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Herberto Helder. Apresentação de um rosto

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Em 2010, o Expresso publicou um longo perfil do poeta. O texto percorria os seus passos e estava baseado em muito do que os seus amigos e conhecidos nos disseram sobre ele. Esta terça-feira, dia em que soubemos que o perdermos, faz todo o sentido recordá-lo.

Esqueça-se o poeta que recusa prémios, o autor que nega aparecer publicamente. Esqueça-se o escritor misantropo, o recluso. Herberto Helder é mais do que isso. Só ele habita o mundo poético da sua vida. Autor tabu, assim se pode considerar", nas palavras de Manuel Rosa, o seu editor (Assírio & Alvim), Herberto Helder conseguiu a obscuridade que sempre desejou e tornou-se o mito que os seus mais próximos compagnons de route ajudaram a criar. 

Escrever sobre o poeta é "matéria impossível", dizem-nos. O "bloqueio" é imediato. O autor não dá entrevistas, não fala a jornalistas, não gosta, não quer. "Vive ermitado". O medo, um dos seus temas favoritos, reina na corte dos (poucos) que com ele privam e lhe prestam vassalagem. Ninguém quer dizer seja o que for sobre a figura. "Ele pode não ficar satisfeito", "é complicado", "não sou a pessoa indicada". O rol de desculpas multiplica-se em cada telefonema. Sabemos que Herberto "está inquieto". "Foi avisado de que o Expresso queria fazer um trabalho sobre ele", dizem-nos. Correm boatos. Fecham-se mais portas e volta a expressão - "matéria impossível".

Há, no entanto, uma vontade mais forte que o medo, mera cobardia (afinal), que é a do protagonismo. Sussurra, soa baixinho: Somos nós os únicos, os privilegiados que convivemos com ele! E, em off, é possível falar dele mesmo que ele "fique zangado" (o que será sempre uma incógnita, uma vez que "não há artigo sobre a sua pessoa e obra que não colecione religiosamente").

O medo, esse medo verdadeiro e puro, obsessivo e majestoso, fica só para o poeta. Mestre.

Ícone maior da poesia portuguesa do (pós)-surrealismo. Medo visceral como cada uma das suas palavras, mas sempre em busca da respiração folgada, espécie de libertação, só alcançável através do mais ardiloso "ofício" da Criação. Absoluta e divina. Herberto Helder apresenta-se ao mundo como o Criador.

É-o na esfera sagrada daquela poesia torturada e torturante. Avassaladora. Doentia para um espírito em mutação constante, infinitamente à procura da perfeição à qual sabe nunca poder chegar. E é nesse universo de dor insuportável, de luta física e mental, que Herberto Helder expõe os seus fantasmas preferidos. A morte, o crime, o suicídio, o apocalipse, o génesis, o corpo (matéria orgânica sublime na capacidade de se metamorfosear), o ritual, a alquimia (assentes num culto do mundo vegetal maçónico, dirão alguns), o canto, a voz que o canta, a palavra, obsessivamente a palavra (corpo de trabalho do artesão/ poeta em tudo semelhante à madeira ou à pedra esculpidas à mão), a palavra monstruosa, tão aterradora quanto o amor que atravessa toda a sua obra. Paixão e sangue aproximam-se da salvação no messianismo herbertiano onde a destruição (da obra) é a única saída, transformada, porém, numa exaltação cada vez mais extrema da violência.

Porém, Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira (Funchal, 23 de Novembro de 1930) é um"cidadão pacífico". Vítor Silva Tavares, que o editou primeiro na Ulisseia e mais tarde na & Etc., descreve-o assim emuitos outros o consideram avesso a todo o tipo de confronto físico. "Exaltava-se sim por uma boa comezaina, um cozido, uma feijoada..." "O cidadão Herberto revela uma outra faceta. Com aquele ar sereno, aquela barba que lhe rodeia o rosto largo, a testa ampla, aquele ar transpirando bondade, se quiséssemos, é portador de um sentido de humor por vezes não detetável à primeira. É um humor subterrâneo o de Herberto Helder, vem-lhe daquele olho seco, não é um humor exposto.

