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Cinema

Palma de Ouro para “The Square”, de Ruben Östlund

O cineasta sueco venceu esta tarde a 70.ª edição do Festival de Cannes com uma crítica ao individualismo que satiriza a arte contemporânea

Não estava na lista de favoritos, não foi especialmente acarinhado pela generalidade da imprensa mas entrou para a história esta noite: “The Square”, quinta longa-metragem do sueco Ruben Östlund (o autor de “Força Maior”) venceu a Palma de Ouro de Cannes 2017. É um filme mordaz, uma comédia negra a atacar a má consciência de uma Europa burguesa e confortável que desconfia de tudo o que lhe é estranho. O filme foca-se na crise existencial do diretor de um museu de arte contemporânea em Estocolmo (papel de Claes Bang) que, dilacerado por problemas éticos e morais de toda a ordem, e depois de ver o museu que dirige arrasado por um escândalo mediático, começa a dar-se conta de que o seu trabalho é uma fachada incapaz de traduzir a realidade que o rodeia.

"The Square", de Ruben Östlund

"The Square", de Ruben Östlund

Östlund recebeu a Palma de Ouro das mãos de Juliette Binoche e foi o preferido do júri presidido por Pedro Almodóvar, do qual também fizeram parte os realizadores Maren Ade, Park Chan-Wook e Paolo Sorrentino, as atrizes Jessica Chastain, Fan Bingbing e Agnès Jaoui, o ator Will Smith e o músico francês Gabriel Yared. O cineasta espanhol destacou “a subtileza e o humor de um filme que nos fala de coisas essenciais, realizado com mão de mestre.” Será distribuído em Portugal pela Alambique Filmes.

O coração de “120 Battements par Minute”, filme de Robin Campillo que parecia ter batido mais depressa que todos os outros na Croisette, emocionou Almodóvar na conferência de imprensa dos jurados mas não chegou ao triunfo que era esperado, ficando com a segunda mais importante distinção do festival, o Grande Prémio do Júri. Esta terceira longa-metragem de Campillo, argumentista de quase todas as obras de Laurent Cantet, reproduz a militância da Act Up na década de 90 e a sua luta aberta contra o flagelo da sida na França de Mitterrand. É um filme de causas e de batalhas coletivas, com um elenco notável a funcionar como um corpo único, reavivando um espírito de indignação que a Europa em que vivemos deixou desvanecer duas décadas depois. Chegará às salas portuguesas pela Midas Filmes.

"120 Battements par Minute", de Robin Campillo

"120 Battements par Minute", de Robin Campillo

Sofia Coppola, ausente na cerimónia, viu reconhecido o seu trabalho com o Prémio de Melhor Realização a “The Beguiled”, uma adaptação da novela de Thomas P. Cullinan que Don Siegel também levou ao cinema em 1971 (“Ritual de Guerra”). Protagonista deste e de outra obra a concurso, “The Killing of a Sacred Deer” (de Yorgos Lanthimos), Nicole Kidman, também ausente, enviou de Nashville, EUA, um vídeo de agradecimento pelo prémio especial do 70º. aniversário que o júri resolveu atribuir-lhe.

Nas categorias de interpretação, a alemã Diane Kruger foi distinguida pelo seu difícil papel em “In The Fade”, história de uma mãe de Hamburgo que, depois de perder marido e filho num ataque à bomba perpetrado pela NSU, grupúsculo neo-nazi alemão, perde também a batalha na justiça contra os assassinos e equaciona responder-lhes com a mesma moeda.

Diane Kruger em "In The Fade", de Fatih Akin

Diane Kruger em "In The Fade", de Fatih Akin

Já o prémio de melhor interpretação masculina foi para Joaquin Phoenix e para o muito desequilibrado “You Were Never Really Here”, em que o norte-americano interpreta um veterano da Guerra do Iraque disposto a salvar uma miúda das garras de uma rede de tráfico sexual liderada por um político. O filme foi terminado à última hora pela escocesa Lynne Ramsay, que o mostrou em Cannes ainda sem genérico final e, tanto quanto se sabe, numa versão ainda não definitiva. O prémio teria sido mais ajustado se tivesse distinguido Jean-Louis Trintignant em “Happy End”, de Michael Haneke, e sobretudo Robert Pattinson no notável “Good Time”, dos irmãos norte-americanos Joshua e Ben Safdie, ausentes, tal como o cineasta austríaco, do palmarés.

Joaquin Phoenix em "You Were Neer Really Here"

Joaquin Phoenix em "You Were Neer Really Here"

Os já citados “The Killing of a Sacred Deer” e “You Were Never Really Here” partilharam ex-aequo o prémio de Melhor Argumento. “Loveless”, de Andrei Zvyagintsev, ficou com o Prémio do Júri. Na secção Un Certain Regard, a segunda competição do festival, venceu “A Man Of Integrity”, do iraniano Mohammad Rasoulof.

A Caméra d'Or, que distingue a melhor primeira obra de todas as secções do festival, foi para um filme francês, “Jeune Femme”, de Léonor Serraille. Acompanha o percurso de uma mulher que regressa a Paris com vontade de mudar de vida após longa ausência e é levado aos ombros pela atriz Laetitia Dosch.

O chinês Qio Yang venceu a Melhor Curta-Metragem por “Xiao Cheng Er Yue”. Os prémios FIPRESCI da crítica internacional, divulgados ontem, foram para “120 Battements par Minute”, de Robin Campillo (Competição), “Closeness”, de Kantemir Balagov (Un Certain Regard), e “A Fábrica de Nada”, do português Pedro Pinho (Quinzena dos Realizadores).

PALMARÉS CANNES 2017

Palma de Ouro: “The Square”, de Ruben Östlund

Prémio Especial do 70.ª Aniversário: Nicole Kidman

Grande Prémio do Júri: “120 Battements par Minute”, de Robin Campillo

Melhor Realização: Sofia Coppola, por “The Beguiled”

Melhor Argumento (ex-aequo): Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou por “The Killing of a Sacred Deer”; Lynne Ramsay por “You Were Never Really Here”

Melhor Ator: Joaquin Phoenix, por “You Were Never Really Here”, de Lynne Ramsay

Melhor Atriz: Diane Kruger, por “In the Fade”, de Fatih Akin

Prémio do Júri: “Loveless”, de Andrei Zvyagintsev

Caméra d'Or (Melhor Primeira Obra): “Jeune Femme”, de Léonor Serraille