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Critica de cinema de 17 a 23 de Abril de 2010

Luísa Amaral(www.expresso.pt)

Eterno retorno 

O último volume da trilogia de elia suleiman sobre a palestina contemporânea

Sete anos depois da última longa-metragem ("Intervenção Divina"), Elia Suleiman regressa ao território onde nos havia deixado - suspensos - em 2002: a Palestina, território político do conflito israelo-árabe, mas, também, território estético do olhar burlesco que tem vindo a caracterizar o seu cinema. Nada que se estranhe: afinal, "O Tempo que Resta" representa o último segmento de uma trilogia tragicómica sobre a complexa posição do povo palestiniano na contemporaneidade, que teve em "Chronicle of a Disappearance" e em "Intervenção Divina" os seus dois restantes momentos. Mas, aqui, o projecto conquista um novo (porque mais dilatado) escopo histórico e um novo (porque mais ambicioso) fôlego narrativo: trata-se, em suma, de ilustrar a história da ocupação israelita da Palestina desde 1948 até hoje, cruzando-a sistematicamente com a odisseia da família do próprio Suleiman (e é na conjugação desses dois olhares, o político e o pessoal, que volta a residir uma das grandes forças do cinema de Suleiman). De facto, após um belo prólogo em estilo apocalíptico que se limita a introduzir o tom do filme ("onde estou eu?", pergunta então o taxista que protagoniza a sequência), aquilo que temos é uma sucessão de flashbacks, encadeados em progressão cronológica linear, que nos dão a ver a juventude do pai do cineasta e os seus actos de resistência em 1948; a infância de Suleiman e a sua difícil educação numa escola israelita; a adolescência do cineasta e a sua silenciosa tomada de consciência da situação da Palestina ocupada. Depois, o ciclo narrativo encerra-se sobre si mesmo, o filme retoma a sequência de abertura e regressamos à época contemporânea para descobrir que, entre o passado e o presente, pouco ou nada mudou num território onde a reiteração da catástrofe impõe quotidianamente um simulacro de normalidade (veja-se, por exemplo, o genial gag do tanque e do telefonema). Mas, a virtude capital (ou o capital vício...) do filme de Suleiman consiste na sua liminar recusa da própria ideia de história. Na realidade, ao privilegiar o plano fixo em detrimento do plano em movimento, e a descontinuidade do gag em detrimento da continuidade narrativa, Suleiman deseja visar a não-história de um não-país, o eterno retorno da mesma sensação de cativeiro eterno (sancionado, de forma evidente, pelas diversas repetições cénicas que o filme comporta). O leitor pode pegar ou largar. Nós, em definitivo, pegamos. Vasco Baptista Marques

de Elia Suleiman

(Reino Unido/ Itália/Bélgica/França)

com Elia Suleiman, Saleh Bakri

Drama

M/12

O cinema segundo Suleiman

"O Tempo que Resta começa com uma conversa entre a minha personagem e um taxista. O diálogo é elíptico: eu acho que eles estão a falar do fim do mundo. Ou de um apocalipse em potência. Naquele momento de abandono, as personagens falam de algo muito mais vasto do que elas e do que a sua existência na Terra. (...) Todos os meus filmes têm lá dentro uma parte da minha vida. Mas nunca tinha ido tão longe como aqui. Chegou talvez o momento em que, como homem e como cineasta, consigo, de facto, sentir o que foi a perda daqueles que estavam à minha volta. Quando fiz o meu primeiro filme, há 20 anos, só sentia o medo dessa perda. (...) A minha personagem não traz necessariamente um 'olhar'. Nem é uma plataforma de identificação ou de apoio. Há quem me compare com outros realizadores que aparecem nos seus filmes, mas há casos e casos. Nalguns deles - Keaton ou Tati -, há porventura uma similaridade que não existe, por exemplo, em Moretti. Quando estou em frente à câmara, a minha personagem é uma espécie de guia translúcido. A sua presença é transparente, marginal. Porquê? Porque jamais admitirei tornar-me a autoridade das minhas imagens. A minha presença é sempre uma recordação do que é narrado, mas nada quer impor à ficção. Isto não é uma táctica confortável. Nem uma estratégia de trabalho. Para mim, é simplesmente uma questão oncológica. E um desafio de mise en scène. (...) A melancolia já existia nos meus outros filmes mas, neste caso, decidi abordá-la directamente. Tenho hoje mais capacidade de abertura e menos insegurança emocional. Só que este tipo de inquéritos existenciais, em que nos procuramos através de um filme, é uma zona perigosa. Quis por isso fazer o filme épico mais antiépico da história do cinema, sem alinhar os factos históricos de uma forma conformista. A maioria dos épicos são déjà vu e, pior, têm um passado inerente à sua projecção. Procurei evitar isso com um filme que fosse permeável a uma poética da modernidade, mas não à saga. Uma saga jamais poderia estar à altura da verdade de todos os testemunhos, visuais e literais, que eu recolhi sobre a Palestina de 1948 até aos nossos dias. Depois da recolha de todos os documentos e testemunhos, da escolha de cada detalhe da direcção artística, foi preciso dar um passo atrás. Metamorfosear esses elementos na minha intimidade, na minha solidão e numa dimensão estética. Uma vez concluída essa metamorfose, se consegues sentir que foste profundamente sincero contigo próprio, podes então dizer que fizeste um bom trabalho." Depoimento recolhido por Francisco Ferreira

