Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Descascando a cebola. Clara Ferreira Alves recorda a passagem de Grass pelas SS nazis

  • 333

"À força ou não, pouco ou nada me importa a pertença de Grass às SS, acredito que foi arrastado. O que me importa é a sua hipocrisia e a sua arrogância, os seus prémios de cidadão superior, ao qual tudo o que é humano é estranho" escreve Clara Ferreira Alves sobre o escritor alemão

MARKUS SCHOLZ/AFP/Getty Images

Na sua autobiografia "Descascando a cebola", Günter Grass faz a surpreendente revelação de que pertenceu às Waffen SS, a tropa de elite de Hitler. Clara Ferreira Alves escreveu sobre esse passado de Grass na Revista do Expresso de 16 de setembro de 2006, crónica que agora republicamos.

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

PASSEI anos a entrevistar escritores. Um escritor adora ouvir-se a ele mesmo e tem quase sempre sobre o mundo opiniões grandiosas e revestidas a superioridade moral. Com raras excepções, qualquer escritor que tenha ganho o Prémio Nobel vê-se sempre a si mesmo como uma espécie de guardião da humanidade.

Günter Grass (nascido em 1927, na polaca cidade de Gdansk, antiga Danzig alemã), escritor, pintor, escultor, falou sempre assim, olhando a Alemanha e os alemães, sobretudo o passado nazi dos alemães, do alto da sua consciência cívica e da sua moralidade grandiosa. Na opinião dele, os alemães não se tinham limitado a andar atrás de Hitler como carneiros, não, os alemães tinham sido seduzidos por Hitler e tinham gostado de Hitler e deviam expiar essa culpa colectivamente.

Quando o Muro caiu em 1989, Grass ficou contente e celebratório mas, na sua opinião, os de Leste deviam ficar no Leste e o de Oeste deviam ficar no Oeste e os dois não se deviam misturar porque a reunificação das duas Alemanhas era um perigo e faria renascer o pior do nacionalismo alemão e da sua propensão para as aventuras militares e as invasões da Europa. Berlim continuaria dividida.

Como diria Woody Allen, que ficava com vontade de invadir a Polónia ao ouvir Wagner, Grass ficava com vontade de aniquilar a Alemanha quando ouvia o hino alemão. As duas Alemanhas em vez de uma impediriam a repetição do nazismo. A estupidez disto é colossal e lembro-me de que quando o ouvi dizer isto preto no branco numa das duas entrevistas que lhe fiz, pensei que a estupidez disto era colossal e pensei que não era o meu papel, de papel e lápis na mão e gravador aberto, dizer-lhe isto na cara. De resto, admiro alguns ensaios de Grass, acho "O Tambor" uma grande romance alemão, e tinha simpatia pela sua voz moral, a simplicidade destas propostas egocêntricas que os jornalistas tomam por boas verdades, babados que estão da admiração pelo escriba. Hoje, devaneios à parte, acho Grass um maçador, e um maçador que já escreveu os seus melhores livros, um maçador final. Um maçador que queria punir um povo inteiro no presente e empenhar as gerações futuras por causa de uma certa ideia sua. Os do Leste no Leste, mal vestidos e mal nutridos pelas sobras do comunismo, com Grass e os "best-sellers", e os do Oeste no Oeste, bem nutridos e bem vestidos, com Grass e os "best-sellers". Cada vez que vou a Berlim cidade aberta, penso na desumanidade de Grass e das suas teorias.

Pasmei quando ouvi esta nova confissão do escritor. Pertenceu às Waffen SS, a tropa de elite de Hitler, aos 17 anos, alistado à força. Era muito novo e não tem nada que se envergonhar disso mas a coisa "manchar-me-á para sempre". Só percebeu que estava nas SS "ao chegar a Dresden", estava-se em 44. Disse ele. A confissão veio acompanhada de uma operação de "marketing" colossal, tão colossal como a estupidez, destinada a vender uns bons milhares de exemplares da autobiografia "Descascando a Cebola".

Parece que só agora, ao cabo destes anos todos comendo fruta fresca, Grass se dispôs a descascar a cebola e chorar sobre as cascas. Aquela breve passagem forçada pelas forças armadas, que ninguém sabia que era uma passagem pelas SS, andou escondida nestes anos em que Grass interpelava o passado nazi da Alemanha. É evidente que 17 anos são 17 anos (e ninguém é completamente tolo aos 17 anos) e que o recrutamento foi obrigatório mas, se tanta inocência presidiu aos actos do adolescente Grass, por que é que nunca falou no assunto e pôs a cebola na mesa? Como pôde acusar os alemães de esconderem o seu passado nazi e a sua sedução hitleriana quando ele mesmo nunca contou a sua passagem pelas SS?

E assim, agora, desta maneira pública, orquestrada e com calendário de públicas apresentações e entrevistas e livro no prelo? Seria de esperar que a cebola fosse descascada em privado, porque um homem não chora, e que o segredo fosse divulgado com mais pudor, ou que a mancha fosse lavada no sossego e no silêncio da consciência.

Pode fazer-se "marketing" com tudo menos com um livro, respondeu Günter Grass aos acusadores. A quem pretende ele enganar mais uma vez com estas opiniões vazias e grandiosas? Um livro, hoje, é "marketing". E só é livro porque é "marketing" e Grass sabe isto tão bem como sabia do seu passado na força de assassinos de Hitler.

À força ou não, pouco ou nada me importa a pertença de Grass às SS, acredito que foi arrastado. O que me importa é a sua hipocrisia e a sua arrogância, os seus prémios de cidadão superior, ao qual tudo o que é humano é estranho. Numa entrevista à "Paris Review", e à pergunta sobre a predominância de animais na sua obra literária e estética, Grass respondeu que este mundo está povoado de seres humanos mas também há animais, pássaros, peixes e insectos. E que os humanos se extinguirão com um grande sopro venenoso, ao contrário dos dinossauros e dos seus ossos limpos nos museus. Eu, se fosse a ele, ficava com os animais, que não sabem descascar cebolas nem têm audiência cativa.