xisto.

Dois pormenores deliciosos: reencontrarmos a fazer papéis de sobreviventes atores secundários que já conhecíamos da série "The Walking Dead" e constatar o azar de Sean Bean, o Ned Stark da "Guerra dos Tronos" ou o Boromir de "O Senhor dos Anéis" cuja sina parece ser sempre acabar morto à espadeirada...

"III", de Pavel Khvaleev, tem uma encenação notável, na melhor tradição da cinematografia russa

"III", de Pavel Khvaleev, tem uma encenação notável, na melhor tradição da cinematografia russa

Intervalo para jantar e veio uma fita russa "III" de Pavel Khvaleev com uma encenação notável, na melhor tradição desta cinematografia, acerca de uma doença misteriosa que parece consumir a alma dos infetados.

E, para irmos para a cama bem-dispostos, uma comédia fantástica húngara "Liza, the Fox Fairy". Como explicou o realizador, Karoly Meszaros, o filme é duplamente delirante: primeiro porque põe o fantasma de um cantor japonês de rock a atazanar a cabeça de uma pobre rapariga que, a única coisa que quer, é arranjar um namorado; e depois porque decorre numa Hungria dos anos 70, capitalista e dominada pela sociedade de consumo que nunca existiu até à queda do Muro de Berlim e onde se ouve o ditador Janos Kadar discursar sobre a via para o ... capitalismo.

Comédia fantástica húngara, "Liza, the Fox Fairy", do realizador Karoly Meszaros, é um filme duplamente delirante

Comédia fantástica húngara, "Liza, the Fox Fairy", do realizador Karoly Meszaros, é um filme duplamente delirante

Muita graça e efeitos especiais de primeira num filme, cujo realizador pediu desculpa ao público do cineteatro portuense Rivoli por não ter feito uma fita tão assustadora como as que tinham passado antes.

E com isto passava da uma e meia da manhã. Já percebeu o leitor por que razão só acabei de escrever esta crónica quando já passava do meio-dia?