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"Não serei amanhã o que sou hoje." Manoel de Oliveira escreve sobre Manoel de Oliveira

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FOTO ESTELA SILVA / LUSA

O maior cineasta do mundo, como sempre acreditaram os franceses, estará agora no firmamento, como cria que seria o "estar" após a morte. Olhando alguns textos por si escritos, encontramos um homem tranquilo, erguido a partir de uma criança preparada para a instabilidade e de um jovem que gozou bem os prazeres da vida. Mas também de um adulto confundido por não acreditar na ciência, mas ser um apaixonado pelo cinema.

Manoel de Oliveira chegou ao seu finamento, a vida deixou de lhe correr por dentro como as águas nos cursos talhados para os rios. Ao completar 106 anos, três meses e treze dias, o realizador entrou para esse grande espírito, esse imenso Oceano onde todos acabaremos por desaguar. Era assim que parecia encarar a morte, sabendo que amanhã não seria o que era hoje.

A construção do primeiro parágrafo é feita com palavras deste portuense que se dizia "um apaixonado realizador de filmes" e "um amante do cinema". Numa releitura de textos por si escritos e publicados pelo Instituto Camões em 2001, traçamos aqui, rapidamente, talvez até abusivamente, o seu retrato aproveitando-nos das suas conjeturas, mesmo correndo o risco de desconhecermos o seu mais atual pensamento, uma vez que Oliveira também se assumia como um ser diferente de dia para dia.

 

"Nele me vejo e me revejo como num espelho multifacetado, pois ontem era uma cousa e hoje já é outra, outra será certamente amanhã. Assim como ele mudou também eu mudei e já não sou hoje o que fui ontem e não serei amanhã o que sou hoje. O que quer dizer que a vida corre por dentro da gente como as águas nos cursos talhados para os rios até chegar ao seu finamento. Finamento que é a nossa entrada para esse grande espirito, esse imenso Oceano onde todos acabaremos por desaguar."

Rios da Terra, Rios da Nossa Aldeia

Podia assim não pensar em termos de céu e inferno, de vida para além do finamento, porém, assaltavam-no algumas dúvidas, com a certeza que quando morresse iria para um lado sem tempo, lugar ou espaço, esperar "o fim das cousas divididas".

Quando, no ano 2000, resolve escrever um texto em forma de carta a Serge Daney, um crítico literário francês que a morte levou cedo, em 1992, aos 48 anos, o realizador diz "não sei se aí ao etéreo te chegam vozes do que aqui se passa".

Não sabia mas isso não o impedia de tentar libertar-se de uma confusão com o crítico que muito escreveu sobre os seus filmes e que quando com ele se cruzava, sorria sempre ao ouvir a mesma frase: "eis o maior cineasta do mundo".

Mas qual era o seu tormento, em 2000, aos 92 anos? Os efeitos nefastos da evolução à velocidade da luz de "todas as técnicas". Reconhece nesse avanço um certo conforto, mas os transtornos não compensam, já que "atulham a vida social e invadem a privacidade".

A questão é que essa evolução tecnológica, que parece querer ver com bons olhos, mas não consegue, traz consigo um "crescendo de problemas". Há 15 anos, Manoel de Oliveira já se interrogava como, levados pelo mundo, se podia viver numa situação tão contraditória e descontrolada.

 

"Como se pode viver nesta situação que o mundo atravessa, tão contraditória e descontrolada, sem soltar um grito de desespero? 

Memória de um Crítico de Cinema

Para si, o mundo tinha descido a um grau máximo de inconsciência. O que lhe fazia confusão era como podia isso acontecer numa altura em que o mundo se dizia mais do que nunca senhor da ciência. E o pior é que se alguém gritasse de desespero, como se impunha, corria sérios riscos de nunca ser ouvido.

Manoel de Oliveira convive bem com a ciência pura, a que "descobre os fenómenos e as leis do universo", repudia a ciência aplicada, mas ao mesmo tempo é "um apaixonado realizador de filmes, um amante do cinema". E isso confunde-o pela consciência que tem de que o cinema é "um derivado da mesma ciência que condena".

