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As cores e as vozes de África no Porto

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Samuel Fosso, Camarões, “ Le Golfeur”

Biblioteca Almeida Garrett recebe a partir desta quinta-feira a exposição "You Love me You love me Not", baseada na coleção Sindika Dokolo.

África é um continente de muitas vozes que se tende a confundir como uma entidade unida. A arte produzida contemporânea por artistas de origem africana reflete bem esses muitos mundos de que é feito o continente, como poderá ser visto a partir das 19h desta quinta-feira na Galeria Almeida Garrett, ao Palácio de Cristal, no Porto, com a abertura da mostra "You love me You love me not", construída a partir da coleção de mais de três mil obras da Fundação Sindika Dokolo.

Para Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara Municipal do Porto, a "exposição ganhou relevância antes mesmo de abrir, desde logo por ser a maior mostra de arte contemporânea produzida por artistas africanos exibida em Portugal". Os trabalhos oriundos da fundação sedeada em Luanda já estiveram no Centro Pompidou, em Paris, ou em Veneza, mas nunca com uma dimensão semelhante à que agora poderá ser vista no Porto.

Marcia Kure, Nigéria, “The Players I”

Marcia Kure, Nigéria, “The Players I”

Será possível ver trabalhos de 51 artistas de várias nacionalidades numa mostra com curadoria de Bruno Leitão e Suzana Sousa, destinada a proporcionar um percurso revelador sobre muito do que é hoje o resultado das principais propostas artísticas de artistas que têm o continente africano como origem comum.

Uma arte inquieta Perceber-se-á, diz Cunha e Silva, a existência de "uma dimensão de inquietação, satisfação, vitalidade social, política e crítica que já não existe noutras latitudes, também porque são ainda muitos vastos os problemas existentes em África". Desse ponto de vista trata-se de uma arte bastante irreverente e muito iconoclasta, com trabalhos muito politizados e reivindicativos, num curioso regresso á política de que tem andado afastada grande parte da produção artística contemporânea europeia ou norte-americana, por exemplo.

Kara Walker, EUA, “Untitled Domestic Scene With Ham”

Kara Walker, EUA, “Untitled Domestic Scene With Ham”

A exposição é relevante até pelo ambiente de polémica nunca assumida por inteiro criado à volta da atribuição da Medalha de Mérito Grau Ouro ao patrono da fundação, Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos. Aprovada por unanimidade na reunião do executivo camarário, a atribuição da medalha recebeu depois os votos contra do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal, que criticava sobretudo a circunstância de a distinção ser atribuída a alguém que ainda nada fizera pela cidade. Rui Moreira contestou com a afirmação de que a exposição era já uma realidade.

A medalha da polémica Outras objeções centravam-se sobretudo em problemas de regulamento, por não ser atribuída na data que especificamente teria sido definida para estes eventos. A verdade é que já no ano passado o realizador norte-americano Oliver Stone recebeu esta medalha aquando de uma sua visita ao Porto, tal como recentemente foi atribuída, a título póstumo, ao poeta Manuel António Pina. Em nenhum dos casos as cerimónias aconteceram no dia tido como certo, 9 de junho, por ser a data que assinala o fim do cerco do Porto.

"You love me You love me not", um titulo cuja escolha nada tem de inocente, não apenas pelo que têm sido as relações de Portugal com a sua antiga colónia, mas até pelo que tem vindo a demonstrar este episódio da atribuição da medalha a um africano.

Seidou Keita, Mali, s/ título

Seidou Keita, Mali, s/ título

Segundo Paulo Cunha e Silva, esta iniciativa "abre todo um conjunto de possibilidades de colaborações futuras com Luanda", mas sempre a partir do paradoxo que não deixa de caracterizar as relações entre Portugal e a mais rica das suas ex-colónias.

Uma via aberta para estudo é a possibilidade de vir a ser criado um fórum de discussão de assuntos africanos.