Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

O enigma do Papa 263

  • 333

Luís Miguel Rocha, autor de "O Último Papa", no Porto

Rui Duarte Silva

João Paulo I foi assassinado por uma organização internacional mafiosa, à qual pertencem membros da Cúria Romana e de Governos de países europeus. Este é o enredo do romance de Luís Miguel Rocha, hoje falecido, mas cujo nome era ainda desconhecido quando vendeu "O Último Papa" para mais de 50 países em 2005. Republicamos um texto de Mário Robalo sobre este tema, saído no caderno Atual do Expresso a 26 de novembro desse ano.

Mário Robalo

O Vaticano nunca deu explicações concretas sobre as causas da morte de João Paulo I. Nem perdeu tempo a refutar as inúmeras versões que surgiram sobre a possibilidade de, na noite de 28 de Setembro de 1978, o "Papa do sorriso" - como ficou conhecido o Papa Albino Luciani - ter sido envenenado.

As suspeitas sobre o assassínio do Vigário de Cristo começaram a circular logo na manhã do dia seguinte, quando a agência noticiosa italiana ANSA revelou que a empresa funerária dos irmãos Signoracci fora chamada às cinco da manhã, contrariando a hora oficial (5h30) da morte do Papa. Um enfarte do miocárdio foi a justificação inscrita no boletim de óbito difundido pela Santa Sé (ver caixa mais abaixo). Mas agora, quase três décadas sobre o enigma que ainda ensombra a morte do 263.º sucessor de Pedro, um português, Luís Miguel Rocha, promete no seu romance "O Último Papa" deslindar a trama urdida em torno do Papa Luciani, incriminando um conjunto de personalidades da Cúria Romana, aliadas nesta conspiração de morte com a Maçonaria - entre as quais surgem os nomes do cardeal Jean-Marie Villot, então secretário de Estado da Santa Sé, o próprio secretário particular do Papa Luciani, o padre John Magee, e o cardeal norte-americano Paul Marcinkus, que então presidia ao Instituto das Obras Religiosas (o banco do Vaticano) e actualmente está fugido da Justiça italiana, que o acusou de implicação na morte de Roberto Calvi, o presidente do Banco Ambrosiano, associado a uma megafraude financeira conjuntamente com o IOR.

Curiosamente, o sucesso do livro de Luís Miguel Rocha (a publicar em Abril do próximo ano) parece estar já garantido. Quando, em Outubro passado, na Feira do Livro de Frankfurt - o maior mercado internacional de editores para aquisição de novidades -, a agente literária inglesa Jessica Woolard mostrou algumas passagens da história escrita por este jovem (29 anos) e desconhecido escritor portuense, logo um inusitado número de editoras de todo o mundo se mostraram interessadas na publicação do romance. Ao todo, são mais de meia centena os países onde já estão garantidos os direitos de autor. E se a história de "O Último Papa" parte da conspiração que levou ao assassínio de João Paulo I, todo o enredo se sustenta na informação contida em documentação que o Papa tinha nos seus aposentos no dia da sua morte. É aqui que a ficção pisa o território da realidade: além de documentos sobre a mudança radical das estruturas da Cúria Romana, o Sumo Pontífice estava na posse de uma lista, anotada por si, na qual o nome de gente da Igreja (bispos, sacerdotes, funcionários e cardeais da Cúria Romana) se mistura com membros de Governos e de instituições da alta finança, políticos e militares de toda a Europa. O seu "pecado" era serem membros de uma organização secreta com obscuros interesses em todo o mundo...

Após a morte de João Paulo I, diferentes editoras apostaram em livros que, argumentando a favor da tese de assassínio, dão conta de um conluio entre a Loja P2 (instituição maçónica italiana) e dignitários do Vaticano. Todos eles revelam contradições nas diversas informações oficiais da Sala de Imprensa da Santa Sé e nos relatos de várias testemunhas, como por exemplo o facto de não ter sido feita uma autópsia ao corpo do Papa Luciani e de se ter procedido ao seu embalsamamento apenas 14 horas depois da morte, quando a lei italiana obriga a respeitar-se um período de 24 horas. Um inusitado número de autores, apoiados em testemunhos e relatos de agências noticiosas, colocaram em causa a circunspecta verdade dos cardeais. Entre os diversos livros publicados, refiram-se "Um Ladrão na Noite", do inglês John Cornweel, ou "O Assassínio de João Paulo I", de David Yallop, antigo assessor do Papa Luciani que se empenhou a entrevistar mais de duas dezenas de especialistas, funcionários e clérigos do Vaticano, além de dirigentes de movimentos católicos, quadros de instituições bancárias e chefias policiais de vários países.

