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Critica de música de 30 de Maio a 4 de Junho

Luísa Amaral

Pela estrada fora 

Tó Trips Eléctrico ao crepúsculo em "vi-os desaparecer na noite" e acústico ao entardecer com "Guitarra 66".

Talvez tenha havido um tempo em que Tó Trips fechava os olhos e via os Amen Sacristi no Rock Rendez-Vous, via Thurston Moore no Campo Pequeno a apontar a T-shirt que tinha vestida e a dizer "fuckin' Lulu Blind. Right on", via os Lulu no Johnny Guitar, via os Hi-Fi Jô no Sudoeste. Esses seriam os sonhos de 30 anos agarrado a uma guitarra eléctrica, a viver o rock, a descarregar energia, a desenhar cartazes, a chamar o pessoal para os ensaios, a carregar amplificadores e a delirar com "grandes malhas".

Até que um dia, ao assobiar a melodia dos 'Verdes Anos' de Carlos Paredes, descobriu que "se o pitch for mais grave, mais lento, aquilo parece um western". Depois fechou os olhos, viu a ilha de São Tomé e lembrou-se da "Revolta na Bounty". "A ilha perdida que não vem no mapa, o lado tropical, misterioso." Em 2002 foi pela primeira vez sozinho para estúdio e gravou o seu primeiro disco a solo, "Guitars From Nothing", que assinou Dead Combo. Tó Trips passava a sonhar a noite, encontrava o contrabaixista Pedro Gonçalves, tornava-se personagem de banda desenhada, o cangalheiro de cartola numa coboiada no Bairro Alto, e a sua guitarra tentava os blues, Marc Ribot, Morricone, rumbas, jazz... Após mais três capítulos da BD nocturna Dead Combo, Tó Trips acaba de nos revelar, simultaneamente, dois instantâneos das suas viagens musicais: o crepúsculo de "Vi-os Desaparecer na Noite", uma banda sonora em guitarra eléctrica para leituras de "On The Road" de Jack Kerouac, e o entardecer de "Guitarra 66", uma viagem a solo, com guitarra clássica, por paragens como a Route 66, Espanha, Lisboa, Marraquexe, Nova Iorque, a Ilha do Fogo, o México ou Esmoriz.

O primeiro passo de Tó Trips para fora do mundo do rock aconteceu em 1996 quando fez parte da orquestra de 100 guitarras de Rhys Chatham no Coliseu de Lisboa, e ficou durante muito tempo a explorar a afinação em Lá. Depois veio o acaso. "Um dia estava na esplanada da Graça e ouvi um piano. Era o Keith Jarrett, 'The Melody At Night, With You'. Fiquei um grande fã. Comecei a ouvir música africana, Cesária Évora, Chet Baker... O problema é que quando comprava um disco, não conseguia estar sentado a ouvi-lo. Não sou um gajo de técnica. Herdei isso da cena punk. Sou mais pelo som, pelas melodias, pelas harmonias, pelos tempos." Tudo mudou com um disco de Marc Ribot ("Plays Solo Guitar Works of Frantz Casseus"). "Consegui estar no sofá a ouvir, a ver o que ele me dizia. Agora ouço bastante malta da guitarra, tanto flamenca como clássica. Gosto de analisar. Muito graças à minha mulher, que fez um mestrado em ecologia acústica. Com ela vou conhecendo pessoas que têm abordagens da música e do som completamente diferentes, e tudo isso é informação e aprendizagem."

Com as novas músicas vêm, por vezes, novos instrumentos. "Não é que os saiba tocar, é pelo som. Por exemplo, no 'Vi-os Desaparecer...' uso uma pandeireta com um espanta-espíritos contra as cordas da guitarra. Outras vezes encosto caixinhas de música à caixa da guitarra. É um bocado aquele lado fredfrithiano de experimentar coisas. Noutro dia a minha mulher mostrou-me uma coisa fabulosa: no "Elephant" do Gus Van Sant, há um aluno a andar nos corredores da escola e a banda sonora é o som de uma floresta. Resulta, cria uma tensão. Às vezes o som passa-te mais do que as notas."

É um pouco esse conceito ambiental que Tó explora em "Vi-os Desaparecer...", a gravação de 28 minutos de uma experiência que desde 2007 repete com o poeta Tiago Gomes. Trips toca enquanto Tiago lê excertos traduzidos de "On The Road". Para esta gravação convidaram Paulo Gouveia (bateria), Francesco Valente (contrabaixo), José Lencastre (saxofone), Luís Vicente (trompete) e Mafalda Nascimento (violoncelo), o que torna as composições como que uma versão rock experimental de Dead Combo. São as várias Américas de quem sempre viveu o rock, mas tem uma ideia de jazz, blues e de fronteira mexicana e consegue localizá-la nos trastes da guitarra.

