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Nos corais da adolescência

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Rita (a atriz Júlia Palha) em "John From"

Em “John From”, João Nicolau tem os pés em Telheiras e o pensamento algures na Melanésia. Conversámos com o cineasta sobre a sua segunda longa-metragem, entre canções de João Lobo, janelas do Google e sonhos de Kikori... O filme estreou-se esta quinta-feira em Lisboa no Monumental, Cinema Ideal e Alvaláxia

Rita (Júlia Palha) e Sara (Clara Riedenstein), duas adolescentes de 15 anos, vivem em Telheiras, bairro de Lisboa, num Verão em que não têm muito para fazer. Amigas, trocam cumplicidades, confidências e canções. Até que Rita se apaixona por um novo vizinho, Filipe (Filipe Vargas), um homem mais velho, fotógrafo, que acabou de montar no bairro uma exposição sobre a Melanésia... Será por isso que Telheiras, pelo menos na cabeça de Rita, começa depois a parecer-se cada vez mais com os tons dos mares do Pacífico? É este o ponto de partida de “John From”, segunda longa-metragem de João Nicolau, com quem falámos no bairro em que ele vive, na esplanada de uma artéria conhecida como a “rua dos cafés”.

O que o levou a fazer “John From”?
Interessou-me realizar um filme sobre a génese da paixão amorosa, a sua lógica, ou a falta dela. Quis saber porque é que a paixão nos transforma. Foi por isso que ambientei o filme na adolescência, uma fase da vida em que estas coisas acontecem com frequência. Procurei então duas raparigas que no filme se chamam Rita e Sara. Elas são amigas e a Rita vai apaixonar-se.

Que regras se impôs na rodagem?
Não sei se posso falar em regras mas digo isto: quis desembaraçar-me de tudo o que fosse acessório. Delimitei cada vez mais o espaço. Restringi-me ao essencial. Tentei fazer este filme com o mínimo de personagens, aliás, se quer saber, fui ‘matando’ algumas do guião até à rodagem.

Sente-se um cineasta de bairro? “John From” seria o mesmo filme se não tivesse sido filmado em Telheiras?
Essa questão levanta muitas outras. Até porque eu vivo aqui e já não é a primeira vez que filmo aqui. Telheiras, no filme, é uma personagem, mais do que apenas o sítio onde as coisas se passam. É um bairro que foi pensado de raiz para o que é, tem uma linguagem definida e própria, em termos arquitetónicos e cromáticos. Este é provavelmente o bairro de Lisboa em que os edifícios estão mais longe uns dos outros, facto que acentua o isolamento da Rita na primeira parte do filme. Interessava-me mostrar isso, as ruas vazias, sem figurantes, foi por isso que rodámos em Agosto, num tempo de férias em que há pouca gente nas ruas.

Vive em Telheiras há muito tempo?
A minha família instalou-se aqui em 1985, eu tinha dez anos. Há outros aspetos importantes. Telheiras foi construído para ser um bairro de habitação social, no final dos anos 70/início dos anos 80. Estas galerias, por exemplo, foram pensadas para pôr as pessoas em contacto. Só no momento em que elas entram nos prédios deixam de ver-se. E há outra coisa que contou para mim na rodagem: hoje, o bairro está finalmente arborizado tal como foi projectado. As manchas verdes superaram finalmente a terra batida da minha infância.

Como é que encontrou a Júlia Palha e a Clara Riedenstein? Esta é a primeira experiência delas na interpretação?
Sim, elas nunca tinham representado e não são, de resto, nada parecidas às personagens. Ensaiámos bastante para as construir. Aliás, os ensaios foram uma das partes, senão mesmo a parte, mais gratificante do trabalho. Ensaiávamos como no teatro. Eu nunca dizia aos atores onde é que ia colocar a câmara.

Elas são de Telheiras? Conheciam-se antes?
Não são daqui. Fiz um casting de 90 raparigas que ainda viviam em casa dos pais, entre os 12 e os 20 anos - a idade das personagens não estava fechada, era uma coisa que podíamos facilmente moldar uma vez escolhidas as atrizes. A Júlia e a Clara destacaram-se de todas elas. Durante o casting, aproveitei para conhecer pessoas daquela idade e aproximar-me daquela geração. E há outra coisa importante que tenho de salientar: pela primeira vez, as personagens principais dos meus filmes são raparigas.

João Nicolau: "Fiz um casting de 90 raparigas que ainda viviam em casa dos pais, entre os 12 e os 20 anos - a idade das personagens não estava fechada, era uma coisa que podíamos facilmente moldar uma vez escolhidas as atrizes"

João Nicolau: "Fiz um casting de 90 raparigas que ainda viviam em casa dos pais, entre os 12 e os 20 anos - a idade das personagens não estava fechada, era uma coisa que podíamos facilmente moldar uma vez escolhidas as atrizes"

Tiago Miranda

Qual é a função dos pais da Rita, interpretados pela Leonor Silveira e pelo Adriano Luz? Eles são personagens muito neutrais, quase dispensáveis.
A Leonor e o Adriano só foram escolhidos depois da Rita – aliás, creio que este foi o primeiro filme em que eu fiz casting para todas as personagens, sem exceções. E têm um papel ingrato em “John From”.

Porquê?
Porque eles estão no filme para nos mostrarem que o filme não é sobre eles. E também não é sobre mim, está focado noutra geração. Os meus filmes nunca foram autobiográficos mas só agora senti que saí mesmo do centro deles. Pela primeira vez, procurei uma geração que não é a minha e um conjunto de problemas que não são meus, ou melhor, que já não são meus.