Mas "O Último Papa" foi escrito com base em documentação do próprio Vaticano - "nomeadamente os papéis que João Paulo I tinha na mão na noite da morte", revela Luís Miguel Rocha, garantindo que apresentará as provas no lançamento do romance, cedidas por uma fonte no Vaticano "que não é clérigo nem português". O livro propõe-se desvendar as mudanças que João Paulo I se preparava para fazer na Cúria Romana, precisamente no dia seguinte ao da sua morte (29 de Setembro). "Um jornalista italiano enviara ao Papa uma lista com nomes de membros do Vaticano, ministros de Governos e clérigos de diversos países, incluindo portugueses, que pertenciam à Loja P2", sustenta o escritor, adiantando que o Sumo Pontífice se preparava para fazer uma autêntica revolução na administração executiva da Santa Sé. Entre os inúmeros exonerados constavam os nomes dos cardeais Jean-Marie Villot e Paul Marcinkus.

"O Papa tivera conhecimento que o Vaticano lavava dinheiro do Banco Ambrosiano e da P2, emitira acções falsas nos EUA em nome de uma empresa de fachada e negociava o fabrico de mísseis na Argentina, além de outras actividades", revela Luís Miguel Rocha, sem nunca deixar escapar algum sinal que denuncie a identidade da sua fonte em Roma e o cargo que exerce no interior da estrutura da Igreja Católica. E foi graças a este seu incógnito aliado que construiu o seu romance. "Optei pela ficção para credibilizar o romance como prova documental", refere, quando se lhe pergunta porque não preferiu limitar-se a expor aos leitores as provas documentais em seu poder, a par das respectivas anotações históricas e explicativas.

João Paulo I não pretendia, contudo, efectuar apenas mudanças de pessoas no Governo da Santa Sé. Não se tratava de despedir dignitários ou funcionários desonestos e substituí-los por gente da sua confiança. Luís Miguel Rocha garante que Albino Luciani desejava um outro modelo de Igreja. "Queria ser o último Papa rico", diz o escritor, adiantando que o Sumo Pontífice desejava também alterar o projecto programático do IOR. E não só. As suas intenções caminhavam ainda no sentido de traçar um novo rumo doutrinário para a Igreja. "João Paulo I, que não via com bons olhos a posição de o Vaticano ser contra a pílula, preparava-se para autorizar os católicos a utilizarem o controlo artificial da natalidade, abrir a Igreja às mulheres e aproximar-se às restantes religiões, não apenas pelo diálogo, mas de uma forma prática", adianta o escritor, rematando: "Mas tudo desapareceu naquele dia 28 de Setembro". "O Último Papa", porém, revelará a quem foram enviados esses documentos. Essa personagem, a principal do romance (e não o Papa, como o título deixaria presumir), é de origem portuguesa.

E como é que um jovem, também português, nascido no Porto e tradutor de profissão, se propõe a si próprio um atrevimento tão grande? Luís Miguel Rocha - reservado quanto à sua vida particular - limita-se a contar que, "terminado o 12.º ano", trabalhou no Porto para uma produtora de televisão e depois, através de um sítio na internet que pedia tradutores, se iniciou na arte de verter para a língua de Camões os romances de outros. Mais tarde atreve-se a buscar trabalho em Londres - "uma cidade fantástica de oportunidades", recorda -, onde também trabalhou para produtoras regionais de televisão. Ali, chegou a escrever guiões para programas de humor. "Olho a vida com humor", diz, recordando que também acredita em Deus. "Não naquele que é anunciado pelo Vaticano. O Deus do Vaticano quer sempre algo em troca, não é infinito e incondicional, façamos o que fizermos", acentua.

Em tempos escreveu um livro - "Um País Encantado" - que passou despercebido aos leitores portugueses. "Dá conta do Portugal moribundo no tempo do Estado Novo, mais precisamente na década de trinta", explica no seu sítio na internet (www.ultimopapa.com), já visitado por mais de 50 mil pessoas. Agora é o seu editor, Luís Corte Real, a reconhecer o sucesso de "O Último Papa" na Feira de Frankfurt. O responsável pela editora Saída de Emergência recorda que o inesperado interesse dos seus colegas pelo livro - "particularmente norte-americanos e espanhóis" - levou mesmo alguns deles a proporem ao autor a mudança de identidade da personagem principal. "Alguns limitaram-se a ler apenas pouco mais de meia centena de páginas", diz Luís Corte Real, sublinhando que o entusiasmo foi tão grande que "chegaram a solicitar ao Luís (o autor) que mudasse o local de residência, que no livro é em Lisboa, e a nacionalidade portuguesa do principal 'actor' do romance". A proposta não foi aceite.

