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A força que nos acompanha

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“Star Wars: O Despertar da Força” tem a assinatura de J. J. Abrams, o maior de todos os fãs. Trinta e oito anos depois de termos lido pela primeira vez num ecrã as sagradas palavras “Há muito tempo, numa galáxia distante...”, a Força parece mais forte do que nunca. É o episódio VII de uma saga que com a filosofia de sempre e um marketing superagressivo mudou a história do cinema de ficção científica no mundo. E em Portugal também

Scott Dadich, Diretor da “Wired” Luís M. Faria (Tradução)

Atravesse a elegante e anónima porta metálica das Bad Robot Productions de J. J Abrams e entre num mundo de memorabilia — a boneca assassina Talky Tina de “Twilight Zone”, filas de velhas cassetes VHS com a etiqueta “Midnight Movies” (filmes da meia-noite), um jogo de mesa Six Million Dollar Man, vários “Godzillas”. Mas se olharmos de perto — e olhámos — veremos meticulosidade na loucura. Os adereços e bugigangas apresentam-se todos sem poeira e bem arranjados. Aquelas figuras de ação do “Star Trek”, vintage anos 70, não estão simplesmente ali. Estão posicionadas. O material é de facto estimado. Parece evidente que, além de ser um dos realizadores mais talentosos do mundo — de certa forma é o herdeiro de Steven Spielberg e de George Lucas — Abrams é também um superfã.

Isso deixa-o numa situação precária. Ele herdou a rainha das megafranchises. Claro, não é a primeira vez que Abrams ressuscita uma empresa (Enterprise) amada. Mas… agora é a saga. É uma das coisas que inventaram o moderno superfã. E não se trata de um reinício. Em “Star Wars: O Despertar da Força”, Abrams alista os mesmos atores, argumentistas, designers e até o mesmo realizador para reanimar os personagens e temas que tornaram “Guerra das Estrelas”original, enfim, “Guerra das Estrelas”. Ele adora esses filmes tanto como vocês ou qualquer dos vossos amigos superespertos. Mas quando primeiro os encontrou era um simples aprendiz. Agora tornou-se o mestre.

Sem pressões, certo? Afinal, o que está em causa é só futuro da franchise que fez de Abrams um realizador; uma mitologia acarinhada por milhões de pessoas ao longo de quatro décadas: e, ah, pois, milhares de milhões de dólares em filmes e mercadoria durante o próximo meio século (pelo menos). Sentei-me com Abrams para uma entrevista sobre como equilibrar essas forças opostas (ahem) para contar uma história épica de há muito tempo numa galáxia muito, muito longínqua. Os sabres de luz estão desembainhados e calculadas as coordenadas para o salto no hiperespaço. Conseguirá Abrams? Bem, sabemos o que dizia Yoda sobre apenas tentar.

Como se sente? Parece que ainda ontem foi anunciado como o realizador do episódio VII.
Bem! É uma coisa louca, certo? Mal posso esperar para as pessoas verem o filme. Andamos a fazer este bolo há muito tempo, é tempo de o servir.

Em que medida é “O Despertar da Força” orientado para fazer as pessoas regressarem à franchise “Guerra das Estrelas”, por oposição a iniciar algo completamente novo? Como se consegue um equilíbrio entre esses dois imperativos?
Quisemos contar uma história que tivesse o seu princípio, meio e fim contidos nela, mas ao mesmo tempo, qual nova Esperança, implicasse uma história que a precedesse e também desse indícios de um futuro. Quando “Guerra das Estrelas” saiu inicialmente, era um filme que permitia à audiência compreender uma história nova mas também inferir todo o tipo de coisas excitantes que podiam acontecer. Nesse primeiro filme, Luke não era necessariamente o filho de Vader, não era necessariamente o irmão de Leia, mas tudo era possível. “O Despertar da Força” tem esta vantagem incrível, não apenas de uma base de fãs apaixonados mas de uma história de fundo que é familiar a uma data de gente. Conseguimos usar o que veio antes de uma forma bastante orgânica, porque não tivemos de reiniciar nada. Não precisámos de arranjar uma história de fundo que fizesse sentido; está tudo lá. Mas estes novos personagens, sobre os quais em grande parte Força é baseada, encontram-se em situações novas — e assim, mesmo quem não sabe nada sobre “Guerra das Estrelas” adere a eles. Se se é fã de “Guerra das Estrelas”, o que acontece terá um significado acrescido.