Gravado em Fevereiro, oito meses depois de "Guitarra 66", retoma dois temas deste, 'Ponzo' e 'Pinacoolata' (que muda de nome para 'Montana Slim' e abranda o tempo). "Guitarra 66" tem apenas mais 10 minutos, mas é uma obra completamente diferente, acabada. Aqui não é a imaginação a deambular atrás de Kerouac, mas uma geografia íntima que se revela com uma sensibilidade comovente. Há duas coisas que definem este disco. Uma é factual, a ida para Esmoriz com a mulher e a guitarra acústica, a outra disse-a na entrevista: "Gosto que a música me faça viajar, que me passe imagens, que tenha tempo." Estão lá as viagens em família nas fotografias do Cairo, de Nova Iorque, de S. Tomé e de Marrocos, está lá a localização das músicas que o habitam, e, gravado na face do CD, o seu percurso transformado numa imaginário mapa-múndi. Mas a chave está na naturalidade com que a música se desenvolve, numa técnica que não se impõe. Logo, não é Tó Trips versão 'acústico MTV'. Também não é como se pela primeira vez a persona Tó Trips deixasse de fazer sentido. É mais simples: "Quando um gajo acredita em qualquer coisa, consegue chegar lá. Eu mudei muito, mas tenho coisas que vêm de trás. Se fazes uma música ela deve ter a ver com o teu dia-a-dia. Que não destoe. Que tocar guitarra seja como tomar o pequeno-almoço. Isto é o que toco em casa. Toco todos os dias e gravo todos os dias. Tenho mais coisas, mas completamente diferentes. Noise, minimal, ambiente."

À naturalidade da música juntou-se o tema das viagens. "Desde miúdo gosto de olhar para a linha do horizonte. Às vezes, quando estou mal, penso que há sempre um sítio para onde ir. Um bocado de esperança. E os sítios têm a ver com isso. Marrocos, tão perto de nós, tem aquelas grandes paisagens, aquele lado exótico, tem uma mãe no chat com o filho que está em França e o contador de histórias que vem do deserto com as serpentes. Apanhei aqui um bocado disso tudo."

E, para compor a singularidade do disco, uma comovente partilha com Raquel Castro. "É dedicado à minha mulher. É uma coisa nobre. Sou um gajo romântico."

Tó trabalhou 11 anos em publicidade. Despediu-se para viver da guitarra e de trabalhos gráficos relacionados com a música. Está feliz. "Penso na eternidade. O que um gajo deixa aqui não são anúncios de publicidade. Os meus discos, a minha filha que tem 8 anos. Gostava de deixar algumas coisas cá quando fosse embora." Rui Tentúgal

Tó Trips

Mbari

Tiago Gomes & Tó Trips

Optimus/Compact

Hell

International Dee Jay Gigolo/Última

Tem queda para a arte conceptual. Por isso, o título não surpreende: "Obra do Diabo". O qual - pelos vistos - aprecia o espaço, e logo numa altura em que o comum mortal o despreza. Sobretudo para melhor expor o seu ideário. Daí que o terceiro álbum do dj germânico que lhe veste a pele seja duplo. E, porque tudo é feito de luz e de sombra, se divida em "Noite" e "Dia". Que a primeira metade comece ao som de Bryan Ferry apenas serve de garantia de que só quem sabe do ofício entra numa acção que tem na palavra 'rigor' a sua trave-mestra. E não será por outra razão que uma electrónica-pura-e-dura demasiado exausta para ainda guardar segredos revela nova profundidade de campo na velha confrontação Detroit/Chicago-Kraftwerk/DAF. Que a expressão tecnológica e a natureza robótica do mergulho nas trevas se atenuem na metade diurna para dar lugar a um registo contemplativo da paisagem urbana - onde vozes etéreas, guitarras acústicas e mantos orquestrais se enleiam com electrónica em deriva cósmica - mais não fará que alargar o campo de visão de um notável estudo do tempo numa realidade estética que por ele não nutre grande apreço. Chamar-lhe divino talvez não seja muito apropriado. Ricardo Saló

