Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Deixar uma marca, algo que fica

  • 333

Murong Xuecun e Francisco José Viegas, num debate moderado por Yao Feng

Nem só dos néons que cobrem as fachadas dos casinos se faz o brilho de Macau. Na sua quarta edição, o festival Rota das Letras tem sido (e vai ser, até este domingo) lugar de diálogo entre autores lusófonos e de língua chinesa.

José Mário Silva *

Quanto maior a ameaça, maior o desafio. Parece ser este o lema de Murong Xuecun, um escritor chinês que não se coíbe de criticar publicamente o regime do seu país, apesar dos temidos mecanismos de censura e perseguição política aos opositores. Sendo um romancista cujos livros denunciam a corrupção e as desigualdades gritantes de uma sociedade que se diz igualitária, Murong foi avisado várias vezes por amigos para o risco elevadíssimo de vir a ser preso. "Curiosamente, muitos deles acabaram detidos e eu ainda não. Tenho tido sorte, mas sei que pode acontecer a qualquer momento." Parte da sorte poderá dever-se ao facto de Xuecon assinar uma coluna regular no "New York Times", o que o torna simultaneamente uma das vozes mais incómodas mas também uma das mais ouvidas no Ocidente. 

Convidado para a abertura do festival Rota das Letras, Murong, que chegou a ter quatro milhões de seguidores do seu blogue (antes de as autoridades o fecharem), defendeu que a liberdade é muito mais importante do que os direitos de autor. Por isso disponibilizou gratuitamente os seus livros na internet, de onde foram descarregados por mais de 100 milhões de leitores. Num registo bem-humorado, lembrou uma composição que fez na escola primária sobre uma cidade em que as pessoas tinham o nariz na barriga, o sol era azul e o céu verde. A nota que a professora lhe deu foi zero, mas dessa recusa da imaginação, e do que está para além do estrito realismo, nasceu uma vontade de contornar a rigidez do sistema que ainda hoje persiste. Sobre um tema tabu como o massacre da praça Tiananmen, por exemplo, há formas criativas de falar do que não pode ser falado. "Em vez de 4 de Junho, dizemos '35 de Maio'; 1989 passa a ser 'o ano anterior a 1990'; e referimo-nos a 'tratores' em vez de tanques."

Na sessão com Murong falou também Francisco José Viegas, escritor, editor e ex-secretário de Estado da Cultura. E houve outros encontros: João Tordo com Yan Ge, o angolano Ondjaki com Xi Chuan, Yao Feng com poetas portugueses de Macau. "A ideia é estabelecer contacto e diálogo entre duas culturas, duas línguas, duas formas de ver o mundo", sublinha Hélder Beja, vice-diretor do Rota das Letras. Na quarta edição do festival literário, organizado pelo jornal macaense "Ponto Final", houve uma aposta forte em autores lusófonos com obra feita no campo da literatura infantojuvenil (como é o caso de Maria do Rosário Pedreira, David Machado e Ondjaki). Uma aposta ganha, segundo Hélder Beja: "As visitas às escolas, que sempre foram uma parte importante da programação, correram particularmente bem." Como de resto o Expresso pôde verificar numa sessão participadíssima na Escola Portuguesa de Macau, no fim da qual os braços das largas dezenas de alunos do ensino básico que enchiam o auditório não pararam de se agitar, durante uma sessão de perguntas a Maria do Rosário Pedreira e David Machado que durou muito mais do que o previsto.

Gabriel, o Pensador deu espetáculo na Cotai Arena do casino Venetian

Gabriel, o Pensador deu espetáculo na Cotai Arena do casino Venetian

Deixar uma marca, algo que fica Levar os autores às escolas faz parte de um plano a longo prazo. "Nas sessões de final de tarde, a maior parte dos espectadores tem uma média de idades algo elevada." É raro verem-se jovens na casa dos vinte ou trinta anos nas sessões. "Por isso, não precisamos só de renovar o público, mas também de criá-lo de raiz", explica Hélder Beja, não escondendo que se trata de uma missão difícil numa cidade turística como Macau, em que mais de 95% da atividade económica depende da indústria do jogo e em que a atividade cultural é bastante limitada. No campo da literatura, escasseiam os novos autores e há uma única livraria que vende livros em língua portuguesa. Conscientes deste cenário, os organizadores decidiram desde a primeira hora complementar os debates com escritores e as leituras de poesia com uma abertura a outras artes, como o cinema, a música e as exposições.

Na edição deste ano, o principal concerto decorreu na Cotai Arena do Venetian, o maior casino do mundo, construído numa faixa de terra conquistada ao mar e que passou a unir as ilhas de Taipa e Coloane. Em palco estiveram uma banda de heavy metal de Macau (os Blademark), o cantor brasileiro Gabriel, o Pensador (que entusiasmou a plateia com vários dos seus maiores êxitos, além de um inspirado momento de free style), e os LMF, um grupo de Hong Kong que arrasta sempre atrás de si uma legião de seguidores. Noutro registo, o maestro António Victorino d'Almeida ofereceu a Macau uma improvisação ao piano com perto de uma hora de duração, no palco do belíssimo teatro D. Pedro V, classificado como património mundial pela UNESCO, e uma revisitação da música que compôs para cinema e teatro, num concerto no Centro Cultural de Macau que contou com a participação, a quatro mãos, da pianista Madalena Garcia Reis.

A maioria dos debates e encontros com escritores decorrem no Antigo Tribunal, onde também podem ser vistas as exposições de João Fazenda, ilustrador português que trouxe trabalhos que evocam três figuras centrais da cultura portuguesa (Camões, Fernando Pessoa e Amália Rodrigues), Xyza Bacani (uma filipina que foi trabalhar para Hong Kong como empregada doméstica, mas saiu para as ruas com uma máquina fotográfica e tornou-se uma excecional fotógrafa urbana, distinguida com uma bolsa da Magnum Foundation), Summer Ha, Ge Zhen e Mike Ao Ieong. Gerido pelo Instituto Cultural de Macau, o edifício do Antigo Tribunal revelou-se "perfeito para um acontecimento com estas características", diz Hélder Beja. Para a próxima edição, que já está a ser planeada, a ideia é continuar no mesmo sítio. "Esperemos que seja possível. Existe o projeto de transformar isto na biblioteca central de Macau. Mas há indícios de que a ideia vai ser repensada."

Um dos aspetos do Rota das Letras que mais orgulha os seus organizadores é a edição anual de um livro com os textos escritos sobre a cidade por vários dos escritores participantes, depois da sua passagem pelo festival. "Tem sido uma forma de registar Macau na literatura contemporânea, através de alguns dos seus melhores criadores", assinala Hélder Beja. "O grande objetivo é ficar com um registo, deixar uma marca, algo que fica." Os volumes incluem ainda os vencedores de um concurso de contos que abrange três línguas: português, inglês e chinês. Até agora, foram publicados os livros correspondentes às duas primeiras edições - "Não há amor como o primeiro" (2012) e "Dois Dará" (2013) - estando para breve o lançamento do terceiro: "Regra de Três" (2014).

O festival deste ano continua até este domingo, com performances, apresentações de livros, mais debates (incluindo um sobre "Escritores Gourmet: Cozinha Macaense e Portuguesa em Macau") e sessões de cinema, com filmes de Miguel Costa e João Botelho. A programação pode ser consultada AQUI.

 

* o Expresso viajou a convite da organização do festival Rota das Letras