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Cérebro. A mais poderosa arma à face da Terra

No livro "O que é que os Portugueses têm na Cabeça", Marisa Moura encontra-nos vícios, defeitos... e algumas virtudes. Diz que não é a troika, nem o FMI, nem a Comissão Europeia que nos irão salvar, mas sim o cérebro que habita a cabeça de cada um de nós.

A madrinha deste livro da jornalista Marisa Moura foi a greve geral de 24 de novembro de 2010, a primeira a mobilizar as duas centrais sindicais para a mesma luta, ao fim de 22 anos. Nessa emblemática jornada da grande greve, a autora entrou na editora A Esfera dos Livros para combinar os detalhes sobre um livro de gestão.

Mas a greve deu-lhe a volta à (sua) cabeça e às dos restantes presentes na reunião, e em vez de um tradicional ou provocador livro de gestão surgiu este, onde Marisa começa por tentar perceber o que é que os 10,5 milhões de portugueses residentes, e também os outros, os que vivem espalhados pelo mundo, têm dentro do cérebro que habita o interior das suas/nossas cabeças.

Ao longo de 33 capítulos organizados em nove partes, Marisa Moura fornece dados e coloca questões. Podemos ou não concordar com muitas das elocubrações que faz, mas há um dado que é evidente: Marisa Moura foi disciplinada e proativa nos TPC [trabalhos para casa...] que fez para este livro. Durante três anos recolheu dados, fez entrevistas e leu uma razoável bilbiografia, recorrendo aos 'clássicos' em questões de identidade. Eduardo Lourenço e Antero de Quental são citados logo no ínício desta viagem em 350 páginas e Antero, esse grande pensador da geração de 70 do século XIX, precoce e tragicamente desaparecido, merece uma dedicatória especial. Ele, o homem que tão belos sonetos nos deixou, e o capitão de Abril Salgueiro Maia.

Passos Coelho é pontual

"Ancorámo-nos nos estereótipos para melhor transmitir aquilo que queríamos" conta ao Expresso Marisa Moura, 38 anos, representante de uma geração em que muitos, por percalços laborais, só se sentem plenamente adultos aos 40. Por isso, pelo cada vez maior atraso com que muitos entram na vida adulta, pela pontualidade ser um "fenómeno tão raro neste país que, quando se observa, gera grande mediatismo", escreve que no dia 17 de março de 2011, no tempo em que Passos Coelho ainda era líder da oposição, houve órgãos de comunicação que destacaram "Passos Coelho já está reunido com Cavaco Silva. Chegou sozinho e à hora certa".

Os atrasos são um tique irritante de muitos portugueses; nisso Marisa tem razão. Mas é cáustica na apreciação que faz sobre outros tiques; demasiado implacável com um relato sobre a inveja que uma desempregada diz ter de quem trabalha...

Tem razão na sua determinação em não dar respostas à pergunta que serve de título ao seu livro, esperando que cada um dos seus leitores encontre a sua própria resposta. E lembra: "O grande gatilho para eu fazer este livro foi um estudo da Organização Mundial de Saúde sobre saúde mental, que analisou 28 países em 2010. E desses 28 só os Estados Unidos é que têm mais problemas de saúde mental do que nós. Na Europa só a Ucrânia é que se aproxima um pouco da nossa situação. Somos os maiores consumidores europeus de comprimidos para a a depressão, ansiedade e insónia". Um pesadelo, um motivo de reflexão, ou não tivesse o primeiro português que ganhou o Nobel [Egas Moniz] sido galardoado pela técnica de lobotomia cerebral, que também foi popular nos EUA.

O livro, que por vezes nos desmoraliza com a crueza de uma visão que valoriza mais os defeitos do que as qualidades, termina com uma frase de esperança: "Todos nós, sem exceção, temos um cérebro dotado de dois hemisférios - a mais poderosa arma existente à face da Terra".