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Chegámos ao futuro e os carros não voam

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Foto: J.Morton

Se lhe disséssemos que era possível viajar no tempo, preferia ir ao futuro ou ao passado? Escolheria ver os seus pais quando eram novos, ou ver-se a si próprio daqui por uns anos? Há 30 anos o cinema inventou um carro que era também uma máquina do tempo. O carro viajou até ao futuro e o futuro chegou esta quarta-feira, mas não é bem como o tinham imaginado. Ou será que até pode ter sido e nós não soubemos? Confuso? Vamos viajar no tempo

Bob andava a remexer em coisas no sotão da casa dos pais em St. Louis quando encontra um livro antigo cheio de pó. Lá dentro estão várias fotografias antigas e uma delas tem o nome do pai escrito por baixo. Era de quando ele andava no liceu. O mesmo liceu em que Bob Gale andou, só que mais de duas décadas depois. E ali estava o pai, com apenas 16 ou 17 anos, como ele nunca tinha visto antes. Era o livro de final de ano, daquele já longínquo ano, e nele Bob descobre coisas sobre o pai que não fazia qualquer ideia. Nesse momento, há um pensamento que lhe passa pela cabeça:

“Como seria se eu tivesse conhecido o meu pai na altura em que ele andava no liceu? Será que teria sido amigo dele, ou será que o tinha odiado?”

De regresso à Califórnia, onde já tinha começado a trabalhar no negócio dos filmes, Bob Gale conta a história a um dos melhores amigos, curiosamente também ele chamado Bob, Robert Zemeckis. Zemeckis fica imediatamente entusiasmado:

“É isso! É mesmo isso! É essa a ideia para o filme sobre viagens no tempo que andamos há tempos para fazer.”

Estávamos no início dos anos 80. E o que é que é preciso para nos fazer viajar no tempo? É necessária uma máquina ultrassofisticada, pergunta o leitor? Não, às vezes é só preciso ouvir uma música como esta.

Estradas? Não precisamos de estradas

O carro sai disparado em contramão, debaixo de uma chuva torrencial.

“Estamos onde? Aliás, estamos… quando”, pergunta Marty.

“Estamos a descer para Hill Valley, Califórnia, e são 16:29 de quarta-feira, 21 de outubro de 2015.”, responde Doc Brown, que vai ao volante.

“2015!?”, reage Marty com espanto, enquanto a namorada, Jennifer, que vai ao lado, tem um ar incrédulo.

Um momento: a descer? Mas isto não era um carro? Era. Só que o Doc Brown já tinha avisado, momentos antes - aliás, anos antes (ou terá sido momentos antes? Bem, o tempo é demasiado confuso...):

“Estradas? Para onde vamos não precisamos de estradas”.

Sim, em 2015 há carros voadores, que circulam freneticamente em estradas imaginárias desenhadas lá em cima no céu. Mas, se assim é, porque é que hoje, quarta-feira, 21 de outubro de 2015, você não veio também a voar de casa para o trabalho?

Há um pequeno grande pormenor. É que este carro não só voa como é uma máquina do tempo. E acaba de chegar aqui vindo diretamente dos anos 80. Marty e Jennifer vêm com uma missão: eles vão tentar salvar os filhos (os que vão ter no futuro) de cometerem um grande erro e arruinarem as suas vidas para sempre.

Imagine que dava à chave no carro, e, acelerando até aos 140 km/h, conseguia viajar no tempo. O que escolhia? Ir até ao passado e ver aquilo que nunca viu (como Bob Gale, que gostava de poder ter conhecido o pai quando este andava no liceu), ou ir até ao futuro e saber como estará a sua vida dentro de uns 30 anos?

Para explicar o futuro, comecemos primeiro por ir até ao passado. E de volta aos anos 80. Bob Gale, argumentista, e Robert Zemeckis, realizador, começaram a trabalhar na tal ideia de se poder voltar atrás no tempo e conhecer o pai na escola. De início era apenas isso: um tipo que anda no liceu, vai ao passado e volta. Depois quiseram adicionar-lhe uns elementos “cool”, com os quais os jovens daquela geração (de 80) se identificassem. E se o tipo, por acidente, inventasse o skate quando estava nos anos 50? E se inventasse… o rock and roll? E assim foram adicionando ideias e construindo situações na linha temporal do enredo que as concretizassem. Raparigas, rock and roll e skates, ingredientes de sucesso.

