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México paga 20 milhões de dólares para o vilão do próximo filme de 007 não ser mexicano... mas a 'Bond girl' sim

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Monica Bellucci, vilã no próximo filme da saga James Bond, posa em Roma junto com o próprio agente ficcional de Sua Majestade, protagonizado pelo ator Daniel Craig

Vittorio Zunino Celotto/Getty Images

É um exemplo um pouco extremo da prática do 'product placement', sem a qual muitos filmes bastante caros não seriam como são.

Luís M. Faria

Jornalista

Quanto custa a boa imagem? Falando de um país como o México, onde o tráfico de droga e as guerras associadas fazem dezenas de milhares de vítimas mortais todos os anos, o preço pode chegar aos milhões de dólares. Vinte milhões (19 milhões de euros), para sermos exatos. Foi o que o governo mexicano se propôs pagar, sobretudo em isenções fiscais, aos produtores do último filme de James Bond. A revelação é a última a surgir da montanha de emails internos da Sony obtidos e publicados por um grupo anónimo de hackers supostamente ligados à Coreia do Norte. Um grupo ativista chamado Tax Analysts leu e divulgou as informações agora apresentadas. O filme agora em finalização é o 24.º da saga Bond, que teve início em 1962. Com estreia marcada para novembro, intitula-se "Spectre" e tem os ingredientes habituais da fórmula: planos malignos, vilões carismáticos, mulheres belas... Em cada um destes elementos houve modificações a pedido do México. O mayor mexicano que ia ser morto transformou-se num diplomata estrangeiro. O vilão que era para ser mexicano deixou de o ser. E a 'Bond girl' antes não mexicana passou a ter o rosto de Stephanie Sigman, a mais conhecida atriz mexicana do momento. Tudo isto consta de comunicações trocadas entre os responsáveis da Sony, distribuidora do filme, e vai um pouco além do que se seria de esperar numa situação desse tipo. Quando um produtor negoceia com as autoridades de uma cidade os termos em que um determinado filme poderá ser lá filmado, é normal haver cláusulas relacionadas com o conteúdo. Mas "Spectre" parece ter renunciado à sua autonomia criativa numa série de aspetos vitais.   Um negócio que existe há muito tempo As razões têm claramente a ver com dinheiro. Os filmes da série Bond são dos mais caros que se fazem, e há muito que procuram fontes adicionais de receita, entre elas o 'product placement', ou seja, a visualização de marcas caras - carros, relógios, etc. - em lugar proeminente no filme (é normal correrem em simultâneo campanhas publicitárias dessas marcas, usando o protagonista do filme ou outros atores). Os próprios locais onde se efetua a rodagem, geralmente cidades ou zonas naturais de vocação turística, beneficiam com a projeção que o filme lhes dá. É um negócio assumido e parece nunca ter incomodado o público, o qual ganha um filme "onde o dinheiro se vê", como em tempos explicou um realizador. No caso de "Spectre", as motivações habituais valem a dobrar, pois o filme já estava acima do orçamento quando a rodagem ainda ia a meio. O preço final ia a caminho dos 300 milhões de dólares (285,7 milhões de euros), o que mesmo para um Bond era exagerado. A Sony insistiu com a produtora Barbara Broccoli para cortar nos custos; por exemplo, substituindo o ator Chiwetel Ejiofor (do filme "12 Anos Escravo") por outro que, nunca tendo sido nomeado para um Óscar, custava menos um milhão de dólares (950 mil euros).
A 'Bond girl' antes não mexicana, no 24.º filme da saga passa a ter o rosto de Stephanie Sigman

A 'Bond girl' antes não mexicana, no 24.º filme da saga passa a ter o rosto de Stephanie Sigman

Alberto E. Rodriguez/Getty Images

Além de diminuir os custos, era preciso aumentar as receitas. Donde, a cedência quase total às exigências do México. Num dos emails, o presidente do estúdio MGM, Jonathan Glickman, diz: "Neste momento, estamos com um orçamento que é muito para além do que prevíamos e há imensa pressão para reduzir a soma para 250 milhões com rebates e incentivos. Isto não é querer contar tostões na produção. A filmagem encontra-se 50 milhões acima de "Skyfall" (o filme Bond anterior, também realizado por Sam Mendes e protagonizado por Daniel Craig), tornando isto um dos filmes mais caros de sempre".   Maximizar o incentivo   Noutro email, Glickman refere o aspeto da promoção do México como destino turístico: "Vocês fizeram um grande trabalho em conseguir-nos o incentivo mexicano. Tudo indica que ainda vamos conseguir os seis milhões extra continuando a mostrar os aspetos modernos da cidade, e parece que estamos muito bem encaminhados com base na tua última pesquisa. Vamos continuar a procurar todas as vias possíveis para maximizar este incentivo". Quando o filme sair, podemos esperar uma visão do México que nos vai fazer querer ir diretamente à agência de viagens. Mesmo uma luta numa jaula foi substituída por uma perseguição cuja cena é a procissão do Dia dos Mortos, uma das mais cenas mais coloridas e turísticas que o México oferece. Em contrapartida, foram rejeitadas exigências para eliminar uma cena final à chuva e reduzir o número de carruagens de comboio numa cena de luta. Afinal, um Bond é um Bond. O que certamente não faltará no filme são belas vistas aéreas de moderna Cidade do México. Até porque foi expressamente combinado. Vai acontecer quando Bond roubar o helicóptero da vilã...