Siga-nos

Perfil

Expresso

Cinema

Cannes veio abaixo com “BlacKkKlansman”, de Spike Lee

A história de um polícia negro do Colorado que consegue, no fim dos anos 70, infiltrar-se numa célula do Ku Klux Klan acaba em ataque cerrado a Donald Trump

“Estava colado à TV durante as manifestações de Charlottesville [agosto do ano passado] quando aquele crime odioso ocorreu [o atropelamento de 35 pessoas e a morte de uma delas, Heather Heyer]. O meu filme já estava em processo de montagem quando a tragédia ocorreu, tinha um final diferente. Consegui autorização da CNN e permissão da mãe de Heyer para incluir as imagens do massacre em 'BlacKkKlansman'. E temos este tipo na Casa Branca – nem consigo pronunciar o seu nome -, este motherfucker, que veio falar de amor numa situação de ódio, sem denunciar o Klan dos nazi motherfuckers.”

Spike pediu depois desculpa pelas “palavras profanas” mas não teve papas na língua na conferência de imprensa em que atacou Donald Trump. Na noite anterior, Cannes veio abaixo com a estreia de “BlacKkKlansman” por esse mesmo motivo: é um filme de época, passa-se no final dos anos 70, mas explode nos dias de hoje como uma bomba de fragmentação. O cineasta partiu da história verídica de Ron Stallworth (John David Washington, filho de Denzel), um polícia negro do Colorado que, em 1979, e graças a um dom extraordinário que lhe permitiu imitar ao telefone o branco racista que ele não era, conseguiu infiltrar-se e até chegar a líder da célula local do Ku Klux Klan. Nas reuniões em que não podia dar a cara, substituía-o um colega branco (que Adam Driver interpreta). O caso deu que falar na época, Spike trouxe-o do esquecimento agora.

“BlacKkKlansman” começa na crise de Little Rock em 1957, quando nove alunos negros foram impedidos de estudar pelo governador do Arkansas (é uma etapa-chave na luta pelos direitos cívicos dos afro-americanos dos EUA). Atira-se em seguida para uma sátira desenfreada ao white power (há um extraordinário momento com o KKK a delirar numa projeção de “The Birth of a Nation”, de Griffith, “um filme fundamental da história do cinema que também provocou muitos linchamentos de negros”, contou-nos entretanto o cineasta em entrevista). Conclui-se em Charlottesville (e toda a gente começou a falar do filme pelo fim...), mas a sua mensagem poderosa não esconde que Spike está a puxar pela caricatura: não há KKK aqui que não seja bronco, incluindo o maior deles, David Duke (a face da supremacia branca e do antissemitismo na América, então líder do KKK em início de carreira política), que Topher Grace interpreta. “BlacKkKlansman” vai ser um estrondo de bilheteira para um filme à sua escala (o cineasta diz estar-se nas tintas para os Óscares e quer pô-lo nas salas americanas a 12 de agosto, um ano depois de Charlottesville). Mas Spike já teve a pluma mais afiada.

“The House that Jack built”: Narcisismo em forma de serial killer

“The House That Jack Built” (exibido fora de concurso) fez Lars von Trier regressar a Cannes sete anos depois da bronca monumental que o tornou persona non grata na Croisette (na conferência de imprensa de “Melancolia”, o dinamarquês meteu os pés pelas mãos e revelou mostrar compreensão por Hitler). Desta vez, trouxe um filme americano, também passado nos anos 70, e centrado em Jack, assassino em série que sonha construir uma obra de arte com os cadáveres, a maioria deles de mulheres, que ele vai acumulando ao longo de 12 anos numa arca frigorífica.

É um filme muito mais dialogado e muito menos monstruoso do que se esperava, embora não dispense violência gráfica. E não é por acaso (nem pela aparição de Uma Thurman logo na primeira cena) que nos lembramos de Tarantino na primeira sequência: Jack dá boleia a uma mulher que ficou apeada numa estrada deserta, falam que se fartam, procuram uma garagem, ele ajuda-a, ela provoca-o até à exaustão e... começa a contagem de cadáveres. Em cinco capítulos e um epílogo. Talvez o serial killer que Matt Dillon interpreta espere que a sua sádica e grotesca existência possa um dia ser reconhecida como expressão artística. E isto soa a Lars, é esta a sua provocação, num filme que lhe permite explicar aquilo que na conferência de “Melancolia” ele não conseguiu quando agora se refere a Albert Speer, o arquitecto do III Reich (foi por aí que a confusão começou em 2011).

“The House That Jack Built” tem tensão quanto baste para prender o espectador no início, as cenas são longas e algumas são mesmo bastante boas, tal como Matt Dillon o é, ele que não sabe ser mau ator. Só que os episódios do assassino começam a ser intercalados por referências à arte de toda a espécie e feitio, canções de Bowie, aparições de arquivo de Glenn Gould, o gerador de mensagens popularizado por Dylan, tudo edulcorado por uma série de considerações ingénuas que parecem ter sido copiadas do Wikipedia – uma pepineira inexplicável. Coisas do ego de Lars von Trier, seguramente.