Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

O elogio das humanidades no doutoramento de Vasco Graça Moura

O escritor portuense, Vasco Graça Moura, é a partir de hoje doutor "honoris causa" pela Universidade do Porto

Rui Duarte Silva

Poeta e escritor recebeu hoje o título de doutor honoris causa pela Universidade do Porto.

No agradecimento pela atribuição do título de doutor honoris causa pela Universidade do Porto, Vasco Graça Moura optou por fazer o elogio público da importância das ciências sociais e humanas.

De um modo significativo, as primeiras palavras pronunciadas pelo escritor foram para colocar o dedo naquela que tem sido uma discussão central nos últimos tempos: a lógica da empresarialização das universidades. Ao falar da "necessidade imperiosa de superar o divórcio existente" entre essa vontade de erigir o imediatismo dos resultados económicos como função do saber produzido pela Universidade, o poeta e escritor sublinhou a importância de valorizar cada vez mais o papel das ciências sociais e humanas.

Numa cerimónia à qual assistiram várias personalidades ligadas sobretudo ao mundo do pensamento filosófico ou da literatura, com destaque para Eduardo Lourenço, coube a Gaspar Martins Pereira, professor catedrático do Departamento de História e de Estudos Políticos e Internacionais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, proferir o elogio do doutorando.

Universalidade do saber 

Optou por destacar a universalidade da cultura e do saber do homem para quem, disse, "o seu tempo é também o tempo todo, aberto a todas as culturas de todos os tempos".

Ao destacar a relevância do papel desempenhado por Vasco Graça Moura na divulgação da cultura e da língua portuguesa, Martins Pereira não desperdiçou a oportunidade para chamar à colação uma das principais lutas protagonizadas pelo doutorando nos últimos anos, num "corajoso e continuado combate contra o desastre do novo acordo ortográfico".

Face a uma obra tão vasta como é a do poeta e escritor, com mais de uma centena de livros publicados, entre poesia, romance e ensaio, Martins Pereira deu especial relevo às traduções do poeta, pela grandiosidade posta na transposição para a língua portuguesa de criações literárias marcadas elas próprias pelo modo como se tornaram referências universais. E aí citou Dante e Shakespeare, mas também Racine ou Garcia Lorca.

Escritor do Porto 

Outra singularidade de Graça Moura referida pelo professor da Faculdade de Letras é a circunstância de, não obstante ser um escritor do mundo, "é um escritor do Porto".

E isso, acrescenta, surge como uma transparente identificação da sua escrita e dele próprio, como portador e espelho de uma certa forma de ser portuense.

É nessa globalidade, como acentuou Martins Pereira que, uma passagem pela imensidão da obra do homenageado permite acompanhar a poética do prosaico, o livre culto do desassombro, o brilho do artesão, a solidez do acabamento oficinal de cada obra, ou a continuada busca de sentido da liberdade, assumida na escrita como na vida.

Feito o elogio da obra e do homem, Miguel Veiga, padrinho do doutorando, apresentou ao reitor da Universidade do Porto o pedido de atribuição do título de doutor honoris causa.