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Fantasporto em sessões contínuas

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"Omega 3", do cubano Eduardo del Llano

Programa carregado na 35ª edição do Fantasporto com sessões desde a hora do almoço até depois da ceia.

Quando andava no liceu ainda havia, pelo menos, um cinema em Lisboa que funcionava em sessões contínuas: o Olímpia, na Rua dos Condes, aos Restauradores.

Entrava-se, apanhava-se uma coboiada a meio, via-se até ao fim e ficava-se na sala até ao recomeço para poder ver ainda vivos os personagens que tínhamos visto levar um tiro ou uma facada. Era a técnica do "flashback" autoinduzido...

Este ano, a 35ª edição do Fantasporto tem sido mais ou menos assim. Há tanto filme que quase todos os dias as sessões começam à uma e meia da tarde e seguem até depois da uma da manhã.

Quem opte por ver o programa integral nem tempo tem para ir comer um pastel ao antigo café imperial, de há uns anos a esta parte transformado em MacDonald's. Salvaram-se os vitrais e o espaço. Malhas que o império (neste caso, do imobiliário e descaracterização) tece, diria eu.

Falando dos filmes, que é para isso que estas crónicas servem, novamente a primeira palavra para uma fita filipina. "The Janitor", de Michael Tuviera, o drama de um polícia honesto caído em desgraça que a hierarquia utiliza para limpar casos difíceis, nomeadamente executando suspeitos denunciados por presos submetidos às mais horríveis torturas.

Fica-se com a dúvida se em países destes não será a realidade a ultrapassar a ficção cinematográfica, de resto muito bem feita.

Menos bem feito, ainda que partindo de uma ideia genial, é "Omega 3", do cubano Eduardo del Llano. Outra cinematografia que começa a revelar-se (já tinha feito referência noutra crónica à curta-metragem de ficção científica "Habana").

No mundo de hoje, em que há a tendência de fazer da comida uma religião, há fundamentalistas que seriam capazes de mandar fuzilar quem goste de carne mal passada ou de tripas à moda do Porto. E se um dia essa gente chega ao poder e resolve implantar a ditadura do alimentarmente correto?

E uma vez mais se confirma que não há como os britânicos para fazer um filme policial bem feito: "Keeping Rosy", de Steve Reeves, a história de uma executiva que cai em desgraça, mata involuntariamente, fica presa numa teia infernal e se redime salvando um bebé. Simples (no mesmo sentido em que a escrita de Hemingway o parece ser), escorreito e exemplarmente executado.

Uma última palavra para "A Cry from Within", de Deborah Twiss (EUA), milésima fita sobre uma família que vai morar numa casa onde algo de terrível se passou muitos anos antes. Não é o melhor filme do género, mas também está longe de ser o pior.