Flat Earth Society

Crammed/Megamúsica

Muito dentro do espírito da coisa, convém esclarecer logo que "Cheer Me, Perverts!" é um anagrama do nome de Peter Vermeersch, líder da trupe belga de loucos com um instrumento musical nas mãos que, em determinadas condições de temperatura e pressão, responde pela designação de Flat Earth Society (eu, pelo menos, dou de barato que se trata, de facto, de um anagrama mas suponho que eles até levariam a mal que alguém se desse ao trabalho de ir verificar). Na capa do CD está uma dezena e meia de figurões brandindo sopros vários (sax, trompete, euphonium, trombone, clarinete, tuba, flauta) mas há que acrescentar também guitarras, teclados, acordeão e bateria e, para fornecer um GPS estético mínimo, sugerir a audição dos anteriores "Isms" (2004) e "Psychoscout" (2006). Ainda que com toda essa preparação, o impacto produzido pelo que apenas se pode caracterizar como a detonação em directo de uma big band tal como Duke Ellington (ou mesmo Sun Ra) nunca seriam capazes de a imaginar - membros decepados de Bernard Herrmann e Kurt Weill volteiam pelos ares, as palavras 'erupção' e 'cavalgada' escrevem-se sozinhas no teclado - poderá, sem dúvida, provocar danos sérios, irreparáveis e imensamente desejáveis. João Lisboa

Camera Obscura

4AD/Popstock

Algo existe em mim que, instantaneamente, me conduz a segregar hormonas de imenso afecto por quem, num único álbum, consegue incluir dois tão improváveis farrapos de poesia pop como "Were my pupils dilated? Could you tell that I liked you?" e "You kissed me on the forehead, now his kisses give me concussion". E, se isso - como acontece em "My Maudlin Career" - vier encadernado num dos raríssimos géneros de revisionismo estético que, contra todas as probabilidades, soa antigo, sim, mas não datado, então, trata-se, irremediavelmente, de um daqueles casos cientificamente designados como 'tiro e queda'. O género em causa define-se por agregação de nomes próprios: Phil Spector, Ronettes, Tamla Motown, matizados por condimentos mais e menos contemporâneos como Beach Boys, Velvets ou Jesus & Mary Chain. E um ou outro sopro de kitsch-Nashville. Três anos após o suave desmaio de "Let's Get Out of This Country", os gloriosamente melancólicos Camera Obscura continuam, como devem, requintadamente derivativos ou, talvez, se calhar, apenas classicistas. Não é para todos. Mas eles podem. J.L.

Edu Lobo/Chico Buarque

Biscoito Fino/JBJ

Não terá sido a primeira nem a última vez que uma tenda de circo se armou em torno de um poema. Mas foi das poucas em que, a pretexto de olhar nos olhos o Criador, o Homem não se ajoelhou. É que - há na vida que aceitá-lo - nem sempre o degredo se pinta com a cor do pecado. Por isso, para que subam ao palco, que se expulsem do paraíso os actores - é o melhor destino dos que desejam em segredo. "O Grande Circo Místico", pela mão de Naum Alves de Souza e do coreógrafo português Carlos Trincheiras, ergueu-se em 1982. A sua banda-sonora garantiu-lhe a eternidade. Esta terceira versão em CD difere da de 1993 (Velas) mas é idêntica à de 2002 (Dubas): cá estão as canções feitas de luz e sombra, as vagas valsas, maltrapilhas marchas, ornatos oratórios. E a bela leveza das bailarinas, o pranto dos palhaços, o indecoro das coristas. Com Milton, Gal, Gil ou Simone nas vozes dos anjos, e uma barca de insuperáveis instrumentistas (António Adolfo, Nelson Ângelo, Dorothy Ashby) empurrada pelo sopro de uma big band e embalada por uma ondulante orquestra de cordas. Na plateia sorriem Weill, Richard Strauss, Bernstein, Sondheim, Rota, Jobim e Miles. No momento em que explodiu o BRock, não houve melhor túmulo para a MPB. Obrigatório. João Santos

A boa vida

Uma hora de mergulho num genuíno banho de espuma.

Portugal é, de novo, a 'terra do fado'. E será uma questão de elementar justiça reconhecer como o ressurgimento da velha forma de expressão pela mão de uma plêiade de novos estilistas lhe vale, por fim, um estatuto situado muito acima do vetusto bilhete postal para projecção de uma imagem fictícia além-fronteiras ou para desfrute in loco do turista a braços com a desconstrução de uma sardinha. Mas uma questão - não menos antiga - subsiste: sem que o fado permaneça imbuído do imaginário da 'pequena tragédia de viela', onde pára a banda sonora da 'boa vida'? E não será de admirar se a pergunta for repetida no final da audição do álbum de estreia do projecto de Pedro Janela. Mesmo por quem considere ter passado a última hora mergulhado num genuíno banho de espuma. Será porque a condição de melómano não é uma pele que se dispa com facilidade para permitir a emergência de uma personalidade criativa imune ao ideário alheio. Ou porque o triunfo de uma noção de lazer que tem no coma alcoólico a sua ideia de redenção também não facilita muito as coisas.

