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Caetano revisitado

Marcello Caetano esteve ligado ao nascimento da RTP quando foi ministro da Presidência no final da década de 1950. Já Presidente do Conselho de Ministros recorreu à televisão para comunicar com os portugueses nas Conversas em Família

Arquivo Gesco

"Marcello Caetano - Um Destino" é o mais recente livro sobre a vida e o pensamento do último chefe de Governo do Estado Novo. Ao longo de 700 páginas Luís Menezes Leitão, catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa, traça o retrato do homem que considera ser "o maior jurista do século XX português".

A mais recente biografia de Marcello Caetano tem a marca de um trabalho feito por um académico que leu e estudou (quase) tudo o que foi publicado sobre o seu biografado ou que de forma direta ou indireta diz respeito ao período em que Caetano viveu e se afirmou como jurista e como ator na esfera pública.

Neste livro dividido em três partes que englobam cerca de 70 capítulos, Luís Menezes Leitão, catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa, apresenta-nos as suas "reflexões pessoais" sobre o percurso do sucessor de Salazar, dedicando uma atenção [e espaço] relevante ao que batizou de 'Formação' e ao tempo do 'Governo', para assim retratar o confronto e as permanentes contradições  que se estabelecem entre o eminente jurista e o político autocrata. Essa dualidade, é referida numa das frases de Marcello com que Leitão termina o livro: "Pois que é o Direito Público senão a limitação jurídica do Poder político? E essa limitação - donde há-de provir senão do reconhecimento da existência de outros poderes na sociedade além do Poder político".



O autor recorda que Marcello foi o "verdadeiro fundador do Estado social em Portugal" e muito mais do que um "parêntese entre o regime salazarista e o PREC iniciado com o 25 de Abril" apesar de muitas vezes ser visto pela opinião pública como uma figura de segundo plano que "esteve sempre destinado desde muito cedo a ser o sucessor de Salazar, o que condicionou toda a sua vida, inclusive no plano familiar".

Como autora de uma das anteriores biografias de Caetano devo agradecer a forma diplomática e inclusiva com que Menezes Leitão acolhe nesta obra o meu livro bem como a biografia política de Tavares Castilho e o brilhante ensaio de Vasco Pulido Valente  "Marcello Caetano - As Desventuras da Razão". Mas permito-me discordar no que toca ao "destino" que lhe estava reservado: Marcello sucedeu a Salazar porque lutou por isso e desejou suceder-lhe. Marcello era um homem mais aberto ao mundo do que Salazar, tinha família, dava aulas, gostava de viajar, mas partilhava com essa figura central do Estado Novo uma imensa fidelidade ao modelo autoritário. O que seguramente não partilhou nunca foi a realidade de uma vida de convívio com a família republicana e democrata da mulher com quem casou, Teresa Barros, nem o intenso diálogo consigo mesmo que o exílio lhe exigiu.

Como leitora, gostaria que Menezes Leitão tivesse dedicado mais espaço ao Marcello Caetano jurista e professor de Direito. Até hoje era ele o primeiro biógrafo que dispunha de todas as ferramentas para o poder fazer.