Patrick Fraser/Corbis Outline

Desenhou a história com Lawrence Kasdan, coautor de “O Império Contra-Ataca” e “O Regresso de Jedi”. Ele disse recentemente que as suas próprias experiências de vida — e o período de tempo em que não trabalhou em “Guerra das Estrelas” — o prepararam para trabalhar neste filme. Houve momentos da sua vida ou do seu próprio trabalho nos quais se tenha inspirado?
Trabalhar com Larry foi com certeza uma das experiências mais incríveis que tive neste projeto. Todos levamos as nossas experiências de um projeto para outro, mas, neste caso, nunca procurei beber no meu trabalho anterior. Acima de tudo, tomei experiências pessoais como avisos, coisas que não quereria voltar a fazer. Por exemplo, não queria voltar a fazer um filme onde não fôssemos donos da nossa própria história. Acho que fiz isso algumas vezes na minha carreira. Não quer dizer que não tenha orgulho no meu trabalho, mas o facto é que recordo começar a filmar “Super 8” e “Além da Escuridão: Star Trek” e sentir que não tinha realmente resolvido alguns problemas fundamentais da história. Esta colaboração com Kasdan, para mim, foi uma aprendizagem em contar histórias e em fazê-lo com clareza, eficiência, brevidade — com espírito. Um pouco como uma masterclass prolongada. E como ele também é realizador, sabia o que eu estava a passar na pré-produção e na produção, e deu espaço às minhas necessidades. Às vezes essas necessidades eram práticas, outras vezes eram criativas ou sentimentos que eu tinha. Mas ele estava lá para me ajudar nesse processo, da mesma forma que eu estaria se soubesse que era ele a realizar. Era sempre sobre fazer esta coisa andar para a frente da forma correta, sobre fazer este filme como devia ser. Não poderia elogiá-lo mais. Tentei não esquecer os erros que já cometi, mas também concentrar-me naquilo que o cinema tem de inspirador para mim. Fiz perguntas como, ‘De que forma vamos tornar este filme delicioso?’ Isso foi realmente o único requisito que Larry e eu impusemos um ao outro: o filme precisava de ser delicioso. Não se tratava de explicar tudo, ou de apresentar um certo número de brinquedos de uma empresa, ou de tentar apaziguar alguém. Foi só isso que nos excitou.

Bem, vê-se nos trailers. Lembro-me de no ano passado acordar na Black Friday com a minha mulher a enfiar o seu iPhone na minha cara sonolenta. Ouvi a música e saltei acordado — senti essa excitação.
Isso é ótimo. O que me excita é que o próprio filme se vê como esses teasers, não como se o filme fosse uma coisa e os teasers outra.

Sei que adora um mistério, surpreender o público. Como se sentiu com esses teasers que revelavam partes do filme, falando dele ao fazer o seu marketing, em vez de a história ir sendo revelada nos seus próprios termos?
Dou crédito — com surpresa, para ser franco — ao pessoal incrível da Disney, em especial a Alan Horn [presidente da Walt Disney Studios] e Bob Iger [CEO da Disney]. Bob tem dado uma colaboração e um apoio inacreditáveis em todo este processo. Quando se tratou de marketing, eu estava à espera que a Disney quisesse pôr a circular uma superabundância de material. Mas eles não o fizeram. Querem que seja uma experiência para as pessoas quando forem ver o filme. E estou grato por isso. Há um lado bastante positivo em manter o silêncio. Pode proteger-se o público dos spoilers ou de certos momentos que, eventualmente, dispensem a experiência do filme. Por outro lado, arriscamos ser vistos como tímidos ou como idiotas que restringem a informação. Nunca quis isso. Dado que a Lucasfilm se manteve tão comprometida com os fãs e tão aberta sobre o que estava a fazer, teria sido estranho e inconsistente não mostrar nada até vésperas da estreia. Pessoalmente, defendi que um teaser saísse um ano antes. Senti, enquanto fã de “Guerra das Estrelas”, que se pudesse ver nem que fosse uma coisa minúscula ficaria empolgado um ano antes. Porque não? Fizemos isso. Mas não quero destruir muitas ilusões. Estamos na corda bamba. Se tombamos para um lado não é bom porque mostramos de mais. Se tombamos para o outro também não é bom porque não mostramos nada e parecemos uns idiotas arrogantes.

