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Joe Cocker, o que gostava que dissessem de si depois da morte? "Gostava que dissessem 'Ele ainda aqui está'. Que tal?"

No dia que que Joe Cocker morreu, o Expresso republica uma entrevista de Clara Ferreira Alves ao músico. Título original da peça, que saiu na edição de 15 de junho de 1985: "Nunca olho para trás".

A primeira entrevista foi com o manager e parecia que ia ser a única entrevista. O manager chama-se Tom Sullivan, ou Jim Sullivan, ou qualquer nome terminado em Sullivan, é inglês como o Joe Cocker e garante com a mão sobre o coração que não vai haver entrevista - "Ando com o Joe há sete anos e ele odeia a Imprensa; está farto das perguntas sobre álcool, sobre drogas, sobre escândalos! Está farto de mentiras e de que lhe tentem destruir a carreira com isso!" O manager vinha da Alemanha, o Joe Cocker também, e o cantor estava "muito cansado, um pouco doente, e - fundamental! a dormir". Nada a fazer. Eu ia de Lisboa (que é mais perto) tinha perdido uma tarde (o Cocker faltou ao ensaio, onde começaria a malfadada e rara entrevista), não estava habituado a falar com managers de estrelas musicais e garantia que o que menos me interessava era o álcool e as drogas. O manager argumentava e eu contra-argumentava. Perdido por cem perdido por mil, disse-lhe que não fazia mal nenhum ao Cocker falar com alguém de vez em quando e que quanto mais ele fugia mais a minha insistência esticava. Ladrei ao cão de guarda.

Apaziguamento súbito. O manager adoça, promete uma intervenção a nosso favor, meu e do fotógrafo. Antes do jantar e do concerto, talvez... Telefonema para o quarto do hotel, à hora combinada e - milagre! - Joe Cocker diz que sim. Hora e local: depois do concerto de Cascais. No camarim.

No camarim depois do concerto, que até correu bem, vejo um homem baixinho, louro, de olhos azuis e com um sorriso todo enrolado em toalhas brancas. Está cansado, não quer ver ninguém. Mas promete abrir uma exceção connosco, no bar do hotel, daí a uma hora. Entretanto, vai iniciar a "descompressão". Eu estou de paciência gasta. O fotógrafo idem.  

Novo cenário. Bar do hotel, depois da uma da manhã. Joe Cocker pede uns minutos para ir ao quarto mudar de roupa. Desce. Ao fundo, encostada ao balcão, a banda afoga a noite em copos de bebidas não identificadas, Cocker pede uma coca-cola, o manager vai a correr buscá-la e regressa logo, para não perder um minuto da conversa. Resumo: a conversa foi decente, o Joe Cocker simpático. Afinal, a prova de que ele já não é o rapazinho de Sheffield, ansioso de imitar os ídolos da música negra, nem é o novato que apareceu em Woodstock "with a little help from my friends", pode ser esta: passa-se uma vida a tentar ser conhecido para depois fugir de ser reconhecido na rua. E a via dolorosa do show business. Em vinte e tal anos de carreira, será que Joe Cocker ainda vive "on the edge of a dream"?

O manager rosna: "Só mais cinco minutos".

O último cantor que passou por Cascais antes de si foi o Leonard Cohen. De certo modo, tanto ele como você pertencem a uma raça de sobreviventes, andam nisto há muito tempo, apagam-se, voltam a acender... Tem consciência dos perigos que a passagem do tempo tem para um cantor? Não se pode viver eternamente, muito menos no negócio do espetáculo. Ainda há semanas estive com o Dylan que me dizia que tanto eu como o Cohen temos de ter cuidado, porque andamos há muitos anos nisto e o tempo tornou-se um inimigo. E ele sabe-o bem.

Aos 40 anos, andar em "tournées", dar espetáculos seguidos em países diferentes, carregar a mala às costas, deve tornar-se cansativo...  As dificuldades são grandes. Show atrás de show, comida estranha, hotéis, noites mal dormidas, o cansaço depois de cada atuação, tudo isso pesa e há um momento em que me sinto muito mal tratado, a correr contra o tempo.

Um concerto é igual a outro concerto, independentemente do público, do sítio? Oh não, de modo nenhum! É sempre diferente, e o que demos em Portugal foi ótimo. Aliás, foi o primeiro grande concerto desta "tournée" europeia, até aqui tínhamos tocado em festivais, juntamente com outros cantores ou grupos. E amanhã já estamos em Málaga, para outro concerto.

Rod Stewart ou Mick Jagger fazem tudo para se manterem em forma, ginástica, jogging, treinam-se como atletas para aguentarem horas de palco, e cuidam da voz. Faz o mesmo? Como é que consegue manter uma voz tão poderosa? Tenho esperanças de que ela se mantenha assim muito tempo porque a voz é tudo o que tenho, mas não faço nada para me manter em forma, pelo contrário faço tudo errado: fumo, bebo, descanso mal, levo uma vida irregular. E em "tournée" exponho-me ora ao frio, ora ao calor, o que também não nada bom para a voz. Na Alemanha apanhei frio e quase adoeci, enquanto em Portugal faz um calor incrível. Está tão quente, durante o show ia morrendo de calor, bom... não é mau, sempre se sua um bocado... 

