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Nycole, David Catalán e Inês Torcato para mostrar que Roma pode ser conquistada num dia

André de Atayde

A plataforma Bloom do Portugal Fashion pegou em três dos seus melhores gladiadores e partiu à conquista de Roma, dos romanos e dos mercados asiáticos. Roma pode não ter sido construída num dia, mas a sua conquista demorou menos de 24 horas

Roma é uma cidade mais tristonha desde que Francesco Totti deixou de jogar futebol. E é normal. Não se explica a sensação, mas compreende-se nas ruas, nos cafés e nos restaurantes. Claro que os romanos não deixaram de ser divertidamente barulhentos, nem afetuosos, mas há uma tristeza no olhar quando se presta a devida atenção. Não é fácil perder um gladiador do futebol para o peso da idade nas pernas. Ainda mais um gladiador-tão-bem-amado como Totti sempre foi.

Há sempre comparações por mais impossíveis que elas possam vir a ser. Há sempre o achar-com-toda-a-certeza-absoluta que aquele golo falhado teria sido bonito aos pés de Totti. Há sempre um tempo de ressaca. De tristeza. E o homem só se foi há pouco mais do que meia dúzia de meses e seis meses em futebol... é ontem. Totti ainda joga na cabeça de todos os italianos que torcem pela equipa da AS Roma, a diferença é que hoje ele já não marca a diferença dentro de campo. Cedeu o lugar aos mais novos.

Foi-se Totti mas ficaram outros que certamente darão continuidade ao futebol perfumado que ele levava ao campo. Talvez com menor "amor à camisola", porque hoje em dia as paixões no futebol são como aqueles amores céleres de verão, mas com a mesma vontade de triunfar. A mesma que Totti sempre teve desde que chegou à equipa principal da Roma.

Na moda como no futebol

Foi precisamente em Roma, no dia 28 de janeiro, que três jovens designers se fizeram gladiadores. Com a mesma paixão pela moda, Nycole, Inês Torcato e David Catalán apresentaram as suas coleções na Fashion Hub, uma plataforma da AltaRoma para os novos talentos mundiais.

"A experiência foi muito boa e acho que vai ser bom para a projeção da marca no panorama internacional. Mostrar a coleção e conseguir algumas encomendas, que é o mais importante", diz David Catalán, o designer espanhol que escolheu Portugal e o Porto para se fixar e que criou uma coleção inspirada numa vida inteira passada nos escuteiros.

Desfile de David Catalán

Desfile de David Catalán

S. Dragone - G. Palma / Luca Sorrentino

"Fui escuteiro durante 10 anos. Fui professor, fui cozinheiro, fiz tudo enquanto lá estive e foi isso que tentei ir buscar, mas sem perder o meu universo que é o sportswear, o oversized, mas com pequenos detalhes de menino bem comportado. Quase o brincar do clássico com o contemporâneo, para um homem alegre, colorido e que não tem medo de arriscar".

Inspiração nas fardas, com grandes bolsos, patches e mensagens bordadas. Apesar da coleção apresentada ter sido uma espécie de regresso à infância do espanhol, Catalán é, dos três, o que mais experiência tem a nível internacional. Madrid, Istambul, Florença e Paris já fizeram parte da sua vida como designer, em desfile ou showroom.

Nycole é quando o jazz e o hip-hop se fundem

King Krule é Archy Ivan Marshall, que também já foi Zoo Kid. É inglês, músico, produtor e letrista. É jazz, punk, new wave, indie rock, hip-hop e foi buscar inspiração para o nome artístico ao filme 'King Kreole', protagonizado por Elvis Presley. Foi também personagem principal do desfile de Nycole em Roma. Ele não, a sua voz.

"Normalmente gosto de ir buscar a minha inspiração à música, mas neste caso concreto inspirei-me num artista inglês, o King Krule, porque gosto bastante do look e da atitude que tem. Ele inspira-se muito nos artistas de hip-hop dos anos 90 e então tentei criar esse look mais 'streetwear', misturando elementos mais clássicos. Ele veste peças que nada têm que ver umas com as outras... blazers com t-shirts vintage, por exemplo, e nele resultam. E eu tentei fazer um bocado esse cruzamento", explicou.

S. Dragone – F. Fior / Luca Sorrentino

Nycole nasceu em janeiro de 2017. Tânia Nicole, a designer atrás da marca, em 1991. A primeira, confessa, é ainda uma desconhecida, daí a palavra UNKNOWN estampada em várias peças que apresentou.

"Eu quis fazer um paralelismo comigo própria, em relação à minha marca, que acaba por ser desconhecida, brincar com isso e usar a palavra que acabou também por ser o nome da coleção."

A Roma clássica fica mais moderna com Inês Torcato

É pouco provável que a roupa que Inês Torcato apresentou em Roma tenha sido costurada por alguém chamado Rómulo ou Remo. Igualmente improvável (mas não impossível) que Inês se tenha inspirado numa loba para criar a sua coleção. Se estas duas condições se juntassem estaríamos perante um verdadeiro mito, coisa que a coleção de Inês Torcato não foi. Ou não é.

Se a Roma dos monumentos e das civilizações antigas se vai transformando à medida dos anos, porque é que os fatos clássicos e intemporais não podem sofrer algum tipo de metamorfose? Podem, claro que podem. E devem. É o que faz Inês Torcato naquela que é a sua imagem de marca: a transfiguração e a "exploração de novos elementos formais".

S. Dragone – F. Fior / Luca Sorrentino

"Gosto muito de alfaiataria e das peças clássicas. Mas gosto de pegar nisso e fazer de forma diferente. Já tive coleções onde desconstruía blazers, nesta coleção desconstruí as camisas. Cortes diferentes, torcidas, inclinadas, camisas duplas... desta vez foram as camisas que tiveram o papel principal, digamos assim."

Se as coleções são muitas vezes o espelho das ideias, vivências e gostos de um designer, as de Inês são um auto-retrato. Todas, em auto-retrato. "As minhas coleções têm peças que são genderless e outras que não. E eu vestiria todas. E é isso que me leva a chamar de auto-retrato, porque é uma espécie de representação daquilo que sou e gosto de usar", explica.

*O Expresso viajou a convite do Portugal Fashion