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"Encantou críticos, espantou portugueses." A morte de Manoel de Oliveira observada lá fora

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O jornal francês "Liberation" faz manchete do seu site com a notícia da morte de Manoel Oliveira. Sites espanhóis e brasileiros também dão especial destaque ao falecimento do realizador português.

A morte de Manoel Oliveira não passa despercebida esta quinta-feira na imprensa internacional, que o descreve como um "cineasta de culto" e "prolífico" que atingiu a "maior longevidade" entre os profissionais da sétima arte.

Em França - onde o realizador foi agraciado com as insígnias da Grande Oficial da Legião de Honra de França em dezembro de 2014 -, os jornais dão grande destaque ao realizador português.

O "Liberation" faz mesmo manchete do seu site com a notícia, sob o título "Manoel de Oliveira regressa a casa", numa alusão a um dos seus filmes mais conhecidos. Falando numa linguagem própria de Manoel Oliveira, o jornal francês sublinha que o casamento entre a prosa narrativa e os planos unifica o seu trabalho, conferindo uma "impressão grandiosa".

O "Le Monde" escreve por sua vez que "Manoel de Oliveira era o reitor dos cineastas em atividade", tendo recebido em dezembro de 2014 as insígnias de Grande Oficial da Legião de Honra de França. O diário francês recorda ainda a célebre frase do cineasta declarada no ano de seu centenário: "Parar de trabalhar é morrer", que foi depois repetida por si várias vezes. 

"O último grande realizador europeu" 

Em Espanha, os jornais não deixaram passar a notícia da morte do realizador português. Sob o título "Manoel de Oliveira, o mítico cineasta com noventa anos de carreira", o "El País" dedica um longo texto onde descreve o seu perfil e carreira, sublinhando que morreu" o último grande realizador europeu" que se seguiu ao cinema mudo.

"Com 106 anos, e com um ritmo de rodagem de um filme por temporada, parecia que Manoel de Oliveira tinha conseguido superar a própria morte", pode ler-se no site do diário espanhol, que cita uma das frases mais conhecidas do realizador. "Se penso em parar? Se deixar de filmar, aborreço-me e morro. Tenho em mente um monte de projetos. Agora não sei se a vida me vai deixar concretizá-los todos", dizia Manoel de Oliveira.

Lembrando que o português se estreou na televisão enquanto ator no filme "Os Lobos", do realizador italiano Rino Lupo, o "El País" sublinha que a técnica de Manoel Oliveira assentava sobretudo em planos fixos. Refere ainda que o cineasta português gostava de falar de política, segundo um jornalista do "El País" que esteve na sua casa no Porto há dois anos. "Espanha parece que não vê Portugal, mas vê. Eu tenho prémios de todas as zonas espanholas e sempre me atenderam bem."

Questionado sobre a internet, o realizador disse na mesma ocasião que não sabia se a Internet era uma boa coisa. "A vida moderna aumenta a capacidade mecânica sem melhorar a habilidade do homem", disse.

O jornal "El Mundo" publicou, por seu turno, um texto coassinado com a agência espanhola EFE que frisa que Manoel de Oliveira era considerado um "cineasta de culto", sobretudo na Europa e no Brasil, sendo o diretor de cinema mais velho do mundo, com um portefólio alargado - com cerca de 60 filmes -, uma vez que fez questão de filmar sempre, mantendo um ritmo de trabalho intenso até ao final da vida.

"A participação nos seus filmes de atores conhecidos como a francesa Catherine Denueve, o norte-americano John Malkovich ou o italiano Marcello Mastroianni durante os anos 80 e 90 ajudaram a sua obra a ganhar uma dimensão internacional", escreve o "El Mundo", recordando alguns dos prémios arrecadados como um Leão de Ouro do Festival de Veneza e uma Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1995 e 2008, respetivamente.

"Encantou críticos, espantou portugueses"

No Brasil, o jornal "Folha de São Paulo" escreve que Manoel de Oliveira foi  representante de um país sem tradição cinematográfica, tendo conseguido reconhecimento internacional com o filme "Amor de perdição", em 1978.

O diário brasileiro sublinha ainda que a gramática própria dos filmes do realizador não conquistou muitas vezes o público português, sendo detentor de um estilo erudito para nichos que obteve, contudo, boas críticas a nível internacional.



"Conhecido pelo seu estilo rigoroso e reflexivo, pelas cenas longas, com câmaras fixas, ausência de música e de cenas de sexo e violência, ao longo dos anos, Oliveira encantou críticos de vários países, mas espantou muitas vezes o público português", escreve a "Folha de São Paulo".

Já o "Estado de São Paulo" também traça o percurso de Manoel de Oliveira, frisando que nasceu no seio de uma família burguesa nortenha, tendo frequentado os Jesuítas. E que admitia que não era bom aluno e que preferia desporto, como o atletismo, até descobrir a sua paixão pela sétima arte.  



"Histórias sobre a longevidade de Manoel de Oliveira tornaram-se lendárias e reforçaram o mito do autor português. Em São Paulo, como convidado da Mostra de Cinema e beirando os 100 anos, Oliveira explicou seu rompimento com o produtor Paulo Branco dizendo que tinha que pensar no futuro (e Branco não estava dando conta de administrar muitos projetos", escreve o "Estadão".

O realizador português Manoel de Oliveira morreu esta quinta-feira. Tinha 106 anos.