ESTREIAS

de Louis Leterrier

(Reino Unido/EUA)

com Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes

Aventura

M/12

O filho de Zeus tenta vencer Hades e salvar Argos.

Em tempo, os italianos faziam filmes destes - e o género até tinha nome (kolossal) - com deuses, monstros, uns tipos cheios de músculos e raparigas de túnica para se verem as pernas todas. Passavam no Politeama ou no Olímpia e a malta delirava. Hoje continuam a ser uns barretaços, mas têm efeitos especiais digitais, ora essa. Mas a malta já não delira: tornou-se mais exigente. Jorge Leitão Ramos

de Oliver Parker

(Reino Unido)

com Colin Firth, Ben Barnes

Drama

M/16

Uma adaptação do romance de Oscar Wilde.

Cativo de um delírio gore que transforma Dorian Gray no protagonista de um filme de terror medíocre; acometido por desejo de 'porno-chachada' que nos leva a pensar que Wilde é o nome de um dos cronistas da "Happy"; incapaz de suspender os seus rendilhados retóricos perante o texto, o filme de Parker comete um feito notável: o de tornar invisível um magnífico romance. Filme medonho. V.B.M.

de Julie Anne Robinson

(EUA)

com Miley Cyrus, Greg Kinnear

Drama

M/12

Uma jovem revoltada pela separação dos pais descobre a força do amor.

Concordo que é uma história romântica para fazer suspirar adolescentes - e serenar os pais das que se rebelam. Não nego que é fita melosa, cheia de estereótipos. Mas reconheço que manipula os lugares-comuns com enorme eficácia, seja cómica, seja dramática. E a competência merece respeito. J.L.R.

de Park Chan-Wook

(Coreia do Sul/EUA)

com Song Kang-ho, Kim Ok-bin

Thriller

M/16

Um padre que se transforma em vampiro.

No novo filme de Park (Prémio do Júri em Cannes 2009), um padre católico, cobaia de uma experiência que procura vacina contra um vírus mortal, torna-se um vampiro romântico e escandaloso. Park é um obcecado pelo sobre-humano. Criador inspirado que não se fixa a um só género, acredita no gag e no poder fantástico do quotidiano. Só que, desta vez, àquele padre, a ficção vai permitir tudo. E o exercício de estilo, virtuoso, esgota-se depressa. Francisco Ferreira

CONTINUAM

de Alain Resnais

(França/Itália)

com André Dussollier, Sabine Azéma, Mathieu Amalric

Comédia Dramática

M/12

Marguerite é assaltada. Georges encontra a carteira dela. E faz tudo para tentar devolvê-la em pessoa...

"As Ervas Daninhas" é a essência da obra mais recente de Resnais, desde a transição que se verificou com "Fumar/Não Fumar", O autor de "O Último Ano em Marienbad" volta a dar ao mundo uma dimensão que nos aparece como irrealista - embora, de facto, tenha que ver com um realismo ligado a um comportamento fantasista dos intérpretes. E estes são uma dupla insuperável: André Dussolier e Sabine Azéma. Manuel Cintra Ferreira