Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Manoel de Oliveira. Mais ou menos como o amor entre duas pessoas

  • 333

Rui Duarte Silva / Expresso

Porque a verdade é esta: os críticos de arte são muito importantes e tal, mas na hora da verdade estamos nós e as obras frente a frente, sozinhos. E aquilo ou faz sentido ou não faz. Mais ou menos como o amor entre duas pessoas.

Atendo o telemóvel e ele diz-me: olha, já viste os jornais online? Morreu Manoel de Oliveira. E eu: morreu como? E ele: estou aqui a ler que sim, morreu. Também já tinha 106 anos, Joana, era normal... E eu: sim, claro, pois. Cento e seis anos. Morreu. Ok, morreu. Morreu mesmo. Não vai fazer mais um filme e a seguir outro, e depois outro. Desliguei o telemovel.

Manoel de Oliveira não podia morrer, mas estava afinal morto. Como qualquer mortal, morrera. Era um facto e era real. Ou seja, o contrário de Manoel, que era sobrenatural, com uma energia física inesgotável e projetos inesgotáveis. Assim como uma máquina que concentra muitos tempos e muitas ideias lá dentro. Uma máquina em forma de homem com um sorriso terno e um olhar vivo, muito vivo.

Estive algumas vezes com ele, sempre em circunstâncias em que ele estava rodeado de muita gente, em estreias e antestreias de filmes. Não é fácil separar o homem da obra, o personagem do autor. Quando nasci, Manoel tinha mais de setenta anos, e numa altura em que a maior parte das pessoas está reformada e a pensar no fim da vidinha, aquele homem estava a começar a fazer aquilo que mais queria: realizar filmes. Comove-me sempre essa ideia, a de que nunca é tarde para se fazer o que se quer mesmo mesmo fazer. E portanto à medida que fui crescendo, Manoel de Oliveira tornava-se o realizador de cinema mais velho do mundo em atividade e sempre que o via comovia-me a espontaneidade daquele homem centenário a subir degraus, a cumprimentar quem se aproximava, a terminar as suas declarações com "e viva o cinema!" Isto via-se nele: era um homem absolutamente livre nos filmes que fazia, nas obsessões que cultivava, nos atores que escolhia, na moral das lições que queria transmitir no escuro da sala de cinema. E para mim falar do cinema dele é falar do íntimo. De tal forma que não me lembro de alguma vez ter tentado convencer alguém a ver um filme dele. Porque a verdade é esta: os críticos de arte são muito importantes e tal, mas na hora da verdade estamos nós e as obras frente a frente, sozinhos. E aquilo ou faz sentido ou não faz. Mais ou menos como o amor entre duas pessoas. Pode ser trabalhado e apurado, mas na essência ou funciona logo ou então não dá. E eu e os filmes de Manoel de Oliveira funcionamos. Mesmo quando eu não percebo tudo ou adormeço - como aconteceu n'Os Canibais. E é nessas alturas que Manoel é futuro e sei que hei de voltar a ele, como quem volta a casa.

Manoel é Porto e é Norte - o folião da juventude, o malandro de boas famílias, o homem de prazeres, o leitor desenfreado, a cidade e o rio, a casa, a minha casa. Podia ter sido amigo do meu avô paterno, outro malandro, parte do meu passado, grandes famílias ternamente em decadência e por isso tudo Manoel é tempo e espaço para mim, e em cada filme uma lição.

Crescer em Vila do Conde nos anos noventa não foi fácil. Isto de viver numa cidade pequena, à beira mar, onde faz frio e há nortada e nevoeiro cerrado a maior parte do ano fez com que eu passasse a maior parte do tempo enfiada na biblioteca. Podia ter-me dado para passar o tempo a fumar atrás do muro da escola, mas não. Resolvi ler tudo de José Régio, e depois passei para a Agustina, e dali para Saramago, que acabava de ganhar o Nobel, e ao mesmo tempo lia os diários do Torga e descobria Unamuno e Cervantes. E claro, voltava a Agustina e de vez em quando fugia porque era difícil. Ainda me lembro do dia em que abri A Sibila, li duas páginas e voltei a fechá-la. Tinha dezasseis anos e o meu mundo começava na foz do rio Ave e terminava na praia da Póvoa de Varzim. Era tudo muito pequeno mas nem tudo era tédio. Da biblioteca saía uma vez por ano para me enfiar no auditório municipal a ver o festival de curtas-metragens, que era assim uma espécie de oásis no deserto. Manoel de Oliveira era o "realizador da casa", omnipresente mesmo quando não punha lá os pés. Eu não falava com ninguém mas escutava as conversas de toda a gente. Era uma esponja, e queria ver tudo, ler tudo, saber tudo - a idade veio a ensinar-me que não vale a pena essa aflição, mas agora olho para esses anos mágicos e tenho saudade do aleatório e da ignorância dos filtros de qualidade. Tive sorte, creio, porque pouco depois tinha 18 anos e acontecia no Porto a capital da cultura. 

E por isso foi fácil, muito fácil, encontrar Manoel de Oliveira e Aniki Bobó, e o Vale Abraão e Francisca e Non, ou a Vã Glória de Mandar e Mon Cas. Mas Não é fácil falar sobre esses filmes, são um negócio que aconteceu entre mim e eles, muitas vezes no cinema outras vezes na TV, e até no Youtube (eu e Manoel de Oliveira somos também do tempo em que a internet mudou tudo para melhor). E foi fácil comover-me com aquele longo plano à volta de uma árvore, ou Ema e as casas escuras e grandes do Douro, as grandes famílias em extinção, os funerais, as cozinhas na penumbra, tudo filmado por Oliveira como se a história que ele quisesse contar fosse, em tantas dezenas de filmes, só uma: a da humanidade que ele conheceu de perto, a das tradições da burguesia confortavelmente a cair em decadência, a do prazer do vinho e a da arte, a do amor à literatura, às palavras sempre tão certeiras, à ironia e à ternura, a Deus e ao amor.

Na sexta-feira que foi santa fechou-se uma página na história do cinema mundial. A caminho do Porto ia muita gente que trabalha no cinema e que se queria despedir do grande mágico da sétima arte português. Eu também fui para norte. É tempo de voltar a casa dos pais para passar a Páscoa. Vou lá mostrar-lhes como o neto lisboeta tem crescido. Um dia, se tudo correr bem, hei de ir com ele pela mão à Cinemateca ver "a caixa". E no escurinho do cinema, eu, ele, o Luís Miguel Cintra, a Isabel Ruth e o Manoel de Oliveira havemos de coincidir no tempo outra vez. E o meu filho irá reconhecer as escadinhas da Mouraria, a casa dele. O futuro não é agora, mas vem já. Obrigada, Manoel.