Mesmo entre amigos, esta faceta é um possível detalhe da imagem de si próprio que queria revelar para ocultar o ser mais profundo", retoma Vítor Silva Tavares.

É umrapaz tímido aquele que chega a Lisboa aos 16 anos para acabar o curso liceal. O mesmo que em 1948 se matricula na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, para depressa mudar para a Faculdade de Letras, cujo o curso de Filologia Românica frequenta durante três anos. Instala-se na Real República Palácio da Loucura. No quarto que tomou para si ainda hoje permanece o grafito de um poema por si aí escrito. Nele, Herberto conta a história que quer que seja a sua. O seu desprezo pelo academismo é conhecido e aqui bem delineado numa ânsia trágica, por isso heróica, de agarrar para si a sina do vagabundo.

Os anos 50 vão a meio. Poesia e vagabundagem, uma e a mesma filosofia de vida, a de muitos e aquela que adota também para si.

Começa a publicar poemas avulso, entre Coimbra e Lisboa. Na capital trabalha algum tempo na Caixa Geral de Depósitos, mais tarde como angariador de publicidade e outros biscates de rendimento baixo que, entre outras razões, o levam a sediar-se numa casa de passe.

O chamado Grupo do Café Gêlo - a saber, Mário Cesariny, Luiz Pacheco (seu primeiro editor em 1958, "O Amor em Visita"), António José Forte, João Vieira, Hélder Macedo - é o universo intelectual (palavra que abjeta) que mais o atrai. Menos, muito menos exuberante e de personalidade bem mais apática, "ouve mais do que intervém". E é com dificuldade que consegue atrair as atenções de Cesariny para um primeiro poema que lhe pretende mostrar.

A edição do seu primeiro livro, no entanto, cai como uma verdadeira pedrada no charco. "Escrevi um texto que, através do seu errante imaginário, afirmava que um facho feroz tinha atravessado o gelo, todas as palavras frias, falsas, e que era inaugurada/-desvendada uma outra estação para a Poesia no Mundo, pós Fernando Pessoa", diz, em "A Obra ao Rubro", Rui Mendes (à época codiretor do "Jornal de Poesia") a Maria Estela Guedes (uma das poucas autoras, a par de Maria de FátimaMarinho, a dissecar o trabalho do autor, a primeira, e a fixar-lhe a biografia, a segunda).

França, Bélgica, Holanda, Dinamarca são os países que percorre entre 1958 e 1960. Parte já depois de ter casado com Maria Ludovina Dourado Pimentel e regressa a Lisboa com bilhete de repatriado vindo de Antuérpia já depois do nascimento da filha Gisela Ester Pimentel de Oliveira. Na bagagem traz quase concluídos "A Colher na Boca" e "Os Passos em Volta".

É praticamente o mesmo o ambiente que o acolhe. As tertúlias continuam, os cafés vão variando, os grupos também. Mantém-se a filosofia. "Ganhar sim, mas pouco", regra de ouro como lhe chama Vítor Silva Tavares. "Não queríamos uma profissão, escrevíamos umas coisas, mas optávamos por um nível de vida voluntariamente baixo. Era uma máxima para todos, e da qual Herberto não se excluía. O diferencial deste preceito era a dose de liberdade que se pagava desta maneira, num mundo concentracionário e fechado.

Chamávamos-lhe vagabundagem ou o que pudesse ser entendido como tal, fazia parte do pulsar da criação artística." Empregos circunstanciais são tudo o que é passível de ser aceite, nada mais. Herberto torna-se então encarregado das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian e percorre o país, depois de ter trabalhado como criado numa cervejaria, cortador de legumes, empacotador de aparas de papéis, e guia de marinheiros no mundo da prostituição por essa Europa fora. Por isso, é com alguma surpresa que os amigos veem Herberto aceitar uma pensão vitalícia oferecida pelo Estado, era então António Alçada Baptista secretário de Estado da Cultura.

"Onde ficava então o suplemento de liberdade sem o qual um criador não pode nem deve viver?" A resposta é dada novamente por Vítor Silva Tavares. "A pensão é modesta, corresponde àquele mínimo de sustentação para que, dedicado à produção literária, possa viver a vidinha." Já o Prémio Pessoa não. A recusa que o tornou famoso, em 1994.

