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Cinema em tempo de guerra

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"Memories of Stone" é um filme do curdo iraquiano Shakwat Amin Torki

Filme sobre o Curdistão em foco na 35ª edição do Fantasporto.

Uma das tendências marcantes desta 35ª edição do Fantasporto é o ressurgimento do documentário, não em versão clássica, mas misturando reportagem e ficção.

Já tínhamos tido nos primeiros dias do festival "Hassan's Way" (de que falei numa crónica anterior) e agora foi a vez de "Memories of Stone" do curdo iraquiano Shakwat Amin Torki. É um filme sobre um filme, ou seja a odisseia de dois amigos, o produtor e o realizador, que tentam rodar uma fita sobre a revolta curda contra Saddam Hussein.

Nada mais a propósito, quando nos lembramos do estado em que estão Síria e Iraque, devastados pela guerra civil e a braços com a barbaridade do Daesh (Estado Islâmico).

O filme ajuda-nos a perceber algumas coisas como, por exemplo, que não basta afastar um ditador e conquistar a autonomia do Curdistão. A sociedade continua patriarcal, como é ilustrado pelo poder que o primo e o tio da rapariga que quer ser protagonista do filme continuam a exercer sobre ela.

O dinheiro é pouco, os meios são escassos e é preciso fazer de tudo para realizar o filme, desde entrar em todo tipo de acordos, até fazer contrabando pela fronteira com o Irão.

Um filme sobre o que é o próprio cinema, como este se faz, quais são os seus limites, que foi um dos pontos altos desta edição do Fantasporto.

Com o sol finalmente a voltar a brilhar sobre a Invicta, uma referência a um filme grego (nada mais atual), "Norway" de Yannis Veslemmes em que, no submundo ateniense, um vampiro com alguma ética entende que não deve morder nem dar a vida eterna a quem não o mereça. Metafórico, quando se pensa na troika...

"Let us Prey" de Brian O'Malley.

"Let us Prey" de Brian O'Malley.

Reencontro com mais um actor da série "Guerra nos Tronos", neste caso Liam Cunningham, que intepreta "sir" Bravos Seaworth. No filme irlandês "Let us Prey" faz de enviado da morte que vem a uma aldeia aparentemente pacata recolher as almas dos que, secretamente, cometeram crimes terríveis. Fantástico do bom, talvez com uma pontinha de sangue sintético a mais numa fita de Brian O'Malley.

Igualmente interessante uma curta-metragem cubana sobre os riscos de criar monstros para combater os invasores da ilha: "Habana" de Edouard Salier.

"Blood Moon" de Jeremy Wooding

"Blood Moon" de Jeremy Wooding

Para terminar a noite, nada melhor que uma mistura de coboiada e lobisomens (afinal na mitologia índia norte-americana não faltam seres aparentados com os monstros do imaginário europeu): "Blood Moon" de Jeremy Wooding (EUA).

Estão lá todos os ingredientes: o xerife e a namorada, a diligência, o pistoleiro solitário, dois irmãos assaltantes de bancos, a dona do "saloon" e muito tiro contra um monstro que só uma bala de prata (que não têm mas vão ter de improvisar) pode matar. Exactamente o género de filme que nunca ganhará um Oscar mas que se espera ver num Fantasporto.