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Hospício: um ninho de alegria e de afeto

Recorda-se da obra-prima de Milos Forman "Voando sobre um ninho de cucos"? Durante quatro semanas, o realizador Jorge Pelicano voou sobre o Centro Hospitalar Conde de Ferreira e documentou o dia-a-dia dos seus pacientes. O resultado foi "Para-me de repente o pensamento", um relato que pretende desconstruir os estigmas em torno deste tema. Jorge Pelicano diz que "passado um tempo já olhava para eles como pessoas 'normais'." Na verdade, tudo se resume a uma rotina: "medicação, alimentação, café e tabaco."

A estreia de "Para-me de repente o pensamento" está agendada para esta quinta-feira, dia 23, no cinema São Jorge, Lisboa, no âmbito do Doclisboa'14. O documentário, com o cunho da produtora "Até ao fim do mundo", está inserido no projeto Transmedia, que reúne quatro abordagens de um mesmo tema num único espaço. Um espaço e um tema que deram origem a um documentário, a um livro, a uma peça de teatro e a uma exposição fotográfica. O trabalho de Jorge Pelicano é o primeiro a chegar até nós.

Quando era miúdo, Jorge Pelicano tinha duas hipóteses: ou se portava como gente crescida, ou era internado num hospital psiquiátrico. Numa pequena freguesia da Figueira da Foz, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra, servia de colher de pau.  É claro que tudo não passava de uma falsa ameaça, mas o realizador português "acreditava mesmo naquilo." O que não o matou, fê-lo mais forte. A rodagem de "Pára-me de repente o pensamento" ajudou-o a perceber que o hospício não é um lugar tão sombrio. "Há muitas coisas que as pessoas cá fora não imaginam que existem: há terapias, há desporto, há teatro, há cinema, há passeios."

Nos seus trabalhos, procura representar a realidade com a maior naturalidade possível. "Trabalho muito a invisibilidade da câmara, de maneira a que as pessoas se esqueçam que ela existe", explica. Um tema tão delicado, pedia uma abordagem igualmente cuidada. Nesse sentido, Jorge Pelicano e a sua equipa fizeram um reconhecimento do território antes do início das rodagens, "porque eles não estão habituados a ter lá alguém com câmaras." Depois, já de câmara na mão, chegou às 250 horas de filmagens. "Foi um filme muito difícil de fazer", confessa.

O próprio hospital foi um "crítico construtivo" durante as gravações e, inclusive, deu conselhos práticos ao realizador para que este fugisse ao lado mais fácil da loucura. "Nós nunca nos quisemos desligar do mundo exterior. Se mergulhássemos completamente nesta história, íamos por caminhos muito complexos", declara Jorge Pelicano. A verdade é que, naquela semana e meia off the record, o realizador conseguiu desvendar um pouco da complexidade da mente dos pacientes. "O café e o cigarro são dos únicos momentos especiais para eles", conta. Apesar de tudo, há muito que fica por perceber. Já alguma vez se questionou se é possível ser-se feliz nestas condições? A pergunta deixou Jorge Pelicano atordoado. "Não sei se são felizes, mas havia muita alegria e afeto entre eles".

No início do século XX, Ângelo de Lima escrevia: "Pára-me de repente o pensamento/ Como que de repente refreado/ Na doida correria em que levado/ Ia em busca da paz do esquecimento." Na visão do realizador, é "um dos poemas que melhor expõe o estado de loucura de um esquizofrénico." A 20 de novembro de 1894, Ângelo de Lima foi internado no Centro Hospitalar Conde de Ferreira, diagnosticado com "delírio de perseguição". Agora é Miguel Borges quem o reencarna. Em busca de uma personagem para a sua peça de teatro, o ator português viveu e conviveu, ao longo de três semanas, com os pacientes do mesmo hospital. O processo foi filmado por Jorge Pelicano, segundo o qual, Ângelo de Lima ajudou "a explicar o que era psiquiatria e a esquizofrenia no século XX".

Jorge Pelicano, formado na área de comunicação, na qual trabalhou durante dez anos, sentiu "vontade de experimentar outro tipo de registo." A transição para o registo cinematográfico deu-se em 2006, com o documentário "Ainda há pastores" e mais tarde, em 2010, com "Pare, escute, olhe". Ambos os filmes receberam prémios nacionais e internacionais.