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A ModaLisboa celebrou a edição 50 e juntou a família (bem) numerosa

Ser cinquenta é ser relativamente pesado. Ser cinquenta é ter implícito um certo sentimento de dever cumprido que obriga a imensa responsabilidade. Celebrar "50" de qualquer coisa é saber que o que ficou para trás importa. E é aqui, agora, e já, que o caminho passa a ser escrito a caneta de tinta permanente

Gonçalo Peixoto estreou-se na ModaLisboa

Gonçalo Peixoto estreou-se na ModaLisboa

Ugo Camera

Não me recordo de ter festejado muitas vezes os números cinco e zero ao lado um do outro. Celebrei o 50º aniversário de um amigo, lá para os lados de Alcântara, e foi uma festa farta, recheada de pessoas bonitas, algumas conhecidas. Assim de repente, e se a memória de há três anos não me falha, estavam por lá a Catarina Furtado, a Sofia Aparício, a Manuela Moura Guedes e até o Nuno Gomes, antigo futebolista do Benfica.

Falando nele, é muito provável que já tenha festejado algumas vitórias do meu clube com estes números, e é possível, se formos ao baú-azul de memórias recalcadas, que já tenha chorado derrotas por estes números também, mas isso para este caso pouca importância tem. A (minha) história, e esta história, não é feita de acontecimentos tristes.

Dizia, já recomposto do reavivar de nova goleada, que as vezes em que tive oportunidade de celebrar qualquer efeméride que envolvesse o número 50 se contam pelos dedos de uma mão. Sou de números ímpares, mas o número cinquenta sempre foi, nos que aos pares diz respeito, aquele que mais admirei. Por ser o meio de uma vida e poder ser, também, aquela fase em que tudo nos passa a ser permitido.

É aqui, usando um cinco e um zero, que entra a nova vida do evento de moda da capital: a ModaLisboa é uma jovem de 27 anos que celebrou a sua 50ª edição. E como aniversariante que foi convidou alguns dos pesos mais pesados da moda portuguesa. Ou a família e os amigos, dizendo de outra forma.

Reunião de uma família funcional

Gonçalo Peixoto foi o primeiro a chegar, passava pouco das 17 horas de sábado. O mais novo, e recente, membro da família entrou pela casa adentro e na bagagem trouxe roupa sporty-chique contemporânea, inspirada nas auroras boreais. Coordenados volumosos, assimétricos, com contrastes de mate e brilho. Uma coleção em tons de azul, vermelho, prata e verde, que definem uma mulher elegante e sofisticada, e ao mesmo tempo descontraída.

Do Liechtenstein veio o primo Patrick de Pádua. Mais ou menos. Nasceu lá, mas veio viver para Portugal no ano 2000. À família que se juntou no Pavilhão Carlos Lopes, ali colado ao Parque Eduardo VII, mostrou a sua coleção de streetwear puro conjugada com peças de corte clássico. Peças no gender, cores fortes por vezes, padrões de quando em vez, em tecidos de bombazine, couro, nylon ou neopren. Tudo calçado com a marca portuguesa Ambitious.

Os modelos de Patrick de Pádua foram calçados pela marca portuguesa Ambitious

Os modelos de Patrick de Pádua foram calçados pela marca portuguesa Ambitious

Ugo Camera

Há, em todas as famílias, a tia rica que anda sempre carregada de belas jóias. Na ModaLisboa há um primo (mais um primo) que é assim, e que se chama Valentim Quaresma. O designer de joalharia que evolui cada vez mais, e com ótima qualidade, a fazer roupa, apresentou a sua coleção trabalhada em pedras, cobre e latão oxidado.

Sabem aquele tio que é super colorido e parece estar sempre de bem com a vida? É o tio Ricardo Preto, que embora de apelido ligeiramente sombrio, apresentou aos familiares uma coleção tão colorida e primaveril, que nos esquecemos todos da chuva e do vento que corriam lá fora. Os rosas, laranjas, vermelhos, verdes e azuis levaram as tias, as nossas tias que adoram tomar o chá das cinco com "cheirinho", à loucura.

Claro que o primo Luís Carvalho tinha de chegar depois do tio. Aquele primo que aprendemos a admirar desde pequenos porque se veste bem e tem sempre roupa com muita pinta, só apareceu já o jantar ia na sobremesa. Vá lá que trouxe "Bolinhol", esse maravilhoso doce tradicional vizelense.