É intuição? Onde está o equilíbrio?
Temos de nos perguntar, a cada momento, cada convenção, cada oportunidade, cada promoção, “o que parece certo?” Claro que neste filme há que jogar com mais bolas de licenciamento e merchandising do que eu alguma vez tive. Há tantas coisas, cada uma delas uma pequena janela sobre a história. Não é só aquela peça que se leva para um talk-show. Também é: ​​bem, o que diz aquele personagem enquanto brinquedo numa determinada linha de figuras de ação, em oposição àquele outro? Queremos preservar algum do ar rarefeito da experiência real e não abrir todas as janelas para não esvaziar tudo.

PAIXÃO. J. J. Abrams não é apenas o realizador do filme. É um superfã da saga criada por George Lucas. Aqui com Harrison Ford na rodagem do Episódio VII

PAIXÃO. J. J. Abrams não é apenas o realizador do filme. É um superfã da saga criada por George Lucas. Aqui com Harrison Ford na rodagem do Episódio VII

Podemos ver como o universo se torna tão grande tão depressa, primeiro brinquedos e jogos e a seguir os episódios VIII e IX, com os realizadores Rian Johnson e Colin Trevorrow a bordo. Eu sei que o VIII é o filme de Rian, mas não há dúvida de que você criou no episódio VII questões da história que têm de ser abordadas. Sabe como as respostas vão ser? Ou esses momentos ainda estão a ser desenrolados?
O guião do VIII está escrito. Tenho a certeza de que as reescritas vão ser intermináveis, como sempre são. Mas o que Larry e eu fizemos foi estabelecer certas relações-chave, certas questões fundamentais, conflitos. E sabíamos para onde iam certas coisas. Tivemos reuniões com Rian e Ram Bergman, o produtor do VIII. Eles viram dailies enquanto estávamos a filmar. Queríamos que fossem parte do processo, para tornar a transição para o seu filme tão suave quanto possível. Mostrei a Rian uma versão inicial do filme, pois sabia que ele estava a fazer a sua reescrita e pré-produção. E, enquanto produtor-executivo do VIII, preciso que esse filme seja realmente bom. Reter informação não serve ninguém e certamente não os fãs. Assim, fomos tão transparentes quanto possível. Rian pediu umas coisas aqui e ali de que precisava para a sua história. É um cineasta extremamente bem-sucedido e um escritor incrivelmente forte. A história que ele contou pegou no que estávamos a fazer e foi na direção que lhe pareceu melhor, mas que também está muito em linha com o que nós pensámos. Mas tem razão — isto vai ser o filme dele; ele vai fazê-lo como achar melhor. Não me pede, nem precisa, que eu supervisione o processo.