“John From” aborda uma fase da vida em que não sabemos muito bem o que queremos fazer do nosso tempo, nem como o usar, e o que é comovente é que este impasse faz parte do filme em si. A adolescência é sempre um pouco nebulosa, volátil. Mas deixa resquícios em cada um de nós...
Também sinto isso. Nós vamos aprendendo a pensar nas coisas de maneiras diferentes ao longo dos anos, mas eu acho que a adolescência não é uma coisa estanque. É antes algo que nos acompanha ao longo da vida. Por vezes até ao caixão.

Considera “John From” um filme muito diferente das suas curtas e da sua longa-metragem de estreia? [“A Espada e a Rosa”, de 2010]
Nos filmes anteriores, as minhas personagens tinham que criar regras para conseguirem viver no mundo. Neste filme, foi a transformação das regras o que me interessou mostrar. Acho que foi essa mudança que me fez, por exemplo, filmar uma cena no metro, ou outra no hipermercado, ou filmar ecrãs de telemóvel. Porque passam-se coisas importantes aí, hoje, sobretudo para aquela geração, nos telefones, nos ecrãs de computador, nos Ipod.... No início do filme, a Rita recebe uma mensagem de um rapaz à 1h da manhã e não lhe responde. E esse é um momento muito importante para ela, embora talvez passe desapercebido para nós, adultos. Eu quis filmar estas coisas mas sem me comprometer com uma temática, uma consciência, um contexto social. O meu compromisso é com o cinema.

Já disse que “John From” não é muito generoso para os pais, mas a mãe tem direito a um momento de cinefilia, digamos assim, ao ver na televisão um filme de Kaurismäki. Um comentário a este plano?
No início não era muito importante ser ou não um filme de Kaurismäki, a TV era só mais um ecrã que eu queria usar depois do Ipod, do telemóvel, do computador. Mas depois lembrei-me desse filme de Kaurismaki, “Shadows of Paradise”, de que eu gosto muito, e num momento em que a personagem reflete mais ou menos o mesmo estado de espírito da Rita. Pedimos os direitos e, felizmente, pudemos usar aquele excerto.

Filmar uma festa de adolescentes a partir de um congelador cheio de cervejas que vai ficando vazio é prova de uma economia narrativa?
É prova de que “John From” não quer ter uma grande eloquência de estilo. Ser eloquente não teria equivalência com o que eu estava a filmar. Agrada-me que este filme possa ser visto como um conto, não como um grande romance. “John From” não faz muito barulho. Isto é literal: o filme acaba com um volume de som muito mais baixo do que aquele com que começa.

É fácil filmar duas miúdas de 15 anos a regressarem a casa de uma festa com os copos? Por acaso, elas também não fazem muito barulho…
As atrizes não estavam com os copos, como é óbvio...

Acredito. Mas mesmo a fingir, o que gostei dessa cena é que elas mantêm uma grande ‘dignidade de movimentos’, digamos assim...
Foi mérito das atrizes. Estive para cortar esse plano na montagem. Decidi depois que era importante mostrá-lo e mostrar as personagens a passarem por aquele momento, daquela maneira.

Porque é que elas deixam mensagens uma à outra em papelinhos, no elevador, ao mesmo tempo que também trocam sms?
São diferentes. Elas usam as mensagens do elevador para se picarem. Provocam-se constantemente naquele esconderijo do elevador encarnado. Não são mensagens funcionais, do tipo: “Amanhã vamos para o Festival de Paredes de Coura.” É uma coisa só delas.

Há um momento fantástico de comédia a meio do filme, quando você filma aquela delirante reunião de condóminos em que a Rita se consegue infiltrar...
A Rita só quer ver o Filipe e interessava-me que os vizinhos, ali, parecessem aliens. Era uma maneira de potenciar a atracção dela. A Rita está apaixonada, o Filipe é um homem bom, e é neles que nos centramos, não nos disparates dos vizinhos.

Eles saem daquela reunião mais unidos?
Não me posso esquecer que a Rita só tem 15 anos e que se vai apaixonar por um homem muito mais velho. Nem queria que isso fosse tratado como uma disfunção qualquer, ou como uma ‘doença social’. É um facto. Eles apaixonam-se. As personagens aceitam esse facto e nós aceitamo-lo com elas, assim espero.

Qual foi a importância do trabalho do João Lobo?
A música do João trouxe uma riqueza enorme ao filme. Ele é o responsável não só pela banda sonora original como por toda a direção musical. Compôs o dub e o reggae que a Sara ouve no quarto, mas também os coros melanésios e outros trechos que podem parecer recolhas etnográficas quando, na verdade, são criações dele. Este é o meu filme que tem menos música tocada em direto pelos atores, mas é aquele em que a música mais conta, quando a Rita e a Sara põem canções no quarto, ou quando entra a peça do Moondog na cena das férias no Algarve, por exemplo. E há aquela playlist do Ipod, que no filme também serve de oráculo. Se saísse 'London Calling', quem sabe se não podíamos acabar em Londres…

O que pode acrescentar à escolha do título?
O filme explica essa escolha. Há na Melanésia um culto chamado “John Frum”, uma corruptela de “John From (America)”, em voga numa ilha do Vanuatu. Não é invenção nossa! Aliás, gostava de filmar esse culto, talvez numa perspetiva mais etnográfica, tal como o fiz em ‘Calado Não Dá’ [1999], o meu primeiro filme, que fiz em Cabo Verde [“Calado Não Dá”, rodado na ilha de Santiago, focava-se em Esperança Mano Mendi, o último tocador de cimboa, violino de uma só corda que acompanhava as danças de batuque do arquipélago].

Por fim, já foi à Melanésia?
Não, para já está um bocadinho longe. Ainda não a conheço. Mas hei-de lá chegar.