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"Não digam a ninguém e deem o prémio a outro"

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O júri do Prémio Pessoa 94, nos jardins de Seteais. Em pé, da esquerda para a direita, Alçada Batista, José Mattoso, Alexandre Pomar, Francisco Balsemão, Pedro Norton de Matos, Carlos Coelho, Nuno Teotónio Pereira, José Luís Porfírio, Fráusto da Silva e Miguel Veiga. Sentadas, Maria de Sousa, Menez e Clara Ferreira Alves

Rui Ochôa

Foi assim que o poeta Herberto Helder declinou receber o Prémio Pessoa 94, atribuído pelo Expresso em colaboração com a Unisys. Republicamos o texto da edição impressa deste semanário de 17 de dezembro de 1994

A reacção do poeta não apanhou de surpresa os membros do júri, conhecida que é sua vontade manter-se distante de todos os actos de notoriedade, recusando entrevistas, convites, louvores ou galardões. "O júri respeita esta posição do foro pessoal, mas tal não o impede de distinguir uma obra que consideramos ímpar na história da Literatura Portuguesa da segunda metade deste século", disse Francisco Pinto Balsemão na cerimónia em que foi anunciado o nome do vencedor.

Pela primeira vez nos oito anos de vida do Prémio Pessoa, um laureado recusa receber o galardão atribuído pelo jú ri , obrigando a organização a cancelar a cerimónia solene de entrega, marcada para Março no Palácio de Queluz. Mas o prémio monetário - este ano no valor de sete mil contos - deverá ser concedido a "outras missões de mecenato cultural" a decidir futuramente pelos elementos da organização. E, mesmo sem o aval do laureado; a nomeação de Herberto Helder é considerada "irreversível".

Herberto Helder nasceu há 64 anos na Madeira. O júri considerou que a sua obra poética "ilumina a língua portuguesa" e encarna "uma arte com raízes no conhecimento poético ancestral, na procura do essencial, do raro e do indizível que cada palavra ou coisa nomeada contêm ". Mas o prémio realça também a produção poética mais recente, este ano levada à estampa pelo autor, numa obra intitulada Do Mundo.

39 propostas apresentadas

Escolhido entre um conjunto de 39 propostas de nomeação apresentadas a concurso, o júri antecipou a possibilidade de uma recusa formal por parte do poeta em aceitar a distinção. Situação que se verificou há 11 anos quando o Pen Club Português distinguiu a obra A Cabeça Entre as Mãos com o seu prémio anual de Poesia. No comunicado final do Prémio Pessoa 94 lê-se mesmo que Herberto Helder "é avesso à notoriedade, louvores e honrarias".

Mas tal "não deveria ser impeditivo da distinção de uma obra", pois, caso contrário, o júri "pecaria por omissão".

Persistindo na recusa em contactar com os meios de comunicação social, o poeta escusou-se, naturalmente, ontem, a comentar a sua distinção com o Prémio Pessoa. Alçada Baptista, um dos jurados "indigitados" para participar a Herberto Helder a decisão final do júri, confirmou que "de imediato" o laureado se negou a aceitar a nomeação. E, perante a insistência, apenas sugeriu: "Não digam a ninguém e deem o prémio a outro".

Alçada Baptista sublinhou ainda "a extrema simplicidade" com que Herberto Helder reagiu à distinção, limitando-se a "agradecer e a pedir compreensão para com uma decisão por ele tomada há muito tempo".

De salientar que nas oito edições deste Prémio foram distinguidos o historiador José Mattoso, o poeta Ramos Rosa, a pianista Maria João Pires, a pintora Menez, o arqueólogo Cláudio Torres e os cientistas António e Hanna Damásio. Na sua edição do ano passado, o Prémio foi atribuído ao filósofo Fernando Gil.