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"Escrever depois de Auschwitz." Uma análise ao livro em que o Nobel avalia a própria carreira

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Balanço da carreira literária de Günter Grass, feito pelo próprio à luz dos traumas alemães do pós-guerra. No dia em que o Nobel morreu, republicamos a análise de José Mario Silva ao livro "Escrever depois de Auschwitz", saída na edição do Expresso de 25 de outubro de 2008.

José Mario Silva

Proferido a 13 de Fevereiro de 1990, na Universidade de Frankfurt, este discurso insere-se num recorrente olhar de Günter Grass sobre a História da Alemanha no século XX e o seu próprio percurso, cheio de zonas de sombra que o impelem a exercícios de retórica autojustificativa.

Grass começa por projectar-se na sua adolescência, em Maio de 1945, quando aos 17 anos se viu num campo de prisioneiros, partilhando um "buraco feito na terra, a céu aberto", com outros cem mil alemães. "O meu único objectivo era, por estar a morrer de fome, a sobrevivência, com esperteza sôfrega; quanto ao resto, não fazia grande ideia." Tal como noutros textos, Grass faz desta ignorância, desta imersão na "estupidez geral" uma espécie de álibi. Depois da guerra, quando a realidade dos campos de concentração se tornou conhecida, ninguém queria acreditar. "Eu dizia para mim pró-prio e a outros, eles diziam para si próprios e a mim: nunca os alemães fariam uma coisa destas."´

Mas fizeram. E a "monstruosidade chamada Auschwitz", por muito "incompreensível" e "inconcebível" que fosse, instituiu um "corte" cujas consequências Grass, à distância, procura discernir .A questão central nasce da célebre frase de Adorno: "Escrever um poema depois de Auschwitz é bárbaro e isto corrói também o conhecimento das razões pelas quais hoje é impossível escrever poemas".

Grass admite que fez da frase, como tantos outros, uma leitura linear: "O mandamento de Adorno pareceu-me uma proibição francamente contrária à natureza; era como se alguém se tivesse apropriado do papel de Deus-pai e proibido os pássaros de cantar".

A única forma de refutar Adorno era "escrevendo", e é disso que este discurso dá conta, através do balanço literário da obra de Grass, dos poemas e peças em um acto dos anos 50 aos romances, ao "Grupo 47" e aos conselhos de Paul Celan, o sobrevivente de Auschwitz que não suportou a ideia de ter sobrevivido.

Há, porém, algo de problemático neste texto - e não é a sua desarrumação, a sua permanente deriva. É o sabermos hoje que Grass ocultava em 1990 aos alunos de Frankfurt, como ocultou a toda a gente (e talvez a si próprio) durante 60 anos, o facto de se ter alistado voluntariamente nas SS durante a guerra. E isso faz com que esta justificação moral da escrita pós-Auschwitz se torne particularmente ambígua.