Quando olha para a trilogia original, há cenas que acha que se destacam?
Seria uma conversa muito mais curta se falássemos das cenas que não se destacam. Como fã de “Guerra das Estrelas”, posso olhar para esses filmes e respeitar e amar o que fizeram. Mas quando trabalhávamos em “O Despertar da Força”, tivemos de os considerar num contexto um pouco diferente. Por exemplo, é muito fácil gostar de “Sou o teu pai.” Mas quando se pensa como e quando e de onde vem isso, não tenho certeza de que mesmo a própria “Guerra das Estrelas” pudesse ter apoiado esse ponto da história se tivesse existido logo no primeiro filme, o episódio IV. Quer dizer: foi um momento maciçamente poderoso e instantaneamente clássico da história do cinema, mas só foi possível porque se ergueu sobre os ombros do filme precedente. Tinha havido um par de anos para deixar a ideia de Darth Vader firmar-se, para o deixar emergir como um dos maiores vilões do cinema de todos os tempos. O tempo fez subir as expectativas de toda a gente sobre o conflito iminente entre Luke e Vader. Se “sou o teu pai” tivesse sido no primeiro filme, não sei se teria tido o mesmo efeito. Não sei mesmo se teria funcionado. Estamos a fazer o primeiro filme de uma nova trilogia, e não é muito habitual que se consiga trabalhar em algo onde sabemos que há um contínuo, onde sabemos que é basicamente a parte sete de nove — pelo menos. É uma forma muito interessante de abordar uma história e é ótimo. Alivia-nos. Esse é um dos dons que a “Guerra das Estrelas” original proporciona tão generosamente. Quando vemos o filme pela primeira vez, não sabemos exatamente o que o Império está a tentar fazer. Sabemos que querem controlar pelo medo e que querem dominar, mas não conhecemos realmente todos os seus planos. Não compreendemos o que seria para Luke tornar-se um Jedi, muito menos quem era o seu pai. Não sabemos o que foram realmente as Guerras de Clones, ou o que era a República ou que aspeto tinha. Todos esses elementos maciços de história eram apenas pinceladas em “Uma Nova Esperança”. Em 1977, nenhuma dessas coisas era clara para ninguém, talvez nem mesmo inteiramente para George Lucas. Não posso dizer suficientemente sobre o que George conseguiu com esse primeiro filme, para já não falar dos seguintes. Esqueça o visual incrível, esqueça a tecnologia, esqueça o humor, o coração, o romance, a aventura — todos os momentos espantosos que nos fizeram amá-lo. Pense no que ele foi capaz de agitar, nas perguntas que fez — exatamente as perguntas certas — na ideia que criou de um mundo que tão claramente ia além dos limites do que víamos e ouvíamos. Isso, para mim, é uma das grandes coisas em “Guerra das Estrelas”. Trabalhar neste novo filme tem sido tanto sobre tentar criar elementos do que está para lá do visível, como sobre contar uma história satisfatória em si mesma. Mas não podemos sentir que há uma evasiva, que estamos apenas a preparar as coisas sem as resolver.

Mas com um universo tão vasto, há que pensar em restrições, não? Claramente, você teve um orçamento saudável e um mundo grande para inventar. Houve limitações específicas que quisesse impor quer ao processo ou à história, algo que o ajudasse a concentrar-se nos objetivos?
Acho que sou mais feliz quando tenho limitações. Com “Perdidos” (“Lost”), quando o presidente da ABC, Lloyd Braun, me ligou a dizer que queria que eu lhe arranjasse um show sobre pessoas que sobrevivessem a um desastre de avião, lembro-me de pensar: ‘Bem, vou arranjar’, e arranjei — rapidamente. O que foi ótimo foi ele ter-me dado uma tarefa muito específica. Quando o chamei e lhe disse aquilo em que estava a pensar, era muito mais estranho do que ele alguma vez teria esperado. Basicamente, ele imaginava um show de náufragos. Mas a restrição que me impôs permitiu sentir a estranheza como terreno fértil. Estranheza com limites, percebe? Se tivesse sido sem limites, se ele tivesse ligado e dito, arranje um espetáculo bizarro, eu teria pensado, não sei! Aliás, o que é que isso quer dizer? “Guerra das Estrelas” é tão ilimitado em termos do mundo, dos personagens, dos limites. Quando iniciámos o nosso trabalho neste filme, Larry e eu começámos por elaborar uma lista das coisas que sabíamos terem interesse para nós, as coisas que sentíamos importantes. Há uma questão muito real ao fazer este filme: cada pormenor, seja o desenho de uma roupa ou a música ou uma escolha para o recheio de um set, deve ser vista como vinda de “Guerra das Estrelas”. O que herdamos é “Guerra das Estrelas”! Não é algo que se faça com ligeireza. Temos de compreender realmente as escolhas de design, pois tudo é importante. Ao mesmo tempo, é apenas a “Guerra das Estrelas”, quer dizer: não o torna automaticamente interessante apenas por ser nessa galáxia. Por exemplo, quando estávamos no set a filmar uma cena, era sempre espantoso para mim ver Harrison Ford vestido como Han Solo. Ou, uau, há um tipo — um stormtrooper! — e ele parece exatamente um stormtrooper. Recorda a sensação do vilão a descer da sua nave? Ou o som dos guerreiros TIE quando passam por si a rugir? Há quase 40 anos que todos vemos guerreiros TIE passar por nós a rugir; o que torna isso interessante? A questão é que essas cenas não são boas apenas por esses personagens ou coisas estarem lá, ainda que seja o maior rebuçado visual na história do tempo. Procurámos realmente ver de dentro para fora. O que faz esta história ter um coração que bate? O que a torna romântica, ou divertida, ou surpreendente, ou comovente ou histericamente engraçada? Abordámos a narrativa na perspetiva de que isto é uma história sobre um homem e uma mulher, dois jovens, não com a ideia de que podemos fazer tudo o que queremos.

