Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Fazemos destas as nossas palavras

  • 333

FOTO ANDREA MEROLA / EPA

O que se disse, escreveu, pensou, teorizou, refletiu e sentiu sobre ele, Manoel de Oliveira. Temos Clint, Agustina, Luís Miguel Cintra, Maria João Pires (que observava em Oliveira uma "malícia filósofica") e Georges Sadoul.

Helena Bento

Jornalista

Muitos falaram sobre ele. Uns foram bondosos nas palavras, outros maliciosos. Outros ainda mantiveram-se indiferentes. Em 1949, Georges Sadoul (1904-1967), argumentista e jornalista francês, escrevia na sua "História do Cinema Mundial" (1949) que o nome de Manoel de Oliveira era "um dos nomes do cinema português a reter, assim como Leitão de Barros, o mais conhecidos dos cineastas portugueses". Sadoul sublinhava ainda o seu "notável 'Aniki-Bobó', realizado à margem da produção oficial", classificando o realizador como "um independente de grande talento" pelos seus "semidocumentários de 1955 a 1965".

Noutro texto, publicado em "Histórias e Revelações" (2008, da Associação Portuguesa de Escritores), Luís Miguel Cintra, ator e encenador que participou em 19 filmes do realizador, descreve-o como um "grande amigo" e "mais do que um mestre". Segundo Luís Miguel Cintra, a obra de Manoel de Oliveira "não pode ser imitada nem dela se poderão extrair 'receitas' de como fazer cinema. Ele é, como todo o artista devia ser, único".

Luís Miguel Cintra refere-se ainda ao realizador como sendo "um exemplo absoluto na liberdade que sempre exigiu e conseguiu na sua prática artística". Elogia-lhe a capacidade de preservar (Manoel de Oliveira tinha 106 anos) a "componente lúdica", "o exercício da imaginação", reconhecendo-o como um "exemplo admirável de dignidade artística na sua relação com o público", atributo raro, admirável, tendo em conta a sua arte, a do cinema, "toda ela minada pelo mundo dos negócios, e numa época em que todas as artes vivem cada vez mais dependentes do mercado". 

Manoel de Oliveira adaptou para cinema quase uma dezena de romances da escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís (planeava adaptar também "A Ronda da Noite"). É bem conhecida a conflitualidade criativa que cultivavam "desde Francisca" (1981), filme que o realizador fez a partir do romance "Fanny Owen". Com "Convento" (1995), que Oliveira realizou a partir de um argumento escrito por si sobre o tema de um romance em que Agustina trabalhava na altura, a discórdia acentuou-se. A Agustina não agradou a leitura que Oliveira fez do tema, tendo decidido trocar o título que tinha previsto para o livro, de "Pedra de Toque" para "As Terras do Risco" (Oliveira, por sua vez, tinha também trocado o título do filme para "O Convento"). No entanto, o que fica é uma cumplicidade a vários níveis, que Agustina reconhece em entrevista ao jornal "Público", publicada em fevereiro deste ano. Nela, a escritora realça o carácter de "grande visionário" do realizador.

Sobre Oliveira, falou também Clint Eastwood. Em entrevista conduzida pelo realizador Darren Aronofsky, durante o Festival de Cinema de Tribeca (Nova Iorque), em 2013, o realizador americano disse que estava determinado a realizar filmes nos próximos 20 anos, referindo-se para isso a Manoel de Oliveira, que elogia como o discípulo que presta reverência ao mestre: "Conhecem aquele realizador português que tem 105 e ainda faz filmes? É o sonho de toda a gente no mundo. Não seria óptimo ter 105 anos e continuar ainda a fazer filmes?" 

Maria João Pires, que participou em filmes do realizador como "A Divina Comédia" (1991) e "A Carta" (1999), recorda-o, num texto disponível no site do Instituto Camões (sem data), como fazendo "parte daquelas pessoas capazes de submeter a realidade e a matéria às suas intenções poéticas, não através da força, mas sim pelo poder da sua convicção". Manoel de Oliveira representa "uma grande lição de sinceridade estética, tão bela quanto útil". Sobre a sua experiêcia de trabalhar como atriz em filmes seus, diz que foi de um "prazer imenso".

Enquanto artista, continua Maria João Pires, Oliveira "possui um universo de uma originalidade comovente", e, embora nunca se tenha tornado "didático", "os seus filmes "têm todos uma estranheza inimitável, como que uma malícia filósofica". Enquanto homem, "é de uma gentiliza extrema". "A sua vivacidade de espírito", aparentemente de uma verdade "inalterável", é "impressionante". "Encontrei nele uma subtileza emocional fora do comum, assim como uma grande capacidade de ouvir."