E também porque apresentou uma coleção luxuosa, inspirada nos edifícios das grandes cidades, de formas mais retas e oversized, e nos anos 60 em referência à silhueta, de cores como o azul royal, o roxo, vermelho, dourado e preto, em materiais como a pele sintética, o vinil ou o jacquard.

Silhuetas urbanas e dinâmicas na coleção de Nuno Gama

Silhuetas urbanas e dinâmicas na coleção de Nuno Gama

Ugo Camera

Já o digestivo ia a meio quando aparece o tio de porte aristocrático e apelido de descobridor. Nuno Gama é também o tio mais irreverente e o mais agarrado às tradições portuguesas. E quando a noite já parecia acalmar, o tio Gama trouxe para a festa os Caretos de Podence, esses ícones do carnaval transmontano.

Trouxe também, no final, uma sentida homenagem ao guitarrista Zé Pedro, com o músico Xande a entoar "Homem do Leme". Pelo meio desfilaram mais de 60 modelos. Fatos mais clássicos, cores mais sóbrias e outras nem por isso. O casaco, sempre o casaco, entra no jogo das sobreposições e das oposições, por forma a criar silhuetas urbanas e dinâmicas.

Bem-vindos à realidade de uma família numerosa

As festas de aniversário são sempre acontecimentos marcantes. Então quando se festeja 50 de alguma coisa, ainda mais marcante se torna. Neste novo dia de festa houve mais primos e tios a aparecer para celebrar. E, sendo inverno, o domingo pede um almoço tardio.

Olga Noronha cedou cedo. A prima mais nova que sempre-teve-queda-para-as-artes inspirou-se em Freud para apresentar a sua coleção de joalharia. O nude, a menta, o vermelho sangue ou verde esmeralda, pintaram as peças com formas estranhas e bizarras, feitas de silicone, folha de ouro ou caviar.

O Ferreira, ou o primo David, apresentou a "Grandma's Girl", uma coleção onde "a musa brinca com o guarda-roupa da avó e enfatiza o que o futuro pode ser". Mas sempre com sentido de humor, disse ainda. A musa veste-se de bege, dourado, lilás e preto, e usa materiais como o PVC, veludo, seda ou lã.

Sim, são óculos de sol com três lentes na coleção de Filipe Faísca

Sim, são óculos de sol com três lentes na coleção de Filipe Faísca

Ugo Camera

Todas as famílias têm aquele tio com uma loucura genial. Esta também tem, chama-se Filipe Faísca. O designer inspirou-se no bordado da Ilha da Madeira para fazer a primeira de duas coleções. Se lá fora era inverno, o interior do Pavilhão Carlos Lopes fazia lembrar o calor. Pelo menos até à parte em que algumas peças em linho, seda e viscose se reconfortaram com mantas de lã.

"Vou contar-te uma história
Inesperada e imprudente
Enquanto sentes nostalgia
Vou reiniciar a tua realidade
Vou moldar a tua disposição
Vou contar-te uma história como
se fosse tua."

Nada mal escrito para a tia Lidija Kolovrat que nasceu na Bósnia, chegou a Portugal em 1990 e apresentou uma coleção intemporal, de malhas muito felpudas e cores garridas, no que foi uma homenagem à família e às memórias

Eduarda Abbondanza classificou de "Burburrez" a crítica social de Ricardo Andrez

Eduarda Abbondanza classificou de "Burburrez" a crítica social de Ricardo Andrez

Ugo Camera

Ricardo Andrez. Para o primo mais rebelde, ou não fosse o mais streetwear de todos os outros membros da família, há pouco a dizer. Há, contudo, um gesto a fazer: uma vénia. Pela crítica social que fez na coleção que apresentou, e pelo lutar das marcas pequenas que muitas vezes são apropriadas pelas muito grandes sem pedir licença.

O tio Dino Alves chegou em final de festa e com uma enorme vontade de dar pouco trabalho à sua irmã ModaLisboa. Vai daí, toca de começar a arrumar tudo mesmo antes de o desfile começar e, sequer, acabar. Enquanto as modelos desfilavam peças de proporções aparentemente incorretas, linhas de cintura fora do lugar, franzidos exagerados ou peças invertidas, a equipa de produção ia desmontado a passerelle e todos os acessos ao backstage.

A 50ª edição da ModaLisboa acabou assim, quase despida, mas de barriga cheia com tanto amor.