No perfil que a “New Yorker” fez de Jony Ive [famoso designer britânico], adorei a história sobre vocês dois a fazerem brainstorming sobre o design “cuspido” do sabre de luz de Kylo. Pequenos pormenores como esse — ou o braço vermelho de Threepio ou o prato agora retangular de Falcon — deixam-nos malucos a nós, fãs, que queremos saber o que aconteceu entre Jedi e a Força. Como trabalhou com a equipa de design? Como lidou com o design da produção?
Tudo começou mesmo no início, quando estávamos a trabalhar com Michael Arndt, o primeiro escritor no projeto. Enquanto Michael e eu colaborávamos, convidei o nosso designer de produção, Rick Carter, a entrar no processo da história. Assim como seria impossível separar a partitura de John Williams dos filmes de “Guerra das Estrelas”, seria impossível separar o que fizeram Ralph McQuarrie e a sua equipa de design para Uma Nova Esperança. A minha sensação era de que quanto mais cedo Rick pudesse ser parte do processo melhor. Ele é um sonhador incrível. A sua mente vai para lugares espantosos e sonha coisas que nunca imaginámos. Muito rapidamente, tornou-se uma vantagem incrível ter o Rick a lidar com os designers e os artistas, preparando o trabalho conceptual com base nas nossas reuniões sobre a história. Quase imediatamente, os designs começaram a rolar e a dar forma às ideias em que andávamos a trabalhar. Momentos como o braço de Threepio nasceram do desejo de, bem, marcar aquele momento. É quase como...

Eventos desconhecidos transpiraram...
Exato. Sabe o momento em que retomamos contacto com alguém ao fim de anos sem nos encontrarmos? Vemos as rugas no seu rosto e pensamos, oh, ele viveu dez anos! Ou quando alguém tem uma cicatriz que não tinha — física ou emocional — e nós reconhecemo-lo. Faz-nos compreender que não passaram dois minutos. Era importante que Han Solo fosse Han Solo mas não parecesse estar a interpretar um gajo de trinta anos. Quando se tem 70 anos, já se viveu um conjunto diferente de experiências. Isto tem de se notar no que ele é. Era preciso Harrison trazer um nível de complexidade que um Han de trinta anos não precisava de ter. Depois havia coisas como a antena de radar no Falcon, que claramente foi arrancada em “Jedi”, pelo que se requeria uma nova. Mas parte da decisão foi tomada enquanto fã. Há uma parte de mim que quer saber: é o Falcon desta época. Agora sei que quando vejo o Falcon com a antena retangular, estamos num momento após ter mudado de mãos. Isso também nos ajuda a marcar aquele tempo.

