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Com uma pequena ajuda dos meus amigos

Esta é a história de um homem que podia ter ficado escondido na obscuridade de um pub de Sheffield, não fosse o talento ter-lhe mudado o destino. Que conheceu o sucesso e deixou-se cair, levado pelo álcool e as drogas, para voltar a ressuscitar como um ícone eterno da música. Foi com os Beatles que tropeçou, foi com os Beatles que se reinventou.

João Santos Duarte e André de Atayde

Um é um simples homem do gás de Sheffield, que leva uma vida tranquila com mulher e netos e vai gastar parte do ordenado semanal em cervejas num pub de Crookes, um dos subúrbios da cidade. O outro é um cantor de voz rouca inconfundível, que marcou a história do soul e do rock. Se a teoria dos universos paralelos estiver certa, então existem, no mínimo, dois Joe Cocker. Por sorte, se está a ler este texto é porque também habita na segunda hipótese quântica.

Corria o início dos loucos anos 60 e John Robert Cocker trabalhava na empresa East Midlands Gas Board. Ainda não tinha 20 anos e já fazia instalações e reparações. Mas a paixão pela música já andava por ali. Cantou pela primeira vez em público aos 12 anos, quando subiu ao palco durante um concerto de uma banda do irmão mais velho, que misturava jazz e soul. Em 1960 - já John trabalhava numa companhia do gás - fundou o primeiro grupo com três amigos, os "The Cavaliers", mas foi só a ele que a editora Decca quis na altura de gravar. Viria a adotar o "Joe", como era conhecido desde criança.

Tirou uma licença sem vencimento de seis meses e gravou uma versão de "I'll cry instead", dos Beatles. A música até foi bastante promovida para a época e Cocker foi apresentado como um jovem músico talentoso, enaltecendo as suas raízes da classe operária. Foi um flop. Voltou ao emprego na companhia de gás.

E é aqui que o Universo se bifurca. Se tivesse desistido ali, teria sido provavelmente mais um velhote simpático ao balcão de um pub de Crookes. Mas o talento não o deixou. Em vez disso, ganhou a eternidade.

Movimentos pendulares

Cocker não desistiu. Fundou mais um grupo, depois mais outro, a "Grease Band", com um conhecido de há alguns anos, o teclista Chris Staiton, o guitarrista Henry McCullough e Alan Spenner. Andam perdidos a tocar covers pelos pubs do norte de Inglaterra, até que um produtor os ouve e os convence a mudarem-se para Londres. Ironicamente, foi uma cover dos Beatles - que anteriormente se tinha revelado uma estratégia fracassada - que acaba por catapultar Joe Cocker para o estrelato.

"With a Little Help from My Friends" é gravada em 1968. Cocker e os restantes elementos da Grease Band agarram na balada dos meninos bonitos de Liverpool e dão-lhe a volta, transformam-lhe completamente o arranjo com uma guitarra elétrica e conferem-lhe mais rock e soul. A canção chega a número um do top britânico, onde fica durante 13 semanas. No ano seguinte, um Cocker de cabelos compridos desgrenhados e patilhas que lhe descem pelos maxilares leva-a a Woodstock, com os outros elementos da banda, que chegam de helicóptero porque entretanto a multidão já era tanta que não havia outra forma de passar até ao palco. Além da voz, os movimentos pendulares com o tronco e o bambolear dos braços (para os mais atentos, vê-se ali já um percursor do "air guitar") tornam a atuação lendária.

O sucesso leva a uma tour nos Estados Unidos, mas também aos excessos. No início dos anos 70, já está mergulhado no álcool e nas drogas. Em 1972, chega a ser alvo de chacota quando se esquece das letras da música. Quando em 76 atua no programa "Saturday Night Live", perante milhões de americanos, o ator John Belushi faz-lhe uma paródia lado a lado, imitando-o e exacerbando os tiques e o comportamento em palco.

Os amargos anos  70 apenas viriam a ser pontuados por um único éxito, "You are so beautiful", editada em 1975. Curiosamente, foi com a ajuda do cinema que a carreira voltaria a ser catapultada para o estrelato. 

Que nove semanas e meia  Zack Maio é um jovem solitário que ingressa na escola naval para se tornar um piloto aviador, com um instrutor que lhe faz a vida negra durante 13 semanas, e que acaba por se apaixonar por uma das raparigas locais que trabalha numa fábrica. O filme, "Oficial e Cavalheiro", de 1982, revelou um Richard Gere que passaria a despertar paixões em todo o mundo, mas deixou também uma música na cabeça de milhões de pessoas. "Up where we belong", um dueto gravado por Joe Cocker e Jennifer Warnes, cujos acordes acompanham as cenas marcantes do filme, não só arrebatou corações como ganhou tudo o que havia para ganhar: um grammy, um globo de ouro, um Bafta e o Óscar desse ano para melhor tema original.

Fast forward até 1986. Em "Nove semanas e meia", Kim Basinger, na pele de Elizabeth, liga uma aparelhagem e coloca lá dentro um CD. Aos primeiros acordes de "You can leave your hat on", a loura surge à janela, por trás de uma persiana, e ensaia um striptease, aqui e ali desajeitado, para John, personagem interpretada por Mickey Rourke, que está dentro da sala. O  drama erótico viria a ser um dos marcos dos anos 80, e a música um dos maiores sucessos da carreira de Joe Cocker (curiosamente é mais uma vez uma versão, neste caso de uma música escrita e interpretada por Randy Newman, em 1972).

Depois disso viria a gravar mais 12 discos (no total de 23 álbuns de estúdio editados em toda a carreira), o último dos quais em 2012, "Fire it up". Passou várias vezes por Portugal, uma delas em 1991, no estádio da Alvalade, e a última em 2011, para um concerto no Algarve.

Ao contrário do seu alter-ego universal, que nunca saiu de Sheffield e que aos 70 anos já estaria reformado da companhia de gás onde trabalhou toda a vida, o "nosso" Joe Cocker mudou-se para o Colorado, nos Estados Unidos, onde vivia desde o final dos anos 70 com a mulher, americana. Em entrevista concedida ao Expresso há quase 30 anos, disse que após a sua morte gostaria que as pessoas dissessem "ele ainda aqui está". As canções asseguram que sim.