Todavia, nada abala a sua paixão. O realizador cria, "profundamente, nesta coisa a que chamamos cinema, que enquanto imagem projectada no ecrã é imaterial, é como que o fantasma de qualquer realidade, real ou imaginada, imagem que não pertence à realidade concreta da ciência aplicada". 

Há ainda outra coisa que o fascina, o Douro, o "rio da sua aldeia". É aliás sobre este que fará a sua primeira curta-metragem "Douro, Faina Fluvial", cuja estreia foi recebida com pateada, uma má reação dos espectadores que, apesar de na altura até gostar mais de automóveis, não o impediu de insistir na carreira quando puxado por António Ferro, o ideólogo e propagandista do salazarismo. 

"Como homem do norte e do cinema fiquei mais apegado ao Douro", escrevia Oliveira. Porém, o seu fascínio estendia-se também ao Tejo, rio que nele exercia "uma estranha sedução". E ao mar, porque "amar o mar é amar a alma" de todos os rios, é "amar os povos que esses rios atravessam".

 

"Águas a correr pelo tempo, por córregos, por leitos e pelos espaços históricos desses povos de diferentes raças, hábitos e costumes, não obstante unidos pelas mesmíssima raiz humana que os liga, que nos liga e nos iguala a todos nós."

Rios da Terra, Rios da Nossa Aldeia

Primeiro, antes de se sentar na cadeira de realizador, Manoel de Oliveira foi espectador. Tinha seis anos quando começou a "olhar como espectador e a compreender aos poucos o que se passava ao lado". Não era fácil. No ano do seu nascimento, deu-se o princípio do fim da monarquia, com o assassínio do rei D. Carlos.

Dois anos depois, dava-se a implantação da República, o início de uns tempos confusos, ricos em acontecimentos e, sobretudo, muito cinematográficos, mas essa compreensão ainda havia de demorar a surgir. Era, portanto, um homem marcado por essa experiência da infância que há de, em primeiro lugar, transformá-lo num boémio.

A pré-adolescência, como ele próprio escreveu, é a passagem mais delicada à formação e educação de um indivíduo. Por esta altura, a combinação das "fortes solicitações do corpo", com "a exaltação imaginativa e o despertar de uma insaciável curiosidade", pode levar a breve prazo a uma vida no fio da navalha. 

Cresceu "sob o signo de variadas contingências", entre as quais a primeira guerra mundial. Para as suas vivências contam ainda ter estudado no liceu, ter sido semi-interno num colégio recém-fundado por dois padres e interno num outro de jesuítas que frequentou na Galiza, porque estes estavam proibidos de permanecer em Portugal.

 

"Ficou entranhada esta visão de intranquilidade, de incerteza e de instabilidade das cousas daquele mundo que me rodeava então, e, afinal, do que me cerca hoje."

Os Caminhos da Prostituição

Enveredou, no entanto, pela "escola" da vida noturna, pela rebeldia às leis e às regras sociais que no século XXI já não existem praticamente, como anotou ao contar este seu caminho que o despertou para outros conhecimentos até ali ignorados pela sua "natural inocência". 

"Rebeldia no fundo tolerada, enquanto praticada nos lugares próprios, mas não aceite uma como cousa pública, pois, como tal, sempre redundaria em escândalo", lembra Manoel de Oliveira, que apanharia a implantação do regime ditatorial do Estado Novo entre os 20 e os 25 anos de idade.

No seu tempo, como contou há uma dezena de anos, os rapazes não queriam para esposas raparigas que não fossem virgens, daí que as "mulheres da vida" tivessem um papel fundamental no desenvolvimento masculino e fossem os "bons anjos da guarda" que "salvavam a honra do convento". 

É por isso que falava com normalidade das prostitutas. O que Manoel Oliveira já não compreendia - e preferia nem sequer conhecer as razões - era que a "sociedade tivesse desvirtuado o nome dado à puta, e transferido para os meninos, agora apelidados de putos, apesar de serem filhos de famílias de bem e os próprios pais não hesitarem em assim os chamar sem qualquer pudor".