O primeiro guião de “Regresso ao Futuro” foi rejeitado umas 40 vezes. Uma delas pela Disney. Quando o personagem principal, Marty McFly, viaja pela primeira vez no tempo e conhece o próprio pai no liceu, a mãe (ou futura mãe…) que também anda na mesma escola, apaixona-se por ele, sem saber que é o seu filho (ou futuro filho..) e tenta dar-lhe um beijo dentro de um carro. A Disney achou a passagem do guião “incestuosa”. O único que o viria a aceitar? O realizador e produtor que por essa altura já ganhava notoriedade com filmes como “E.T.” e os “Gremlins”: Steven Spielberg. Ainda hoje Spielberg garante que é o melhor filme de todos os tempos sobre... viagens no tempo.

A primeira escolha para fazer o papel principal foi o jovem Michael J. Fox, com apenas 24 anos na altura. Fox começava a ganhar notoriedade pela participação na série “Quem sai aos seus?”, mas o ritmo das gravações não lhe permitia estar em dois projetos ao mesmo tempo. Os produtores decidiram-se então por Eric Stoltz, da mesma idade. Chegaram a gravar cinco semanas, mas a coisa não estava a funcionar. Não havia “química”, sentiam Gale e Zemeckis. E as histórias do argumento não estavam a ter tanta piada quanto deveriam ter. Numa decisão difícil, deitaram fora cinco semanas de trabalho (e três milhões de dólares dos estúdios…) e fizeram novo forcing por Michael J. Fox. O ator aceitou. Passava o dia até às 5 da tarde a gravar “Quem sai aos seus”, e depois ia gravar, até às 4 ou 5 da manhã, aquele tal filme do jovem que volta atrás no tempo e conhece o pai no liceu.

Mas como voltar atrás? A máquina do tempo começou por ser uma “câmara” numa sala, chegou mesmo a ser um frigorífico numa das versões do argumento... Mas era necessário algo mais chamativo. Um carro. Mas não um carro qualquer. Um DeLorean, um icónico carro norte-americano produzido apenas durante cinco anos no final dos anos 70 e início dos 80. Um desportivo, cujas portas abriam não para os lados, mas para cima. Na verdade, o carro foi escolhido porque seria aquele que, aos olhos de alguém da década de 50, mais pareceria uma coisa vinda do espaço. A produção ainda teve uma abordagem da Ford para mudarem o carro para um Mustang. A empresa oferecia, em troca, 75 mil dólares. Um dos produtores ainda recorda a resposta que lhes deu na altura:

“A Mustang? Doc Brown doesn´t drive a fucking Mustang!”

Doc Brown, Emmett Brown, é o verdadeiro responsável pelas viagens no tempo. É um cientista maluco, de cabelos brancos desgrenhados, uma espécie de mistura entre o cientista Albert Einstein e o compositor Leopold Stokowski. Foi ele que, ao bater acidentalmente com a cabeça no lavatório, teve a grande revelação de construir o “capacitador de fluxo”, o dispositivo revolucionário que, uma vez acoplado ao DeLorean, iria permitir as viagens no tempo. “Doc Brown era um tipo que estava permanentemente em estado de crise”, recorda Christopher Lloyd, o ator que lhe deu vida nos três filmes da saga “Regresso ao Futuro”.

Voltemos ao carro voador. O dia, como já vimos, é 21 de outubro de 2015. Se no primeiro filme de "Regresso ao Futuro" (que saiu em 1985) Marty voltou acidentalmente ao passado onde conheceu os pais no liceu (é ver, ou rever, o filme), no segundo filme da saga viaja propositadamente ao futuro (por iniciativa do Doc Brown, que já tinha ido espreitar os próximos 30 anos) para salvar os filhos de arruinarem as suas próprias vidas. Em especial impedir o filho, que é a cara chapada do próprio pai, de cometer um crime e ir parar à prisão.

Doc e Marty estacionam, ou melhor, aterram em Hill Valley (a cidade imaginária onde se passa todo o enredo) e eis que no futuro não há apenas carros voadores. Os carros são abastecidos por robôs em bombas de gasolina, a previsão do tempo é tão exata que sabemos, ao segundo, se vai fazer chuva ou sol, e até os jornalistas foram substituídos por drones que filmam e registam tudo em todo o lado e em qualquer altura. Mas o que era tão distante há quase 30 anos ( “Regresso ao Futuro II” é de 1989) chegou finalmente. O futuro de então é agora o nosso presente. Mas porque é que hoje, ao ir para o trabalho, não deu com nenhum carro voador a aparecer do nada e a voar intempestivamente em contramão?

