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Luzes todas acesas

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"Servidões", Herberto Helder, Assírio & Alvim, 2013, 117 páginas

Republicamos um texto de Pedro Mexia saído na edição do Expresso de 1 de junho de 2013, onde o crítico e colunista do nosso jornal escreve sobre o livro "Servidões", de Herberto Helder.

Uma colectânea póstuma de Jorge de Sena lamentava uns sofridos "quarenta anos de servidão". Na mais recente obra de Herberto Helder são oitenta anos, idade invocada página após página. Oito décadas de vida, quase tantas de poesia: "dos trabalhos do mundo corrompida/ que servidões carrega a minha vida".

Este mundo, e seus trabalhos, tem tanto de biografável, traumático, como de íntimo e quase intransmissível. Não por acaso, a epígrafe cita uma conversa entre Breton e Giacometti sobre "o que é uma cabeça", quer dizer, o que contém, como funciona, que servidões sofre ou transcende. Percebe-se por isso que Herberto faça anteceder estes poemas de uma secção em prosa, invulgarmente autobiográfica. O poeta queixa-se da "insuficiência biográfica", espécie de "ficção da existência", mas depois de fazer este aviso traz-nos imagens com enorme força, uma infância na ilha com animais esquartejados, bananeiras com facas cravadas, "basaltos, espumas, corolas altas fremindo". É a Madeira que Raul Brandão descreveu como um Éden inquietante. Essa paisagem primordial dá origem a "duas histórias" (Herberto cita um texto antigo): uma "simbólica" e outra "subtil". O biografismo ínvio é subtil, inadequado à paráfrase, ao passo que a linguagem atónita é simbólica, alucinada. E reencontramos uma poesia avessa à costura gramatical, esquiva à sintaxe comum. E um idioma de cactos, escorpiões, fusíveis, árvores vermelhas, atmosferas azul petróleo, tudo acendido pelo "motor da cabeça" ou pelos "cinco litros de sangue" que transportam os humanos, criaturas viscerais e precárias. 

Esse sangue é especialmente veloz nos poemas iniciais, com um "eros" frenético de assombro e bruteza. A "plumagem" das "femeazinhas" é ainda uma promessa de felicidade, um incêndio, mas também uma beleza que custa, que magoa. 

Parece o Yeats tardio, o da vitalidade sexual: "You think it horrible that lust and rage/ Should dance attention upon my old age;/ (...) What else have I to spur me into song?". Ou o esplêndido "Pedra de Canto" de um Nemésio quase octogenário.

Os poemas passam do muitíssimo material ("cuecas") ao quase-bíblico ("selos"), e opõem a "thanatos" um "eros" incansável: "que alguém venha escutar-me quando puxo os lençóis para cobrir as musas do/ desentendimento,/ contra a noite abruptíssima:/ estrelas, florações às faíscas,/ e no chão, sempre pequeno, vil, de vulgo e de rastejo". Isso não impede que o poeta se apresente como "defunto", velho que a morte observa. Ou que ensaie um zangado "requiescat in pace". Porque a morte é um gerúndio, vai-se fazendo, "o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,/ meia volta, e já era". Porém, o romantismo de Herberto recusa o sofrimento enquanto academismo, e contrapõe o exasperado Kleist ao pacificado Goethe: "Quem tem a mão queimada tem em tudo fogo posto,/ obra, vida e corpo,/ e no fundo da mão do outro não há nada, mesmo na mão cheia de ouro". 

"Servidões" inclui poemas longos e breves, poemas mudados para português, poemas com sinais gráficos pouco convencionais, poemas que são um organismo vivo. Herberto vai-lhes chamando trémulos, profanos, e a língua acompanha essa metamorfose, "uma língua tão restrita que só eu saiba". Poucos poetas defendem uma ética tão assertiva, uma estética tão cheia de invectivas: "disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos/ e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque/ nada se reparte: ou se devora tudo/ ou não se toca em nada". Nos poemas de Herberto Helder devora-se tudo, não há imitações, nem sequer imitações irónicas, e aceita-se a "magnificência do mundo", mesmo quando é trágica. Então, memórias ancestrais e experiências oblíquas convivem com alusões a Villon, Pavese, Mallarmé, Schopenhauer. 

Ou com uma frase ouvida nos transportes públicos: "Todas as luzes acesas e ninguém dentro de casa". Havendo ou não alguém em casa, esta poesia há-de continuar a acender as luzes todas.

"Servidões", Herberto Helder, Assírio & Alvim, 2013, 117 págs. €22