Mas não tem medo de perder essa força? De falhar? De que as suas canções não peguem? Isto é um mundo feito para duros e a minha carreira já caminhou em tantas direções! Há alturas em que me sinto muito bem, senti-me assim a cantar com o Huey Lewis, por exemplo. E, se deixar de ter sucesso há sempre sítios para onde posso ir, onde gostam de mim mesmo que não tenha uma canção que seja um hit. A Austrália é um desses sítios.

 

FOTO EPA

"On The Edge of a Dream" foi um sucesso inesperado?  Absolutamente. Na Alemanha eles adoram, acham a melodia fantástica. Não pensei, de início, que viesse a ter tanto êxito, começou por ser uma canção de um filme, Teachers. Já o passaram aqui?

Não, mas a canção também é um sucesso, pelo menos está num "top" qualquer, e o teledisco passa na televisão... Aí está uma coisa com a qual não me entendo, os "vídeos". Não tenho jeito para fingir que estou a cantar enquanto sou filmado, pertenço a uma escola e a um tempo em que era no palco ou no estúdio que as coisas aqueciam e não com uma câmara pelo meio. É por causa de um palco, de uma boa audiência - a melhor escola que há é a estrada - que ainda estamos aqui, que luto com a minha voz. Também gosto do estúdio, da preparação de um álbum, mas cada vez se torna mais difícil arranjar boas canções, bons arranjos. Às vezes, o palco até parece fácil, ao lado disso.

No entanto, um dos seus grandes êxitos, "Up Where We Belong", tem o cinema pelo meio, o filme Oficial e Cavalheiro. A câmara tem as suas vantagens... No momento em que acabei de gravar essa canção tive logo a certeza de que ia ser um hit. A canção foi uma ideia do produtor do filme, que achou que aquela combinação de vozes, a minha e a da Jennifer Warnes, podia ser uma excelente aliança profissional. Ao princípio senti-me um pouco estranho, não costumo fazer assim as coisas, mas resultou em cheio!

Está habituado a cantar sozinho, é isso? É, por definição, um cantor a solo? Um individualista? Não! Que estou eu para aqui a dizer, sim! Claro que sou!

Vive nos Estados Unidos. Dá-se com outros artistas, frequenta o meio norte- americano do espetáculo? A gente do cinema? Vivo na Califórnia, em Santa Barbara, e não gosto de reuniões sociais, não frequento ninguém. Tenho alguns amigos, vou vendo uns artistas de vez em quando, especialmente o Dylan, de quem sou muito amigo e que foi assistir à gravação do meu - álbum. É um dos com quem gosto de falar. 0 Cohen também.

Uma vez teve um grupo chamado Mad Dogs and Englishmen. É um mad dog ou um english man? Essa é boa, não sei. Na Austrália chamam-me mad dog, mas na América sou um inglês, mantenho a cidadania inglesa e até tenho tido dificuldades para conseguir o 'cartão verde' americano. Preferem-me antes inglês do que americano.

Foi por isso que não participou no disco do Quincy Jones, do Michael Jackson e do Lionel Ritchie para a ajuda à Etiópia? Foi convidado? Não, precisamente porque era só para artistas americanos.

Conseguiu tornar a sua versão de uma canção dos Beatles - With A Little Help From My Friends - mais famosa do que os próprios Beatles. Porquê? Acha que existe um estilo Joe Cocker, com essa voz rouca e arrastada? O meu grande mestre foi o Ray Charles, e os grandes cantores de blues, é daí que vem esta voz. Se os Beatles gostaram ou não, nunca mo disseram. Diz-se que eles adoraram, mas não se deram ao trabalho de mo dizer. 

Nunca os encontrou pessoalmente? Sim, o John Lennon vi-o uma vez e estive várias vezes com o George Harrison e o Paul McCartney. 

Hoje, ainda precisa de uma ajudinha dos amigos? Afinal, essa canção simboliza o seu arranque... Quem é que não precisa de uma ajudinha dos amigos?

Começou quando tinha uns 12 anos, em Sheffield, num grupo onde tocava um irmão mais velho. Como eram esses tempos? Maus. Éramos pobres, não tínhamos dinheiro para os instrumentos e arranjávamo-nos como podíamos. O grupo chamava-se Skiffle Group.

Começou logo a cantar? Comecei com a bateria, mas desde sempre quis fazer as duas coisas. Depois percebi que era impossível e deixei de tocar.

 

FOTO EPA

E em 1969, chegou aos Estados Unidos e caíram- -lhe milhares de pessoas em cima.- Ou foi o contrário, você é que caiu em cima de Woodstock? Qual foi a sensação? Meio milhão de pessoas a ouvirem é qualquer coisa de muito especial, não acontece todos os dias. Cantar ou tocar para enormes multidões é o maior desafio que se pode imaginar. É o que nos mantém vivos em tournée.

