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Bardo. O que esconde (e preserva) o museu atacado na Tunísia?

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O Museu do Bardo é "um local cheio de história, (...) onde se encontram todos os elementos do património histórico tunisino e em particular os patrimónios arqueológicos romanos e púnicos", diz Yves Marek, diplomata francês de origem tunisina

Ana Baião

Depois da morte de 22 pessoas num atentado, o que resta num dos mais importantes espaços museológicos em solo africano, que preserva a memória do tempo em que o Mediterrâneo era o centro do mundo. O Museu do Bardo "conserva tesouros de arte romana e púnica", agora ameaçados pelo radicalismo.

A história do Museu do Bardo começou nos finais do século XIX, vivia a Tunísia sob protetorado francês. Foi a 7 de maio de 1888 que o à época chamado de Musée Alaoui abriu portas, nas instalações de um palácio real ("Palais du Bey", referindo-se ao título nobiliárquico turco adotado pela realeza tunisina). Desde então, o mundo mudou completamente.

O tempo fez das suas, o reino do Magrebe enfrentou períodos de paz e de guerra, tornou-se independente, foi pioneiro na Primavera Árabe - é considerado o caso de maior sucesso do processo revolucionário - e, três anos depois, volta a estar no centro da história.

O crescimento do radicalismo islâmico na região e o surgimento do autoproclamado Estado Islâmico (a Tunísia é um dos países com mais cidadãos, cerca de três mil, a alistarem-se como combatentes do Daesh no Iraque e na Síria) poderá explicar o que se passou no dia de ontem, 18 de março. Nos últimos meses, a crescente instabilidade na vizinha Líbia é também uma ameaça à segurança.

Morreram 22 pessoas, entre turistas tunisinos e estrangeiros. A perda de vidas humanas é lamentável, mas o que tem este museu de especial para se tornar um alvo a abater?

Tesouros milenares Em declarações ao jornal francês "Le Figaro", Yves Marek, diplomata francês de origem tunisina, explica que o Museu do Bardo é  "um local cheio de história, (...) onde se encontram todos os elementos do património histórico tunisino e em particular os patrimónios arqueológicos romanos e púnicos." Para Marek, o objetivo era "atacar a identidade da Tunísia".

Entre os seus maiores tesouros está "O Triunfo de Neptuno" (século II, d.C.), um dos mais impressionantes mosaicos da antiguidade - inserido numa vasta coleção da qual o museu é proprietária -, "O Busto de Afrodite", o "Hérmaion d' El Guettar" (uma das primeiras manifestações religiosas jamais conhecidas, datada de 40 mil anos a.C.), "Virgílio" e um mosaico que representa o deus grego Dionísio a prestar reverência a Ikarios. Ainda não existe qualquer relatório que aponte os estragos causados pelo atentado.

O tiroteio no Museu do Bardo aconteceu no dia em que o Parlamento tunisino preparava a aprovação de medidas antiterroristas

O tiroteio no Museu do Bardo aconteceu no dia em que o Parlamento tunisino preparava a aprovação de medidas antiterroristas

Ana Baião

Ataque perpetrado pelo Estado Islâmico? Logo após o ataque, o jornal britânico  "The Guardian" avançava que este teria sido reivindicado pelo autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). No Twitter, uma organização de apoio aos radicais islâmicos assinou a confissão: "Vocês começaram a lutar contra nós na coligação, por isso provem agora a punição".

A confirmação oficial da autoria do atentado pelo Daesh surgiu esta tarde, confirmando o que parecia mais do que evidente desde o momento em que a ação foi executada. Já em dezembro, um vídeo divulgado pelo Daesh ameaçava a realização de um ataque à Tunísia, mas a destruição já havia começado antes, com a destruição de património na Síria e no Iraque.

O tiroteio no Museu do Bardo aconteceu no dia em que o Parlamento tunisino preparava a aprovação  de medidas antiterroristas e poucos dias depois de Ahmed Al-Rouissi, um combatente tunisino do Daesh, ter morrido em confrontos com as tropas líbias perto da cidade de Sirte, na Líbia. Hoje, milhares de tunisinos manifestaram-se contra o terrorismo.