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O Chelsea Hotel está a morrer. Aquele que Leonard Cohen cantou

Apartamento abandonado pelos moradores

Rita Barros (foto cedida)

Nos últimos três anos, Rita Barros tem fotografado e feito vídeos coreografados sobre a agonia desse espaço mítico de Nova Iorque que é o Chelsea Hotel. Desde 2011, boa parte dos moradores já foi obrigada a abandonar as suas casas.

Há uma fotógrafa portuguesa que vive há 30 anos no mesmo apartamento onde Arthur C. Clarke escreveu o argumento do filme "2001, Odisseia no Espaço", realizado por Stanley Kubrick. Chama-se Rita Barros, foi colaboradora do Expresso, e é também a única portuguesa residente de longa duração no prédio do Chelsea Hotel, o local onde Andy Warhol filmou "Chelsea Girls", e que Patti Smith, Allen Gingsberg, Madonna, Bob Dylan e tantos outros nomes da cultura contemporânea escolheram para morar em Nova Iorque.

Em 2011, "viviam mais ou menos 100 pessoas no hotel e estavam ocupados 70 apartamentos. Já tinha havido uma purga [nos moradores] para preparar a venda do hotel. Houve uns que morreram pelo caminho e outros foram postos na rua" disse Rita Barros ao Expresso, lembrando que o hotel tem no total 300 apartamentos. Antigamente, "perto de dois terços eram ocupados por residentes permanentes". Os outros funcionavam num registo normal de hotel - quem queria alugava por um determinado número de dias. Neste momento há 55 casas que permanecem habitadas.

Escadas interiores do Chelsea Hotel - 10º andar

Escadas interiores do Chelsea Hotel - 10º andar

Rita Barros (foto cedida)

Rita está em risco de ser obrigada a deixar a sua casa. O Chelsea Hotel foi vendido em 2011 a um grupo que o quer transformar num local "descaracterizado, e com rendas tão caras que nenhum dos habitantes" de longa duração poderá pagar, explica a fotógrafa. Acontece que os homens e mulheres que vivem nesta grande casa da cultura nova-iorquina decidiram resistir à sorte que os novos proprietários do Chelsea lhes tinham destinado. Cada um usou os recursos que tinha e Rita a sua arte de fotógrafa. No momento em que as obras começaram e a água, a luz e o aquecimento começaram a ser cortados de tempos a tempos, Rita começou a fotografar e é neste momento a pessoa que tem o registo mais completo da agonia do Chelsea Hotel.

Da agonia e também dos tempos áureos do espaço a partir de 1987, ano em que Rita o começa a fotografar.

Exposição 'Bohemia' está no Campus da Caparica

Estas fotos e muitas outras podem ser vistas até 15 de novembro na primeira retrospetiva de Rita Barros, comissariada por Jorge Calado, e intitulada 'Bohemia - Life and Death in the Chelsea Hotel'.

Bohemia. A mostra pode ser vista até 15 de novembro no Campus da Caparica

Bohemia. A mostra pode ser vista até 15 de novembro no Campus da Caparica

DR

Displacement', a agonia do Chelsea, começa em 2011, com a venda do hotel a um grupo imobiliário que quer transformá-lo num projeto onde, a prazo, deixaria de haver lugar para os residentes de longa duração e que foram a sua marca desde que este foi construído em 1883.

O terraço do Chelsea é emblemático; o hotel foi projetado por Philippe Hubert que "é o inventor dos jardins nos terraços dos prédios. O terraço era um local de encontro no hotel" e foi também o palco que Rita privilegiou no projeto 'Displacement' que ocupa um lugar central no seu trabalho.

O "prédio foi feito em função das pessoas. Os apartamentos são espaçosos, os corredores grandes, o pé-direito alto, tudo isto foi pensado para dar qualidade de vida às pessoas", explica Rita, que tem usado as fotos e os vídeos que divulga em exposições e na sua página do Facebook como documento da luta resiliente dos moradores do Chelsea à expulsão do hotel.

Allen Midgette, duplo e estrela de Andy Warhol em vários dos seus filmes como 'Chelsea Girls'. Habitante do hotel

Allen Midgette, duplo e estrela de Andy Warhol em vários dos seus filmes como 'Chelsea Girls'. Habitante do hotel

Rita Barros (foto cedida)

Rita, provavelmente, vai retratar a agonia do hotel até ao fim para que persista a iconografia do Chelsea como o espaço mais culto e "underground" de Nova Iorque. "Bohemia - Life and Death in the Chelsea Hotel" é uma viagem pelo universo da cultura do Chelsea que ocupa um lugar central no património narrativo da fotógrafa.