Quanto a John Williams.
Oh, meu Deus! Antes de mais, esqueça o talento dele e o que ele fez. Como pessoa, é o tipo que se quer conhecer mais do que qualquer outro. É a alma mais doce que jamais encontrei. É como um jazzman que se tornou um dos maiores compositores de todos os tempos. Ele chama-nos literalmente “baby”! Assim, “Hey, baby”. Ele chama-me “J. J. Baby”. Esperei toda a minha vida para encontrar alguém que me chamasse isso. Ele trabalha com lápis. Vamos a sua casa e ouvimo-lo tocar notas no piano e, enquanto ouvimos, extrapolamos o que será quando ouvirmos a melodia com uma orquestra. É inesquecível, algo verdadeiramente miraculoso de ver. Ele tem cada uma das suas partituras encadernada a couro. Eu dizia, ‘Importa-se que eu…?’. Ele respondia, ‘Não, avance!’. Então eu puxava a partitura de “Tubarão” (“Jaws”), e, claro, lá estava, a lápis sobre papel: baaaa-bum, baaaa-bum. E pensamos, ‘Bem, foi o que ele escreveu!’. É como se estivermos na companhia de Mozart, que por acaso fez a música dos nossos filmes preferidos. Sei que toda a gente sabe isto, mas quando pensamos realmente no que ele compôs, é tão importante como qualquer trabalho jamais feito em qualquer desses filmes. Quando se pensa em “Super-Homem” e “Salteadores” e “Tubarão” e “Encontros Imediatos” — que saiu no mesmo ano que “Guerra das Estrelas” — e depois os filmes de Harry Potter? Ele é sobre-humano. É incrível que seja tão brilhante e no entanto tão modesto como ele é. É uma coisa incrível poder conhecer esse gajo.

Muito deste elenco nem sequer era nascido em 1977. Como se transmite o legado do que “Guerra das Estrelas” significa para mim e para si? Ou isso é um fardo que procura evitar?
É realmente estranho, quando pensamos nisso, ter nascido num mundo onde ela simplesmente existe. Apesar de terem nascido há horrivelmente pouco tempo, esses miúdos conheciam e compreendiam “Guerra das Estrelas”do mesmo modo que todos nós: apenas nasceram nela, em vez de ela ter acontecido durante as suas vidas. A chave para lhes atribuir papéis foi encontrar pessoas capazes de fazer tudo. Quando se pensa no que todos aqueles personagens atravessam, não só neste filme mas cientes de que o seu trabalho vai prosseguir, esses indivíduos têm de ser dignos do fardo e da oportunidade de continuar a contar a história. Acho que os filmes de Harry Potter — é inacreditável que tenham feito o casting desses filmes como fizeram. E para quê, oito filmes?! Foi um milagre. Tinham de ser capazes de fazer tudo, e excederam-se. Sabíamos que não estávamos a fazer casting apenas para um filme, mas para pelo menos três. Isso, para mim, foi o maior desafio. Quando encontrámos Daisy Ridley, quando descobrimos John Boyega, e depois Oscar Isaac e Adam Driver entraram a bordo, ficámos realmente excitados. E sim, Daisy e John conseguiam trabalhar juntos, mas o que sucede quando Harrison está no grupo? Qual será a sensação? Se não houver faísca, é uma porcaria de um desastre. Sim, BB-8 é um grande personagem, espantosamente movimentado, mas o que acontecerá quando estiver de repente numa cena com C-3P0 ou R2-D2? Parecerá bizarro? Parecerá errado? Por algum motivo não pareceu. Quando Anthony Daniels me disse, ‘Oh, meu Deus, adoro BB-8!’, eu disse, ‘Vai correr tudo bem’. Porque se ele está OK, funciona.

C-3P0 aprova.
Ou ver a doçura entre Han e Rey ou a tensão e a comédia entre Han e Finn. Foi realmente excitante dizer, ‘Estas cenas funcionam!’. Trabalhámos no duro para decidir o elenco e para escrever e para pôr tudo junto, mas simplesmente não sabemos até começarmos a filmar. E então, de repente, estamos no set a ver e sabemos. É um pouco como dar uma festa e ter amigos da nossa nova escola a conhecer amigos da nossa escola anterior e pensar, ‘O que irá acontecer?’. E de repente estão todos dar-se maravilhosamente e a festa é mesmo divertida! Foi imenso trabalho, mas resultou muito bem.

E o que vem a seguir? Sei que estava a pensar em ideias completamente novas e originais quando Kathy Kennedy o chamou para este projeto.
A minha mãe tinha este hábito de nós estarmos a almoçar e ela dizer, ‘Então o que vão querer para o jantar?’. E eu respondia, ‘Mãe! Estamos a almoçar. Estamos apenas a começar o almoço’. Acho que neste momento só preciso de terminar o meu almoço. Para já, quero lançar este filme no mundo.

Texto publicado na edição do Expresso de 12 dezembro 2015