Mostrador que indica a data em que o DeLorean chega ao futuro: 21 de Outubro de 2015, às 4:29 da tarde.

Mostrador que indica a data em que o DeLorean chega ao futuro: 21 de Outubro de 2015, às 4:29 da tarde.

Nos últimos tempos a Internet tem-se dedicado a esse exercício: comparar as previsões feitas em “Regresso ao Futuro II” com a realidade de 2015. E, na realidade, os argumentistas até acertaram em algumas coisas: hoje temos videochamadas e televisões inteligentes com ecrãs planos, já temos óculos de realidade virtual e até drones (embora estes ainda não consigam passear cães sozinhos, como vemos no filme…). Outras são previsões completamente ao lado. No futuro que Marty visita o fax está acessível em todos os sítios imaginários, mas hoje é uma tecnologia morta (é preciso também ter em conta que, na altura da rodagem, ainda nem sequer existia internet...). E, ao contrário do holograma que aparece na praça central de Hill Valley, a saga “Tubarão” (“Jaws”, no original) não teve uma décima nona sequela assinada por Max Spielberg, o filho de Steven Spielberg (que, hoje em dia, nem sequer é realizador). Ainda que, este ano, para assinalar o 21 de outubro de 2015, os estúdios de cinema tenham feito, em jeito de brincadeira, um vídeo com as várias sequelas imaginárias.

Já as sapatilhas com atacadores automáticos também ainda não existem, apesar da Nike ter feito uma edição limitada de umas sapatilhas idênticas (mas sem a parte dos atacadores automáticos...) em 2011. E, mais importante do que tudo para os verdadeiros fãs do filme, estamos ainda um pouco longe das verdadeiras capacidades do “hoverboard” original, um skate sem rodas e que levita no ar, apesar de estarem a ser feitos progressos nesse sentido.

São várias as iniciativas previstas para assinalar o 21 de outubro de 2015. A partir desta quarta-feira, e durante os próximos cinco dias, a cidade de Reston, na Virginia, vai chamar-se Hill Valley, a cidade imaginária onde vive Marty McFly. A cidade montou um programa especial, que conta, é óbvio, com projeções especiais dos três filmes da trilogia (no terceiro, Marty e Doc Brown regressam ao século XIX e ao velho Oeste). Há ainda uma edição especial em DVD a ser lançada, com novos extras.

Já a Pepsi vai lançar uma edição limitada de “Pepsi Perfect”, a bebida que Marty bebe quando chega ao futuro, e cuja garrafa de design futurista não consegue abrir. Serão lançadas apenas 6500, a um preço (nada simbólico) que ronda os 18 euros. E a Hendo, uma das empresas que está a tentar construir um “hoverboard”, também promete novidades…

O documentário “Back in Time”, que recolhe testemunhos dos intervenientes nos filmes, estreia também neste 21 de outubro nos Estados Unidos. Pode ser visto também em Lisboa, na Aula Magna, numa projecção única. Iniciativa que vai contar ainda com a projeção do filme “Regresso ao Futuro II”.

Esperámos quase 30 anos por este dia, e agora que chegámos ao futuro, ou que o futuro é o nosso presente, constatamos que nem tudo é como o filme projetou. Nem era esse o objetivo dos argumentistas. “Só queriamos projetar um futuro que fosse divertido”, garantiu a dada altura Bob Gale. Mas fica uma derradeira pergunta para reflexão, que os verdadeiros fãs vão certamente entender: será que o futuro (que é agora o nosso presente) não é como o projetado no filme porque os argumentistas falharam na previsão, ou porque um qualquer acontecimento alterou toda a linha do “espaço-tempo continuum”, mudando dessa forma todo o Universo?

Enquanto vão pensando em todas as possibilidades temporais, o melhor é ficar a ouvir uma música que é, também ela, uma máquina do tempo.

  • O futuro... é já hoje

    A data ficcional que o segundo filme da trilogia “Regresso ao Futuro” visitava em 2015 chegou ao nosso calendário real. Há filmes publicitários, um documentário, uma edição em DVD e novos livros a assinalar a sua chegada