Mas este efeito avassalador - que já começou a ter resultados financeiros para o autor, por parte de alguns editores, como o grupo espanhol Santillana, que comprou direitos para toda a América Latina - levou a que a agente de Luís Miguel Rocha entregasse a Dan Brown alguns excertos do livro, para que o autor de "O Código Da Vinci" escreva um comentário para a contracapa de "O Último Papa", cuja história se desenrola a partir do conclave que elege Karol Wojtyla como João Paulo II... recuando até ao dia da morte do seu antecessor. "Uma organização secreta que conseguiu chegar ao topo do Vaticano e ao coração dos Governos de toda a Europa, foi ela quem levou os cardeais a escolher o cardeal polaco, e não apenas o Espírito Santo", antecipa Luís Miguel Rocha.

Quando a irmã Vicenza colocou o tabuleiro do café no gabinete do Sumo Pontífice, por volta das 4h30 da madrugada de 29 de Setembro de 1978, não recebeu, como habitualmente, nenhuma resposta.

A freira estranhou o silêncio de João Paulo I, que, do interior do seu quarto, sempre agradecia aquele gesto. Quinze minutos depois atreveu-se a bater na porta do quarto papal. Mas não recebeu qualquer resposta, apesar de reparar que o reflexo de uma luz acesa passava por debaixo da porta. E, por isso mesmo, atreveu-se a entrar no quarto do antigo cardeal de Veneza, que ela acompanhava desde 1959. Aterrorizada, encontrou o Papa Albino Luciani morto, na posição de como quem estivesse sentado, com uns quantos documentos nas mãos. Esta versão, apesar de insistentemente repetida por diversos membros da Cúria Romana e funcionários do Vaticano, nunca foi oficialmente aceite. E não foi por acaso que a freira veneziana desapareceu sem deixar rasto, até se saber que falecera em Junho de 1983.

O secretário de Estado, cardeal Villot, só deu a conhecer, aos católicos e ao mundo, a morte do Papa quase três horas depois de a irmã Vicenza ter batido, pela primeira vez, à porta dos aposentos pontifícios. O cardeal fez anunciar que o Pontífice fora encontrado morto por volta das 5h30 da manhã. O óbito foi reconhecido como tendo ocorrido pelas 23 horas do dia anterior, que passou a figurar como data oficial do falecimento do Vigário de Cristo. Era o segundo pontificado mais curto da história da Igreja Católica - o primeiro fora o de Leão XI, em 1605, que durara apenas 14 dias. Eleito Papa a 26 de Agosto, Albino Luciani ocupara a "cadeira de Pedro" durante 33 dias.

Mas, entretanto, por entre os clérigos e funcionários do Vaticano, espalhou-se o rumor de que ele teria sido envenenado. Estranhos sinais deixavam antever que alguma coisa de anormal se passara. À notícia oficial de que o Papa fora encontrado pelo seu secretário, o padre John Magee, quando às 5h30 se dirigia para rezar missa com o Papa, reagiu de imediato a agência noticiosa italiana ANSA, referindo a presença da irmã Vicenza, como primeira testemunha do cadáver do "Papa do sorriso"... E o anúncio da causa da morte do Papa fora um enfarte do miocárdio, enquanto lia a Imitação de Cristo, uma obra do século XV, deixou perplexos todos quantos haviam visto o cardeal Villot a retirar do quarto pontifício os documentos que o Papa mantinha nas mãos, o frasco do remédio, os óculos, fotografias pessoais e o seu testamento, que nunca chegou a ser conhecido, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com o de João Paulo II.

Mas o que entretanto fazia crescer ainda mais as suspeitas era o insólito incidente da morte súbita do dignitário ortodoxo de Leninegrado, arcebispo Nikodem. Recebido em audiência privada por João Paulo I, no dia 5 de Setembro, o prelado russo caiu da cadeira, repentinamente, diante do Papa. Perante a estranha morte do Papa Luciani, os rumores apontavam para que a chávena de chá servida ao bispo ortodoxo destinar-se-ia ao Romano Pontífice... E não menos estranho foi o telefonema do Vaticano recebido às 5h pelos dois irmãos Signoracci (Ernesto e Renato) - como os próprios confirmaram a jornalistas que os interrogaram - para que fossem embalsamar o corpo do defunto. Acabara assim o pontificado do 263º sucessor de Pedro, que dias antes se atrevera a anunciar que Deus "também é mãe".

[Texto publicado no caderno Atual do Expresso, a 26 de Novembro de 2005]