Um cantor como Joe Cocker deve estar sempre rodeado de muita gente. No entanto, é muito difícil falar consigo, entrevistá-lo. Odeia as pessoas ou só os jornalistas? Não odeio os jornalistas, digamos que eles arranjam sempre maneira de escrever de um modo desagradável aquilo que eu disse e, o que é pior, o que não disse. Daí a minha desconfiança. Entre ter que interromper uma entrevista a meio, cheia de perguntas cretinas, e não dar qualquer entrevista, prefiro não a dar. De resto, até gosto de falar com as pessoas e não se pode dizer que odeio a Imprensa. Estou aqui, não estou? Garanto que não a odeio.

O seu manager disse isso mesmo, odiar a imprensa...  Ele lá sabe, atura-os mais do que eu.

É um solitário? Tem família? Costuma ter saudades de casa? De repente, aqui estou eu, mal alimentado com uma mala cheia de roupa suja, então sim, tenho saudades de casa. Quando estou em Santa Bárbara tento sair o menos possível.

Não respondeu à pergunta... Devo ser um solitário. Não tenho família, quero dizer, não tenho filhos, nem crianças à minha volta.

Em casa, costuma ouvir música, o rock que se faz hoje? O que se faz hoje não conheço bem, mas o rock ainda está a crescer. Prefiro a velha escola, a dos rockers de antigamente, é aí que pertenço. Quando eu era jovem passava o tempo a ouvir tudo o que se fazia de novo, sempre a rebuscar canções novas. Agora, deixei-me disso. Ouço música clássica, Beet hoven, Lizst, Chopin...

Viu o filme Amadeus? Sim, e adorei, é um dos poucos casos em que os Óscares foram merecidos, e depois é a prova de que as coisas não mudaram assim tanto, do tempo de Mozart para cá. O gemo anda aliado ao que é estranho, excêntrico, dificilmente compreendido.

E um excêntrico? Eu? Não sei, só se for por trazer uns sapatos vermelhos calçados. Ah, ah, ah!

Além de ouvir música, o que é que faz? Lê? Não sou um intelectual, gosto de ler, por exemplo, os romances do Conrad. Deve ser por gostar do mar.

Tem barco? Ou é só um marinheiro da estrada, género on the road? Não tenho jeito nem prática de marinheiro e por isso não tenho barco. Ser um marinheiro da estrada, talvez seja mais prático.

Durante o tempo que esteve em Cascais nunca saiu do hotel. Além de dormir, o que é que fez? Dormir. Vi televisão, mas achei aquilo incrível. Só têm esta televisão?

Temos uma televisão do Estado com dois canais, ambos muito maus... Do Estado? Acho que só vi um canal, não me diga que o outro é ainda pior... Será que também foi o Estado que pagou para eu vir cá?

Não, pagou o público que o foi ver. Estou mais descansado.

A sua voz, tal como a do Bob Seeger, parece a voz de um negro. Treinou-a assim? Sim, dizem muito isso, mas eu e o Bob Seeger não somos os únicos brancos com esta voz. A nossa escola foi a mesma, a da música negra, e isso ficou para o resto da vida, era o que ouvíamos em miúdos e gostávamos. Ainda há pouco tempo estive na festa de aniversário do Appolo Theatre, em Harlem, e cantei uma canção em coro com o Billy Preston e a Patty Labelle, foi "You Are So Beautiful". Ficou muito ao jeito dos espirituais negros e diferente da maneira como a costumo cantar. Quanto ao treino, não sei se os anos treinam ou destreinam a voz, penso que acontecem as duas coisas.

Em Cascais, o público do Leonard Cohen era bastante homogéneo, tipo meia-idade nostálgica dos anos 60. No seu show via-se muita gente jovem, adolescentes, a cantarem em coro coisas antigas. Contente? É verdade, eu gosto disso. Já noutros espetáculos meus disseram que havia pais e filhos juntos para me ouvirem. Enquanto for assim...

Já pensou em parar definitivamente? Não me vejo a parar, para já. Enquanto tiver saúde e pensamentos largos vou atuando, cantando... estou a comprar uma casa, nos Estados Unidos, e é aí que penso acabar, uma espécie de âncora. Mas não gosto de pensar nisso agora, prefiro recomeçar tudo de novo, ir para a estrada, preparar novos álbuns em estúdio. Não gosto de pensar no futuro nem de olhar para trás.

Está a trabalhar num disco novo? Sim, de Málaga regresso a Nova Iorque para trabalhar nele. Vai incluir canções bastante desconhecidas, de novos compositores, à mistura com adaptações de velhos êxitos, das Staple Singers - sobretudo uma canção chamada "Heaven", que era cantada pela Mavis. 

A propósito de céu, o que gostava que dissessem de si depois da morte? Gostava que dissessem 'Ele ainda aqui está'. Que tal?

 

OS PDF DA ENTREVISTA: 1 E 2