Seja qual for a razão, "Casino Royal" ergue-se como o pastiche do triângulo easy listening-soundtrack-library da Londres dos swinging sixties que se adivinha na escolha do episódio atípico da série "James Bond" para nome da operação (devendo notar-se que, por uma vez, soaria a falso cantar na língua-mãe, já que de reinventar uma realidade estética de além-Mancha se trata). E se não se insinua nem se limita a existir mas se ergue mesmo é porque não terá brotado de terras lusas outra manifestação de fascínio por uma imagem idealizada do prazer mundano dotada de rigor para medir ombros com o respectivo paradigma musical. É verdade que Marisa Mena não anda longe da cópia perfeita de Shirley Bassey e que, por vezes, parece cirandar pelo cenário de "Get Carter" às ordens de Roy Budd. Mas não serão muitos os salteadores britânicos da arca do prazer perdido aos quais se tenha ficado a dever o engenho de Janela no cruzamento de substância narrativa, leveza de expressão, invenção melódica, luxúria orquestral e atitude lúdica num quadro estético regido pela especificidade do novo milénio. Ricardo Saló

Casino Royal

Mastermix/Massala

R. Jacobs, Akademie für Alte Musik Berlin,

Rias Kammerchor

2 CD Harmonia Mundi

Telemann tinha 35 anos quando estreou esta "Paixão" em Frankfurt am Main, a cidade imperial onde exerceu o cargo de Kapellmeister na Barfüsserkirche. Autodidacta em música e génio precoce, Telemann estreou a sua primeira ópera aos 12 anos de idade, compondo com infatigável labor artístico e como um poliglota musical, 1300 cantatas, mais de 40 "Paixões", música de câmara em profusão e centenas de suites e concertos. Estudioso do universo de Corelli, Lully e Campra, o músico nascido em Magdeburgo convocou todo o arsenal composicional do barroco festivo para a "Paixão de Brockes", inspirando-se num dos textos mais impressionantes sobre a Paixão de Cristo da autoria de Barthold Heinrich Brockes. A obra em verso foi publicada em Hamburgo em 1712 e a sua popularidade foi tal que, além de Telemann, ela serviu ainda a música de compositores como Handel, Keiser, Mattheson e Bach. Algumas das "Paixões" de Telemann foram classificadas como 'óperas sacras' porém, como o libreto desta foi o poema de Brockes e não um texto dos Evangelhos, a peça foi destinada logo à partida a uma sala de concerto profano e não a uma igreja. Com uma direcção cheia de panache, René Jacobs suscita uma orgia de ritmos e de cores no agrupamento germânico, no coro da RIAS e nos seis solistas onde se destacam sobretudo a eloquência dos tenores Donát Havár e Daniel Behle bem como a do barítono Johannes Weisser, intérpretes que conseguem transmitir muitas das nuances do texto. O maestro belga penetra numa obra de contrastes vivos que, segundo a intenção de Telemann, pretendeu suscitar "paixões violentas" e causar perturbação profunda no ouvinte. Pela profusão melódica, variedade e riqueza instrumental, trata-se aqui do inultrapassável mas também do inigualável. Ana Rocha

Kenny Werner/Jens Sondergaard

Stunt/Multidisc

Kenny Werner é um bom pianista que desde a década de 80 singra no jazz. Conhecido pela sua sensibilidade, é um instrumentista completo, da escola Bill Evans, que forjou um estilo que o tem projectado para colaborações com grandes músicos como Joe Lovano, Toots Thielemans, Lee Konitz, Chris Potter, Roseanna Vitro e muitos mais. Para além de dirigir um trio, Werner é também conhecido como um excelente pedagogo tendo ocupado lugares na New School e na New York University. Recorrentemente viaja à Europa e são conhecidas as suas colaborações com músicos europeus, das quais a mais famosa é a associação em duo a Toots Thielemans. Confessamos que o dinamarquês Jens Sondergaard é um novo nome para nós, mas pela invenção e forma que revela neste duo com Werner é um músico altamente competente. O projecto a que os dois músicos se propõem é tocar baladas, e assinam um disco bem interessante. Interessante pela emoção e sentimento que injectam em belas canções do cancioneiro americano sem nenhumas tentativas de desconstrução como está muito em moda. O piano de Kenny Werner, cristalino e harmonioso, constrói uma almofada musical na qual Sondergaard no saxofone alto, clarinete em 'Lover Man' e saxofone barítono em 'But Beautiful', encadeia um fraseado calmo e lírico que alcança enorme beleza. É evidente que muitos poderiam reclamar mais acção, mas a beleza deste quase lied instrumental, não nos deixa indiferentes. Raul Vaz Bernardo