Essa valia muito dinheiro e corrompia todos os seus princípios. "Nunca ninguém acreditou que ele aceitasse o prémio. Nem ele próprio que lho atribuíssem." Idos iam os anos de farra. As tardes passadas no Toni dos Bifes, com tertúlia certa e plateia fixa. "Era a hora da devoção", ou "a hora do órfão", valha o sarcasmo. Herberto encontrava-se com Carlos de Oliveira, que admirava profundamente e de quem sentia necessidade séria de conforto. Foi lá que, dizem-nos, a ira tomou conta do "cidadão pacífico" ao ver a edição pirata de "O Corpo o Luxo a Obra" (1978) dada à estampa por Luiz Pacheco. Conta-se que houve pancadaria, mas diz quem presenciou que a única vontade do autor era "punir o criminoso, denunciando o crime". Ira efémera, porém. Logo desaparecida longe da "plateia" e perante a necessidade da ação. "Homem de ambiguidades", "pleno de contrariedades". "Sedutor e facilmente seduzível por convicções momentâneas..." Foi assim que uma tarde decidiu alistar-se no PCP. A militância "não durou mais de cinco minutos".

Já a noite era para "todos", entre a Galega, o Paladium, mas sobretudo o Montecarlo. Herberto, Virgílio Martinho, Ernesto Sampaio, Pedro Oom, Fernanda Alves, Miguel Elrich, Eurico Gonçalves eram a prata da casa. António Barahona, Luiza Neto Jorge, Luiz Pacheco, Vítor Silva Tavares clientes assíduos. Manuel Gusmão, António José Forte, Escada, Mário Viegas, João César Monteiro frequentadores de ocasião. Aí, o "regabofe" era maior. Piadas e discussões, provocações, copos até às tantas "sem constrangimentos ou obrigações familiares".

Um espírito que não lhe era assim tão natural e o levava não poucas vezes ao fastio.

África, mais precisamente Angola, é a sua tábua de salvação durante dois anos, entre 1970 e 1972 (um ano antes, Isabel Figueiredo era mãe do seu segundo filho, Daniel João Figueiredo de Oliveira). Hoje nem Angola, nem cafés, apenas a reclusão.

Percorre, então, a ex-colónia como repórter do "Notícia" e assume o seu mundo em cada artigo que publica sem deixar de manifestar os gostos mais pessoais. Kerouac e Ginsberg, Bob Dylan são referências que não dispensa. "Easy Rider" faz parte do seu imaginário.

Leonard Cohen, Jim Morrison, Melanie, os Beatles fazem parte da sua galeria de eleitos. Chega a citar Patti Smith em "Photomaton & Vox" (1979) e aconselha a leitura de Henry Miller.

Em Luanda, o trabalho de jornalista aproxima o autor de uma realidade quotidiana menos obsessiva. No entanto, não lhe poupa o calvário depressivo em que sempre viveu.

Psicanálise, grupanálise, terapias várias fazem parte da amargura do Eu herbertiano

São raízes dentro de um homem só. Só e apaixonado por uma mãe desaparecida oito anos após o seu nascimento. Morte abençoada, morte amaldiçoada. Ele, o poeta, emaranhado numa culpa perpétua, um vazio desesperante, num mundo de machos, onde a virilidade aniquila o choro da criança e lhe atira como consolo apenas a loucura. A do génio? De Angola traz consigo outro tempo, tempo algum. Esse tempo insular, o da ilha natal, marcado por sons, gestos e rituais. Tempo de aprendizagem, de iniciações e amputações.

Aquele tempo onde vive hoje, onde viveu ontem, algures em Cascais, como de passagem pelos Estados Unidos, incógnito. Invadido pelo ego. Forte. Fortíssimo. Maior que a idade, a sua e a dos seus poemas. Ego eterno, como a eternidade que se vaticina. Ego aglutinador da loucura. Dessa loucura dele, poeta, mestre, mais uma vez, que mais e mais uma vez o leva a emendar, a escrever e reescrever a obra inacabada. Obra impossível.

 

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Agosto de 2010