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O coração negro da Europa era também o coração negro da fotografia

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A foto que começou por gerar criticas apresentava o primo do fotógrafo a ter relações sexuais com uma mulher no banco traseiro de um carro. Situação iluminada por um flash acionado remotamente

Giovanni Troilo

A série fotográfica "The Dark Heart of Europe", que havia sido contemplada no World Press Photo com o prémio da categoria Temas Contemporâneos, começou por gerar críticas por apresentar uma situação encenada com recurso a flash. Mas há um outro problema. O facto é que o prémio acaba de ser retirado.

Os organizadores do World Press Photo anunciaram esta quinta-feira a revogação da atribuição do prémio Temas Contemporâneos 2015 ao fotógrafo italiano Giovanni Troilo, devido à sua série fotográfica "The Dark Heart of Europe" apresentar informação enganosa.

"A história não correspondia às regras e, por isso, o prémio teve de ser revogado", refere um comunicado, explicando que os organizadores do reputado concurso holandês descobriram que entre a série de 10 fotos, apresentada como sendo da cidade industrial belga de Charleroi, encontrava-se uma imagem captada em Molenbeek, em Bruxelas.

"Nós temos agora um caso claro de informação enganosa e isto muda a forma como a história é percecionada. Uma regra foi quebrada, e uma linha foi cruzada."

A decisão foi tomada um dia depois de o reputado festival de fotojornalismo Visa Pur L'Image ter declarado que não iria exibir este ano qualquer foto do World Press Photo por considerar que entre as premiadas encontram-se fotos encenadas.

"O concurso do World Press Photo deve ser baseado nos fotógrafos que apresentam o seu trabalho e na sua ética profissional", frisou ainda Lars Boerinf, o diretor do World Press Photo, no comunicado desta quinta-feira.

Um problema de manipulação

A polémica em torno da atribuição do prémio à série fotográfica de Giovanni Troilo começara na semana passada, mas por outro motivo, a propósito de uma foto em que surgia o primo do fotógrafo a ter relações sexuais com uma mulher, no banco traseiro de um carro, com recurso à iluminação de um flash de controlo remoto colocado dentro do carro. Este facto levou os críticos a acusarem o autor das imagens de ter violado as regras do concurso.

O júri referiu na altura que o trabalho podia ser classificado dentro dos parâmetros da fotografia documental ou de retratos, dentro das quais o uso de flash deste modo é considerado aceitável.

As amplas possibilidades de manipulação das imagens que os meios digitais permitem têm criado cada vez mais questões em torno das fronteiras até onde o fotojornalismo pode ir.

No mês passado, os jurados do World Press Photo indicaram que desqualificaram 20% das fotografias que chegaram à fase final do concurso por lhes terem sido retirados ou acrescentados elementos-chave através de manipulação digital.